Releituras do kraut ao pós-punk
To Rococo Rot
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ficha técnica
Nota: 3.9 / 5
Ano: 2009 / 2010
Selo: Full Pupp / Domino Records
Estilos: Krautrock, prog, pós-punk, experimental
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Releituras do kraut ao pós-punk
Álbuns de Prins Thomas, To Rococo Rot e Etienne Jaumet viagem fundo no prog experimental e hipnótico em sonoridades que remetem às raizes do krautrock e do pós-punk
14.04.10 20:45
Esta resenha tripla apresenta três álbuns que, por sua consistência experimental e pela versatilidade de produção e de uso dos instrumentos, é uma evolução louvável de sonoridades que há decadas permitiram o experimentalismo eletrônico na dance music e no pop (eletrônico ou não).

A psicodelia metálica e industrial do krautrock alemão, a revolucionária derrubada de fronteiras do pós-punk e os mantras hipnóticos e rítmicos da música prog são as premissas do primeiro disco autoral do norueguês Prins Thomas, do sétimo álbum dos já veteranos alemães do To Rococo Rot e Night Music, trabalho lançado no fim do ano passado pelo produtor francês Etienne Jaumet, com produção de ninguém menos que Carl Craig (ele mesmo um curioso inveterado sobre as sonoridades eletrônicas de décadas atrás). Confira.

PRINS THOMAS
Prins Thomas
Full Pupp - Nota: 4

Existem dois Prins Thomas. Aquele a frente das pick-ups, um rei absoluto de mixagens que vão da house music à música pop, trance e cancioneiro norueguês - também grande remixer; e aquele Prins Thomas músico, que alterna ambientes, humores, atmosferas e linhas instrumentais numa viagem prog rumo ao espaço, evolução fora da sonoridade neo-disco.

Em seu primeiro disco autoral, que leva sua foto na capa e o nome bem grafado, o norueguês crava uma hora de música em sete faixas, maturação da tentativa experimental de jam sessions feita em II, seu segundo disco em parceria com Lindstrom.

Prins Thomas é pasteurizado numa constante de faixas crescentes, que evoluem de bases e introduções instrumentais (riffs, percussões, notas ou cordas), que acabam por abraçar elementos, harmonias e ritmos ao longo de sua jornada veloz e hipnótica. É, basicamente, como andar a 100 km/h e ficar divagando o olhar sobre o que passa pela janela do carro.

"Slangemusikk" é como se o Orbital fosse contemporâneo do Neu!: um jogo de bases de synths (uma macabra, a outra repetitiva, meio oriental), até que frituras, pings e uma bateria preguiçosa trazem alguma vida. "Sauerkrat" é homenagem explícita ao krautrock, e surge simpática com cordas e sopros que cantam felizes junto de xilofones.

Nas 3 últimas faixas, o disco ganha em bom-humor e vivacidade ao adicionar elementos (aí sim!) da house music e da disco. "Wendy not Walter" é deep house com boa adição percussiva, tem aumento de massa ao longo de seus 7 minutos, mas não chega a explodir. "Nattonsket" é neo-disco norueguesa na essência, e o encerramento com "Attiate" traz as reverberações do Kraftwerk para um curioso groove falante, charmoso com seus riffs e breaks de bateria.

Flash Content
Prins Thomas - Slangemusikk (mp3)

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Prins Thomas - Wendy Not Walter (mp3)

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Prins Thomas - Attiatte (mp3)


TO ROCOCO ROT
Speculation
Domino Records - Nota: 3.9

Sete discos, 15 anos de carreira e um nome em palíndromo (que se lê de trás pra frente). O trio alemão To Rococo Rot, composto por Stefan Scheneider e os irmãos Robert e Ronald Lippok, passam ano após ano, álbum após álbum, imutáveis em sua sonoridade melódica, instrumental e harmônica, de rápidos momentos transcendentais.

