Deixando a sonoridade "Superstylin'" para trás, Andy Cato e Tom Findlay brincam com o electro e até o rock 80s sem medo de serem felizes
Três anos depois de
Soundboy Rock um disco bem a cara do Groove Armada, com suas malemolências de R&B, da Jamaica e do funk na construção pop eletrônica já manjada da dupla inglesa, Andy Cato e Tom Findlay foram para o lado negro da força. Para a luz negra, em um álbum que inaugura sintetizadores 80s em sua trajetória e é um trabalho bastante consistente de referências e possibilidades a partir do electro-rock, techno-pop e do synth-pop obscuro, uma ode aos anos 80.
Black Light é uma reviravolta na versatilidade dançante do Groove Armada que, segundo seus criadores, buscavam mostrar seu lado negro há mais de uma década. São 11 faixas, todas com convidados e novos vocalistas. Com influências que vão de Gary Numan a Siouxie Sioux, o disco tem seu caldo encorpado pela presença berrada e visceral de Nick Littlemore (PNAU, Empire of the Sun) em quatro músicas, e também por ter a proeza de escalar Brian Ferry para a "Shameless", que só poderia ser o ponto alto na sensualidade do álbum e, mesmo sem refrão por A + B, é uma canção tensa, que prende a atenção por sua viagem de sintetizadores, cordas soltas, claps e vocais açucarados.
Groove Armada - I Won't KneelJá foram lançados dois singles: "I Won't Kneel", que apresenta a nova vocalista do grupo SaintSaviour, uma mistura de Robyn com Kate Bush. O
crescendo da faixa é abraçado por vocais cheios de ecos, batidas descompassadas e agudos angelicais em contrapontos a guitarras, apresentando um Groove Armada inspirado e renovado, diferente de tudo que já fez. "Paper Romance" tem espírito raver, de show ao vivo, e os vocais indie lamuriosos e quase infantilóides são divididos pelo grupo Fenech-Soler e por SaintSaviour numa espécie de Presets lúdico, cheio de frescuras cintilantes e estrofes grudentas.
Groove Armada - Paper RomanceA tal versatilidade do Groove Armada, que pela proeza deste bom disco acaba por levar só elogios, também não é inocente, e muito menos pioneira. Para criar electro, Cato e Findlay foram atrás do substrato mais bombator da geração neo-synth pop australiana. Por isso as remissões a Presets, ao fato de que por momentos
Black Light soa como um novo trabalho do PNAU de fato. Nick Littlemore, o frontman do PNAU e do Empire of the Sun tem um quê de pregador grandioso e tenso. "Cards To Your Heart" chega num electro cavalgante em berros sobre música, obsessões, família e o amor, talvez nesta que seja a melhor faixa do disco, com seus sintetizadores canalizados e notas de piano e o característico vocal 80s, que pode lembrar tanto o próprio Gary Numan quanto Tears for Fears.
"Not Forgotten", também com Littlemore, é praticamente um plágio do electro-rock afetado dos dinamarqueses do
Spleen United e deve ser esplêndida ao vivo, e aqui conta muito a favor o comprometimento de Cato e Findlay com a boa produção: afinal, é música pop, ou dance music que se propõe polida como tal. Na mesma seara rocker, tem "Warsaw" e "Look me In The Eye Sister", em que a cantora Jess Larrabee (who?) é a encarnação de Siouxie nos tempos do revolucionário
Juju. Mas sem a morcegóvia gótica, já que ecos eletrônicos nos trazem com pés no chão a 2010, e não 1984.
Luz negra = sintetizadores

Encerrando o disco, o dueto "Time & Space" e "History" trazem alegria mais dançante, apesar de contida, fechando
Black Light de forma animada. A primeira tem um quê de Moby com Basement Jaxx, é techno-pop com influência house e tem um gemidinho viciante e grudento. "History" é neo-disco, e apresenta Will Young, cantor que virou cool após ganhar um reality show musical inglês nos moldes do
American Idol em 2002. As notas são baleáricas, o beat traz o ritmo dos efeitos e o efeito abafado é bem house old school, delicioso.
Sexto álbum do Groove Armada,
Black Light mostra como o grandioso pop eletrônico inglês, oriundo dos anos 90 em nomes como Prodigy, Chemical Brothers e o próprio GA, tem fôlego para experimentar, e manter seu culhão, mesmo que pra isso tenha que beber na veia ousada de novas subcenas e artistas - no caso, o synth-pop australiano. E era um
turning point preciso, para mostrar novas possibilidades musicais de Cato e Findlay e deixar "Superstylin'" definitivamente no passado, porque já deu.