
O nome da banda (seus integrantes pronunciam "shoe shoe") foi tirado de um depressivo filme chinês, e "xiu" significa "sapato". Apenas com essas primeiras informações já é possível ter uma idéia do quão estranho é esse grupo californiano liderado pelo excêntrico Jamie Stewart, compositor e vocalista. Agora, a singularidade e o vanguardismo do
Xiu Xiu estão de volta em seu sétimo álbum,
Dear God, I Hate Myself.
No estilo da banda coexistem vários gêneros, incluindo jazz, post-punk, 80's, techno, folk e até mesmo clássico moderno. Tudo isso acrescido de muitos ruídos e muito sintetizador. A grandiloqüência sonora chega à incongruência absoluta, ao niilismo - subversivo, o Xiu Xiu contesta as convenções mais fundamentais da expressão musical.
Dear God, I Hate Myself foi realizado por Jamie Stewart, único membro constante desde a criação do grupo, Ches Smith na bateria/percussão e Angela Seo estreando no piano, sintetizadores e programação de bateria. Esse é o primeiro álbum desde a saída de
Caralee McElroy, que era uma presença relativamente calma no mundo turbulento de Stewart.
Stewart é a alma do Xiu Xiu com seu carisma dark, sua passionalidade e sua ironia. Ele tem prazer em chocar. O vocalista oscila seu tenor assombrado brincando com a desarmonia. Em seu trabalho, ele realiza uma auto-análise tão implacável que ultrapassa o melodrama e se torna magnética. Mais do que narcisista, Stewart usa a música como instrumento de sobrevivência, deixando aspectos perturbadores do seu ser escoarem para sua arte.
O debut do grupo,
Knife Play (2002) é a verdadeira profusão de todas as coisas retorcidas e destruídas, com a mistura de sons fortes, metálicos e agudos.
A Promise (2003) é um disco conceitual sobre o desespero e a saudade, cuja atmosfera foi altamente influenciada pelo suicídio do pai de Stewart na época em que faziam o álbum. As músicas são mórbidas e sinistras, e o Xiu Xiu confirmou seu talento na experimentação musical.
Então, veio
Fabulous Muscles (2004), o disco mais bem sucedido do grupo pela crítica. Muito mais acessível, é pop e perturbador em doses iguais.
La Forêt (2005) foi um regresso à postura musical mais dark e a expansão de uma dimensão tenebrosa.
The Air Force (2006) rompeu com a tradição com um som mais minimalista, em contraste gritante com os anteriores. Em
Womens as Lovers (2008) a bateria foi a maior responsável pela transição sonora no álbum, que apresentou instrumentação mais "viva", menos eletrônica.
O novo álbum segue com a ousadia e as texturas eletrônicas que o Xiu Xiu usa como base para suas melodias. Stewart demonstra a mesma necessidade de desabafar, mas esse disco está mais amplo, pop e alegre. Há muito de synth-pop com toque gótico, e quatro faixas foram produzidas com um software de música para Nintendo DS, conferindo uma dose de doçura que pode soar falsa e piegas, considerando a discografia da banda.
"Se você espera que eu seja ofensivo / Eu vou ser mais ofensivo", Stewart canta na abertura do disco. "Gray Death" tem contornos suaves, mas é encerrada com um ruidoso solo de guitarra. A oscilação está em sintonia com as emoções confusas reveladas. Na faixa seguinte, "Chocolate makes you happy", a referência à bulimia é ironicamente cadenciada em meio a rajadas de ruídos, sinos e sintetizadores entrelaçados ao vocal sofrido.
"Apple for a Brain" dá continuidade enfatizando sons de vídeo game. "House Sparrow" apresenta tendências à música ambiente. Na faixa 5, "Hyunhye's Theme", a melancolia é sustentada pelo violão, mas também conta com ruídos eletrônicos assustadores. A faixa-título é um bom resultado das experimentações com sons de vídeo game, bem como a selvagem "Secret Motel".
O baixo de "Falkland Rd." segue uma linha espiral descendente, acompanhada de piano e xilofone. "The Fabrizio Palumbo Retaliation" vai da dor à luz, enquanto "Cumberland Gap" apresenta um folk tradicional abastecido de banjo. A faixa 11, "This Too Shall Pass Away (For Freddy)" conta com um refrão convidativo, e o álbum é encerrado com a nublada "Impossible Feeling" e seus violinos.
Certamente muitos interpretarão a entrega de Jamie Stewart exagerada, beirando o patético. Outros, o acharão pretensioso. Mas a verdade é que a música do Xiu Xiu é poderosa e "Dear God, I Hate Myself" é reflexo da consistência esmagadora da banda. Gostar dela depende apenas do quão longe você está disposto a ir e, quando você se dá conta, está imerso em um certo prazer voyeurista. O Xiu Xiu visa a catarse, e sua capacidade de casar sons oblíquos com uma atmosfera particular torna essa mistura de remendos extremamente interessante.