Speculation foi gravado no estúdio do Faust, pioneiros do krautrock alemão, e mistura gingas de baixo, elementos percussivos orgânicos e hipnoses eletrônicas que emanam radiações, synths em espiral e muita, muita repetição. A constância aqui dá o tom - mais que os instrumentos -, criando variações a cada música, mas também uma identidade comum ao longo de suas 10 faixas.

"Away" abre com um curioso estalar de dedos, riffs e discreto jogo de bateria que é uma eficaz construção pop (só faltou vocal), com viés downtempo. "Seele" não se deixa levar pela instrospecção nostálgica do princípio e desenrola para um adorno de baterias que é dopado por um piano bonito, cheio de ecos. "Horses" repete a mesma estrutura de repetição instrumental em formato DNA, com bom arranjo sintético x orgânico - o ouvinte é pego pela hipnose, pela viagem.

A influência krautrock aqui é basicamente conceitual: repetição, hipnose e psicodelia enrustida. Sem muito ranço industrial, a referência urbanoide e áspera que o gênero costuma propor. De modo que Speculation é um disco confortável, quase ensolarado. "Working Against Time" é um cenário primaveril musicado, sem explosões abruptas e mera evolução na radiação de frequências, algo tão comum do techno de pistas a Chemical Brothers e até mesmo o dubstep.

Numa variante sonífera destas reverberações, o disco acaba com os 10 minutos de "Friday", que numa viagem mais exagerada soa como um ser estranho sucumbindo, o espaço ao fundo sendo musicado.

Flash Content
To Rococo Rot - Away (mp3)

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To Rococo Rot - Seele (mp3)

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To Rococo Rot - Working Against Time (mp3)

ETIENNE JAUMET
Night Music
Domino Records - Nota: 3.8

Metade da dupla de krautrock Zombie Zombie (eles tocaram no Brasil em 2009), o francês Etienne Jaumet se apropria do techno para seguir com suas influências eletrônicas experimentais em Night Music, primeiro disco solo. Para tanto, contou com a nobre ajuda de Carl Craig na produção do álbum, que saiu no fim do ano passado pela Domino Records.

Jaumet enxergou na origem de ficção científica que o techno permite (as escolas iniciais, C², Juan Atkins, Derrick May), para criar um rápido "libreto" de 5 faixas e 45 minutos que abordam ciência, física e ilustrações cotidianas humanas para mostrar o que pode ser a música noturna, no melhor estilo do esquisitão Kelley Polar.

"Entropy" é o ponto alto, nascida numa frequência sonora e que evolui em beats, linearidade sagrada e hihat camuflado que dá certo groove ("night music", lembre-se). Choques estáticos vêm e vão ao longo da música, contextualizando a faixa dentro de um rádio antigo. Tudo isto para explicitar a ideia de caos da entropia, conceito da termodinâmica que enxerga a desordem em matérias simples (como a mudança de estados e situações com o derretimento de um cubo de gelo num copo com água, por exemplo).

Flash Content
Etienne Jaumet - Entropy (mp3)

A reverberação constante e imutável do sintetizador está presente em quase todas as faixas, como em "Through The Strata", que violinos desafinados criam uma espécie de Jean-Michel Jarre bastardo, sem a cafonice grandiosa.

"For Falling Asleep" é tipicamente Carl Craig: evoluções de acid em contraponto ao clima urbano e sensual de sopros, e a base solta, bem solta. "Mental Vortex" pode, dependendo do ouvido, soar como um trance enrustido ou como techno-pop a la Junior Boys. Mas aqui Jaumet entrega o que promete quando notas disformes e ecos jazzísticos trazem ao cérebro a pura sensação de música noturna.

É a pura expressão da possibilidade artística, abstrata e temática que ganhou força no pós-punk e tem sido trabalhada à exaustão na eletrônica recentemente.

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Etienne Jaumet - Mental Vortex (mp3)

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Etienne Jaumet - Through The Strata (mp3)

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
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1 comentários
jaumet fodaaa