Novo disco do projeto de Dan Snaith é um absurdo criativo e percussivo; psicodélico, dançante, indie e também melancólico. Ouça
Swim, terceiro disco do músico canadense Dan Snaith com o
moniker Caribou, é tão irresistível quanto é difícil de compreender de imediato.
É um raro caso de equilibrio entre experimentalismo e melodia, agradável aos ouvidos e complicado no reconhecer de similaridades e referências imediatas, jóia sonora que gruda no ouvido e traz a curiosidade que leva a diversas audições. São nove faixas de pop eletrônico com ênfase na percussão que transborda personalidade, feito para ser tocado ao vivo, apresentado em banda completa com Snaith nos batuques, beats e caixas. O som de
Swim é uma mutação de referências que passam por
Carl Craig, a psicodelia 90s do
Chemical Brothers e é contemporâneo em termos de produção a
Hot Chip e
Junior Boys.
Esta nova fase do Caribou, após o celebrado e premiado
Andorra (2007), começou a surgir em janeiro, com a aparição de "Odessa", primeiro single, ambientado por metais distorcidos que criam harmonias junto de reverberações, pandeiros e triângulos, quase um samba-techno do crioulo doido. De prato principal vem a voz doce de Snaith no simpático e grudento refrão "she can say, she can say, she can say, she can say..", e arrepios industriais que soam como pássaros gigantes, voando ao lado de flautas. Uma aula de orquestração, com belo clipe:
Odessa - CaribouComo álbum,
Swin é curto, com apenas nove faixas bastante diferentes entre si. O single seguinte, "Sun", tem base de pratos, beats e distorções harmônicas e traz o mantra "sun sun sun sun", ecoado e canalizado, que surge límpido e alto na evolução dos instrumentos. A mesma faixa está disponível para remixes, em um concurso armado pelo produtor no site oficial:
http://www.caribou.fm/index.php/blog/entry/sun_remix_contest/
SUN, SUN, SUN, SUN, SUN, SUN..."Sun" é candidata a melhor faixa do disco, mas o páreo é duro. "Leave House", sexta do álbum, lembra Hot Chip mas é mais consistente no jogo pop de backing vocals e sussurros, pela fusão irreconhecível de disco 70s e psicodelia hippie dos anos 60, esta última característica muito presente em
Andorra - vale ouvir "
After Hours", a melhor faixa desse disco de 2007.
A ênfase no techno-pop se dá em
Swim pelo apuro percussivo. Aqui, beats, pancadas e trepidações rítmicas servem como base, efeitos, cadências e velocidades, longe de fórmulas prontas sugadas de influências fáceis que poderiam vir de gêneros e outros artistas. "Found Out" é a principal fonte de groove no disco, com rajadas de drum machine mergulhadas em beats profundos, e notas contrastando com calmaria e hipnose. "Bowls" é uma chuva percussiva de sinos e motores sintéticos, quase um trem sem controle que só é parado por
claps e pianos houseiros.

Mais para o final, Snaith adentra a introspecção. "Hannibal" pega o ouvinte pela sensação nostálgica, quase triste, e deixa os efeitos e a base falando sozinhas, lembrando
Moby no auge de sua inspiração melancólica. "Lalibela" é um interlúdio abafado de techno e rajadas espaciais de synth e gemidos que soam como sonhos, abrindo espaço para o encerramento com "Jamelia" Aqui, o vocalista do
Born Ruffians é convidado a surrurar versos entre violinos assustados, relógios musicais cinematográficos e harmonias gritadas que soam como
Air France em sua ambientação primaveril, de sol nascendo.
Desde 2005, quando
The Milk Of Human Kindness foi um álbum com jeitão
Daedelus de misturar abstração eletrônica com indie-rock, até o presente 2010, Snaith merece crédito não só por agradar de forma dançante, mas também pela evolução e pelo apuro de produção, cheio de excelência e identidade amarrada - ao mesmo tempo que cada música pode ser uma diferente narrativa.
Mais do que ficar carimbando "Swim" como candidato a disco do ano, este trabalho revela a genialidade de Dan Snaith, um matemático, como músico, capaz de criar belezas sonoras da desformidade.