Esqueça cantoras jovens que sonham em ser a nova Aretha Franklin. Sharon Jones é "the real deal".
Ouvir Sharon Jones é se deixar transportar para um mundo completamente distante do nosso, localizado mais precisamente quatro décadas atrás. Esqueça todas essas cantorinhas brancas que tentam recriar o som magnífico da Motown dos anos 60 com um verniz moderno. Sharon Jones (cujo show a gente
viu em 2008) é, em inglês bem escrito, "the real deal".
Pra começar, o disco foi inteiro gravado usando um fita eight-track Ampex e instrumentos antigos, da mesma forma que os grandes músicos da época também o teriam feito. Isso faz que o som do grupo pegue você pelos pés e te envolva de uma forma que fica difícil escapar. Em tempos em que praticamente toda a música negra é feita com irritantes efeitos de autotune (até quando, óh céus?!), isso é mais do que uma genial lufada de ar fresco - ou seria um delicioso e bem vindo ar empoeirado?
Mas ao contrário de ser uma mera cópia dos originais antigos, tudo é novo em
I Learned The Hard Way, quarto disco de estúdio da cantora que tem uma carreira tão extensa quanto suas cordas vocais, e que é encantador do princípio ao fim. No alto dos seus 54 anos, Sharon canta com a propriedade e segurança de quem sabe o que está fazendo e tem domínio total de seu instrumento, sem precisar apelar para malabarismos vocais que só servem mesmo para mascarar a falta de talento das "aspirantes à nova Aretha Franklin" de hoje em dia. Nada é exagerado, fora de contexto, desnecessário - cada nota está ali com um propósito específico e cumpre bem a sua função.
Mas o crédito não deve ficar só com ela. Os Dap Kings são mais do que uma simples banda de apoio, são o fio condutor perfeito para a voz de Sharon, afiados e donos de um swing que poucos conseguem reproduzir. Eles são a muralha sonora que suporta Jones lá no topo.
O disco é repleto de algumas gemas pop de alto calibre como "Give It Back", "Window Shopping", "Money", "Better Things", "I Learned The Hard Way", "The Game Gets Old", "Without A Heart", "If You Call", "She Ain't A Child No More"... ops, lá se vai mais da metade do disco. Sharon segura as pontas e agarra os petardos lançados pelos Dap Kings que atacam de funk, soul, doo woop, blues, Philly Sound, jazz, percussões africanas, rock e tudo mais em perfeita harmonia.
A banda já vinha de um disco excelente (
100 Days, 100 Nights, de 2007), e conseguiram produzir um sucessor à altura. Embora seus outros dois discos anteriores à estes tivessem uma levada mais dançante, o talento dos Dap Kings em criar melodias que grudam em nossas cabeças compensam, e muito. Tem por exemplo o groove de "Money", com Sharon encarnando o melhor de uma
Tina Turner na época do Ike & Tina.
Enquanto canta, Sharon dá a impressão de estar conversando pessoalmente conosco, em um tom confessional que emociona até o mais resistente dos ouvintes. Assim como Billie Holiday, Sharon não se importa em sentar ao nosso lado e nos contar sobre as dificuldades e dores de sua vida. Mas seu canto é tão belo que não ficamos tristes, mas sim solidários, com vontade de ouvir mais. Pode abusar de gente o quanto você quiser, Miss Sharon. Já somos todos seus.
Só naum me pede pra esquecer a Winehouse, pufavô....