Açucarado e efêmero, quinto disco do grupo inglês é retorno radiofônico via synth-pop
Depois de um flop em forma folk (o álbum
Seventh Tree, de 2007), o grupo britânico Goldfrapp volta a praias pop e a uma "euforia" eletrônica via synth-pop, este que parece o último refúgio da dance music, formatação vintage e bem elástica para que artistas já consagrados possam brincar com o mais do mesmo.
Head First, quinto disco da já consagrada carreira de Will Gregory, Alison Goldfrapp e banda é um espasmo de alegria em rápidas e certeiras nove faixas.
É um disco feito para ser consumido como se propõe: rapidamente, como um pacotinho de balas Jujubas dos anos 80, época em que se ouvia Olivia Newton-John e o ABBA era uma memória acesa no coração do pop. De toda sua discografia,
Head First é o disco mais imediatista, lúdico e até mesmo infantiloide do Goldfrapp. Mas isso não é de todo mal. Numa banda que sempre primou pelo pop polido por experimentalismo sonoro e erudição, as faixas são muito bem construídas, os refrões grudentos e hm, bonitinhos, que não chegam a ser babacas.
O primeiro single surgiu já no começo de 2010, "Rocket", que é um jogo de palavras, rajadas de sintetizador velho e o jogo entre ponte-refrão, um "ôÔÔÔô" grudento que lembra até Balão Mágico (sério), e faz sentido num cenário freudiano em que nossas remissões à infância ainda são a saída para expressão artística.
Entre os fãs, talvez foi o single que mais despertou reação tão adversas, tanto amor quanto ódio. Veja o clipe.
Goldfrapp - RocketAlison não é tonta e não faria um álbum meramente vintage. A teatralidade do grupo está lá, com a interpretação sempre etérea de sua cantora que, no palco, pode gerar desde momentos líricos até efusivas brincadeiras entre som, figurino e público (a corujona de
Seventh Tree é um bom exemplo disso). "Believer", segunda faixa, é simples e tem notas nipônicas entre um synth electroclash e refrão bonito, menos boçal. "Alive" é puro chiclete 80s, Xanadu
style, mas o coro de Alison e suas backing vocals é nostálgico, juntamente com os synths espaciais e o piano onipresente.
Com "Dreaming", a partir da 4ª faixa, o disco "anoitece", e ganha em maturidade, um pouco de sensualidade e na liberdade de referências. Alison já está mais solta, com seu vocal de fada e lembra alguns momentos de
Felt Mountain, seu tão cultuado 1º disco, quase uma obsessão entre os fãs. A faixa-título é uma homenagem a ABBA - ouça pelos pianos e pela cadência rítmica e da percussão -, e de novo é aquele momento saudosista e introspectivo que sempre há nos álbuns do Goldfrapp. "My whole world in light", clama, enquanto cordas, synths e cintilantes efeitos criam essa atmosfera sinestésica, ponto alto do disco.
Outro ponto alto é "Shiny and Wam", praticamente uma sequência de "
Satin Chic" (de
Supernature, 2005), com seu clima de cabaré e vontade roqueira que é extravazada por sintetizadores, eles que são a nova guitarra. Alison mais sussura que canta, e aqui Will é responsável por ditar os conhecidos dogmas do Goldfrapp em uma faixa efetiva, veloz e inescapável.
Por mais acessível e pop que este álbum seja, sempre haverá aquela sensação saciada pela voz de Alison, não à toa o disco acaba com "Voicething", brincadeira gutural com sua voz em que ela imita algo como um pássaro (
The Knife feelings).

"Hunt" é aquática e sonada, sem refrão e apenas sensações, e "I Wanna Life" é o último momento radiofônico. Alison mais uma vez abusa dos ôÔÔÔs, enquanto repete que quer viver, que quer saber, que quer tudo para sempre. Das primeiras audições até à repetição, o espectador canta junto e, se a música exagera na facilidade e nas referências fáceis, ela é liberta ao ser perfeitamente construída, quase sublime por conta dos vocais cristalinos.
De fato o disco mais fácil e acessível do grupo,
Head First não é apenas retrô, não só essencialmente pop. E muito menos significa metamorfose alguma, já que uma década e cinco discos depois, Alison e Will sempre misturaram novas referências e suas vontades com as características do grupo: introspecção erudita, teatralidade pop e sabor dançante e grudento oriundo da música eletrônica.
Como qualquer artista pop, de Madonna a Kylie, de Michael Jackson a Abba, a identidade sonora nunca é desvirtuada, apenas trabalhada em novas perspectivas que, estatisticamente e pela boa produção, acaba sempre agradando a maioria. Ou criando a expectativa para que aquele próximo disco seja "o Goldfrapp das antigas". Ou o "Goldfrapp mais electro", o "Goldfrapp do primeiro disco".
..Seventh tree foi trilha sonora de muitos momentos em minha vida, esse sim eh uma delicia de se ouvir, obra-prima do inicio ao fim....
Xanadu
Alison Goldfrapp colocou paletó e gravata nos seus sintetizadores e agora soa como a Olivia Newton-John do século 21. Não que isso seja ruim, mas num mundo synthpop povoado por La Roux, Little Boots e Ladyhawke, periga seu novo álbum "Head First" (de belíssima capa) não causar metade do impacto que o impressionante debut "Felt Mountain" causou em 2000. Com produção do veterano Pascal Gabriel (que já trabalhou, veja só, com Little Boots e Ladyhawke) e do promissor Richard X, "Head First" é uma ótima coleção de canções pop eletrônicas, e tem pelo menos mais dois hits em potencial (além da já estourada "Rocket"): uma mais com cara de hit de pista remixável ("Believer") e outra uma pop song perfeita pro airplay das rádios ("Alive").