Disco dos italianos tem 22 faixas, 25 convidados, e outras dezenas de ritmos e sonoridades
Prevejo um grande futuro para os simpáticos rapazes do Crookers. Não só porque os italianos Phra e Bot juntaram um extenso time de peso em seu primeiro álbum,
Tons of Friends, mas pela qualidade de produção de seus beats, que partem de um pressuposto hip hop/electro para criar tanto pop, house music, pancadões e uma incansável dose de dubstep e grime.
Olhando para trás, lá em 2007/08, a dupla cresceu de uma empolgação ansiosa e juvenil da onda fidget e maximal para um bom apuro musical calcado em influências seminais na sonoridade destes dois jovens, que tocam/produzem juntos desde 2003 e são DJs de hip hop desde moleques.
Tons of Friends saiu pela Southern Fried, selo de Fatboy Slim, e tem 22 faixas (!). E apesar do tracklist longo e, até mesmo pretensioso por seus convidados (de Róisín Murphy a will.I.am; de Spank Rock a Yelle), há uma unidade coerente e bem pensada ao longo de sua hora e pouco de audição, bem diferente da punheta irritante de EPs da dupla como
Mad Kidz, que depois desse disco ficaram mesmo no passado.

As faixas sempre costuram bem cerca de 4 elementos fixos de diferentes gêneros e substratos da dance music. A melhor de todo o disco - e talvez uma das melhores dos anos até agora -, "Royal T" (ft. Róisín Murphy) é um explode-bunda que começa num dubstep derretido, com Murphy cantando no melhor estilo, até que lampejos de synths a la Justice - que estão pelo disco todo, trazem uma tempestade de house music 90s cheio de groove e bass, a cara de Róisín em 2010. Chimbaus e efeitos rasgados bem no jeitão Timbaland (outra coisa que tem no disco inteiro) são a trilha para a cantora irlandesa berrar, histérica como nunca, ela que quando toca como DJ já declarou que usa as faixas do Crookers para estourar as caixas de som.
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Crookers - Royal T Ft. Roisin Murphy (mp3)
O disco abre com a já conhecia "We Love Animals", parceria gravada em instrumentos analógicos no estúdio do Soulwax e que tem bateria de Iggor Cavalera, do Mixhell. Ao contrário de
Scars do Basement Jaxx, outro disco que investe pesado em convidados, aqui a narrativa é sempre extrovertida e dançante, um estudo para as pistas de uma variedade bem peculiar do fim desta década, o pós-maximal que é a cara de lugares como Los Angeles, Londres e São Paulo. Até mesmo em seus momentos pop o Crookers transborda carisma dançante e cria bem identidades faixa a faixa a partir de seus convidados, sem perder a unidade do álbum. Caso da lúdica "Cooler Couler", em que os beats e a ambientação viajante são a cara de Yelle, a protagonista da faixa.
Outra bem pop, "Remedy", traz os suecos do Miike Snow num techno-pop subaquático em que paradinhas de maximal dão a deixa para os vocais, efeitos de caixa de bateria e synths de electro nostálgicos e sutilmente dançantes. Dá para tocar tanto numa festa, quanto na FM à noite e numa mixtape. "Transilvania" apresenta a jovem banda islandesa Steed Lord, electro meio Halloween em que a vocalista é uma Grace Jones albina e esquisita. Gravado na Islândia, a faixa ganhou clipe com rostos pintando de caveiras/coringas que lembram Fever Ray, assista.
Crookers - Transilvania ft. Steed LordÉ curiosa a interpretação que o Crookers faz do dubstep. São apropriações dos elementos mais pasteurizados do gênero que, inseridos num contexto de pop e hip hop, soam como o futuro. E é esse é o merito da composição do Crookers no disco: simplicidade, aliada à diversão (descompromisso) e os convidados. "No Security", com a
barraqueira Kelis, e a ótima "Hip Hop" ft. Rye Rye diz como o hip hop "mudou" num pancadão com dubstep e bass de Snoppy Dogg.
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Crookers - Hip Hop Changed Ft. Rye Rye (mp3)
Junto do retorcido dubstep, que aqui tem mais cara de grime pela fusão hip hop, há também o bounce world music de ritmos jamaicanos, africanos e brasileiros. "Birthday Bash" tem o rapper Dargen D'Amico soando como um angolano, a ex-Bonde do Rolê Marina chamando as vadias pra festa enquanto o Very Best traz um sopro quente de África em cântico e beats. "Arena" é um dancehall com o sotaque francês de Poirer e "Jump Up" é a participação especial do Major Lazer no disco.
Bot e Phra

Faixas que, apesar do multicuturalismo, são contemporâneas e irmãs gêmeas de pancadões como "Tee-Pee Theme" ft. Drop the Lime.
Certo olhar especulativo está presente, claro (para não chamar oportunismo). Como a insistência em
"Day N Night", do Kid Cudi, cujo remix do Crookers ajudou a alavancar a carreira dos italianos. Mas
Tons of Friends é competente e por seu bom nível de produção tira aquele preconceito de que seria um álbum apenas para exibir bom networking. Phra e Bot insistem na criação de faixas com o rigor de um estúdio, variam possibilidades centrados em sua identidade, sem medo de ousar - e até mesmo exagerar. Nasce assim um jovem Basement Jaxx: bons produtores, ótimos DJs que surgiram amarrados a cenas com data de validade e que superaram essa limitação com boa música.
;)