The Knife - Tomorrow, In a Year
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ficha técnica
Nota: 3.6 / 5
Ano: 2010
Selo: Rabid Records
Estilos: Experimental, ópera, lírico, pop, teatro, IDM
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The Knife - Tomorrow, In a Year
Ópera eletrônica sobre Darwin levou dupla sueca à Amazônia e a onomatopéias sonoras que, em álbum, vão do experimental absurdo ao pop
12.03.10 10:55
Após Silent Shout, de 2006, a dupla sueca The Knife atingiu um nível de adoração igual ao dos primeiros acts eletrônicos dos anos 90, como Prodigy e Daft Punk. Eles são o David Lynch da música eletrônica, assombrando almas e espumando ouvidos com um electro-pop obscuro e contagiante, que cega os olhos perantes criaturas e personagens tão absurdos, criando tanto musical quanto visualmente.

Com a empreitada solo Fever Ray, em que Karin Dreijer assumiu seu alter-ego de bruxa xamânica, a possibilidade de interpretação artística em torno da gênese The Knife provou ser uma fonte inesgotável de criatividade. Afinal, o tal fim do mundo propagado pela ansiedade por 2012 é a cara dos monstros e distorções criadas por estes nórdicos estranhos.

Flash Content
The Knife - Tomorrow in a Year (mp3)

A discografia do projeto conta agora com Tomorrow, in a Year ópera de livre interpretação sobre A Origem das Espécies, livro revolucionário do biólogo e naturalista britânico Charles Darwin, que completou 150 anos em 2009. Foi o livro que derrubou com comprovação científica o criacionismo das religiões e crenças, tirando de Deus a autoria de nosso surgimento. Encampada pela companhia dinamarquesa Hotel Pro Forma, o The Knife contou com a ajuda dos projetos de electro Mt. Sims e Planningtorock, similares em estranheza ao The Knife, para criar a trilha da ópera, que saiu em álbum agora em 2010. Olof Dreijer chegou a viajar à Amazônia brasileira, onde realizou pesquisas e captação de áudio no laboratório de arte Mamori Art Lab, localizado a 100 km de Manaus, no meio da floresta.



Tomorrow, in a Year pode frustar fãs ávidos por um novo Silent Shout, e vai decepcionar quem espera a pegada pop de Deep Cuts, de 2003. É algo totalmente novo na trajetória de Karin e Dreijer, um trabalho maior, mais complexo, em que a música não é 100% autoral - o The Knife aqui surge como curador, molde da identidade sonora. Karin, aliás, canta pouco, só em "Colouring of Pigeons" e na versão 'vocal' para "Annie's Box". E sempre como participação especial, já que a dramatização em canto dos 2 atos da ópera (um sobre a vida e a exploração de Darwin; a outra sobre o resultado de suas pesquisas), foram escritos pelo The Knife para serem cantados e narrados por uma cantora lírica (a mezzo-soprana Kristina Wahlin), uma cantora pop (Lærke Winther) e um ator (Jonathan Johansson).

SYNTHS QUE ARRULHAM E REVERBERAM
Algumas faixas são completas onomatopeias de pássaros, mais precisamente pombos, animal escolhido como tema da ópera e também uma das fontes de análise de Darwin, um columbófilo de respeito na Grã-Bretanha da época.
DARWIN E OS POMBOS
"Por maiores que sejam as diferenças entre as raças, estou plenamente convencido de que todas descendem do pombo silvestre (Columba livia), incluindo nesta demoninação diversas raças geográficas ou subespécies que diferem entre si em pontos muitos insignificantes", explica, em teoria que pode ser aplicadas a todos os animais, inclusive ao homem, o grande cerne polêmico e revolucionário de sua obra: evoluimos tal qual uma ostra ou um cachorro a nossos ancestrais comuns.
No disco, "Epochs" usa reverberações monstruosas que lembram os Tripods de Guerra dos Mundos para interpretar o arrulhar destas aves, enquanto a soprano fala sobre sedimentos e fósseis acumulados por anos. O acúmulo e a interação de seres, elementos e distâncias geográficas representa o paradoxal título do disco. Amanhã, em um ano, in a million years.

