Rostos delicados (pintados com bigodes e barbas), arranjos insanos que não se deixam prever, barulhinhos etéreos. Essas características, que tornam as irmãs do
CocoRosie tão encantadoras, voltam no quarto álbum das americanas - primeiro delas a ser lançado pela prestigiosa gravadora
SubPop. E com uma capa que chega a doer.
Morando atualmente no Novo México (elas começaram a compor juntas em Paris, sete anos atrás), Sierra e Bianca passaram por quatro cidades durante a feitura do álbum: Buenos Aires, Melbourne, Nova York e Paris.
Grey Oceans é acessível e tem acabamento sofisticado em comparação a outros momentos de sua discografia - a exemplo de sua estreia
La Maison de Mon Rêve (2004). Não que isso sugira um disco que se domestique na primeira audição. Há muitas camadas e elementos movediços, viagens formais, etc. Mas, no conjunto, o trabalho está mais polido e coeso.
As onze músicas passam por baladas abafadas, de bateria pequenina e melodias inspiradas. Aveludados, os vocais se enroscam com notas de piano e de teclado sintetizador - como na belíssima faixa de abertura, "Trinity's Crying". (Ao fundo, sons da floresta completam a sensação de estranhamento.)
Em seguida vêm os tambores e flautas de "Smokey Taboo" - um cântico silvano ritmado por percussão hipnótica. Sem dúvidas, uma das canções mais inspiradas na carreira das CocoRosie, e perfeita para tardes nubladas pelo ócio.
Fazendo dupla, vocais e pianos embalam quase todas outras composições. (Com adição de xilofone, brinquedos eletrônicos, samples não-identificáveis...) Não espere por caminhos previsíveis: Sierra e Bianca fazem música de uma maneira tão particular que fica impossível adivinhar como soará o próximo compasso.
"R.I.P. Burn Face" tem notas saídas de algum Casio usado, metidas junto a incontáveis timbres dissonantes e ruídos invisíveis. Outros momentos inspirados: "Undertaker", cujos vocais devem ter sido captados nalgum gravador de pilha; "Fairy Paradise", com teclados vacilando entre o lado esquerdo e direito do fone; e a assustadora "The Moon Asked the Crow" - que poderia servir de trilha numa animação de Tim Burton.
Grey Oceans é um daqueles trabalhos surrealistas que vencem pela capacidade de se desprender do usual. Quantas cabeças seriam capazes de misturar tantos elementos desconexos e tirar disso algo interessante?