"Variations of Birds" é similar a "Epochs", mas apresenta um ruído linear e incômodo, que vira intermitente e desvenda-se como novos pássaros "The Knifeiros". No palco a encenação traz atuações cheias de pausas e olhares contemplativos, fora a reverberação monstruosa que espantou os críticos dinamarqueses pela forma como tremia as caderas do teatro. Assim, é compreensível como esta obra, em álbum, é de difícil assimilação - o ideal é assistir ao concerto, ou ao menos um DVD podia ser lançado.

Flash Content
The Knife - Colouring of Pigeons (mp3)

A parte "acessível" é o desfecho pop que passeia por quatro longas faixas. A primeira é "Colouring of Pigeons", divulgada inicialmente pela banda, e que narra visões da natureza pelos olhos de Darwin: impressões sobre Bornéu e análises sobre penas e bicos de pássaros em uma letra bem construída por Karin que mistura ainda o lado pessoal do biólogo, principalmente na sua relação com a irmã Annie. Aos 10 anos, ela se correspondia por cartas com ele e veio a falecer na época de sua expedição. Um jogo de percussão dá a ambientação tropical; a interpretação de sons de pássaros aqui é pelos "oooh-OOOh-ooh" da cantora, até que Karin surge, narrando a história. Lá pelo final, quando narrativa e ápice erudito da soprana duelam, o espectador já está completamente arrepiado, entregue.

"Seeds" é um minimal techno cheio de bumbos em que os atores cantam, hipnotizados. "Tomorrow in a Year", a faixa-título, tem ares de encerramento de ato e resume as observações de Darwin sobre a preponderância do tempo, em uma percussão contida e hipnotizante, como que africana. Sutil, mas profundamente abstrato, como a encenação exige: além dos interprétes, seis dançarinos e um palco móvel dividido em cômodos, há um grande jogo de luz e laser contemplando a encenação. Assista.



Um ponto alto é também "The Height of Summer", em que a letra tipica de The Knife e é palco para um bom desdobramento harmônico e fofo da cantora Lærke Winther, que lembra um pouco da voz da também sueca Jenny Wilson. A faixa é pop, cheia de assovios e synths que iluminam a canção como o sol ilumina a areia da praia, justamente do que a música trata: a contemplação integral que se tem da natureza no verão.

Num tempo em que temos Avatar como redenção à natureza e em que o exotismo africano e charme étnico é uma boa medida para o sucesso na música alternativa, fica provado com Tomorrow, in a Year que ninguém faz música melhor sobre o meio ambiente, sobre animais e sobre o espanto dos mistérios da natureza que o The Knife.

Talvez 2012 não represente o fim do mundo, mas sim a necessidade de uma revolução "verde" e interior, que retorne às origens arcaicas da evolução humana. E ninguém melhor que Karin e Olof Dreijer para celebrar Darwin neste sentido e impressionar a cultura pop com o híbrido homem-criatura-bicho. Se entrarmos numa nova fase hippie, de consciência espiritual e ecológica, o The Knife será mais protagonista do que nunca.
MP3
Flash Content
The Knife - Epochs (mp3)

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The Knife - Seeds (mp3)

Flash Content
The Knife - The Height of Summer (mp3)

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The Knife - Variation of Birds (mp3)


Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
2 comentários
Diego Medeiros
Diego Medeiros(16.03.10)
2AprovadoQueima
Correção: Anne Elizabeth Darwin, ou Annie, não era irmã de Darwin, mas sim sua filha, que morreu aos 10 anos, fato que marcou a vida de Darwin e muitas de suas pesquisas. ;)
God-Dog
God-Dog(12.03.10)
2AprovadoQueima
Só acho meio injusto julgar o álbum sem ver a opera em si. Certeza que parte de seu efeito cartático é perdido e a nota seria 5/5. No mais, o Jade arrasou de novo, só pra variar. Parabéns!