Não dá para dizer volta às raízes. Em seu décimo disco,
From a Forest Near You, a dupla brasileira Tetine assume uma curiosa faceta "natureba", uma legitimação de sua origem brasileira para criar dance punk tropical. Vivendo em Londres há uma década, Bruno Verner e Eliete Mejorado sempre representaram o underground paulistano, seja tanto em intervenções artísticas com amor, transsexualidade e sexo, ou até mesmo no tórrido pancadão do funk carioca, que dominou o som do Tetine por alguns anos.
From a Forest Near You, neste sentido, é igualmente tropical. Mas diferente, porque o disco tem uma veia krautrock gritante. São 14 faixas gravadas em sua casa, e já com clipes para as pujantes duas primeiras faixas, de fato as melhores do álbum que foi lançado pelo selo próprio Slam Dunk Music, espelho para lançamentos do programa Slum Dunk que eles tem na Resonance FM. "Tropical Punk" abre o disco dando a premissa, com um riff que passeia lado a lado ao vocal rouco e afetado de Bruno que, sem refrão certo, gruda na sua cabeça mesmo assim. O clipe é no melhor estilo Odara de ser: fogueira no meio da mata,
takes entre galhos e arbustos e Eliete descascando abacaxis (!) evocando os chamãs deste punk dos trópicos.
TROPICAL PUNK"Shiva" vem na sequência e inverte os papéis. Agora quem discorre é Eliete, inconfundível, reclamando dos homens e trocando a superficialidade masculina pelo amor transcendental do Deus indiano Shiva. Ambas canções, por seus clipes, provam que a música por si só não é o mote: toda a liturgia e o ritual desta seita cria uma identidade visual e até mesmo teórica, exótica, para falar de temas como utopia, espaço, incerteza, sexo, família, perdas e relações, como eles mesmos divulgam. O clipe de "Shiva" reflete a aridez das opiniões cantadas por Eliete, e cria um macumba pós-pós-punk, engraçado por si só.
SHIVAEm audição integral, o disco ambienta com discrição e consistência DIY (do-it-yourself), já que ouvidos mais atentos percebem em poucos momentos a não-rigidez de músicas que foram gravadas na sala de casa - em alguns momentos erros na sincronia dão até impressão de fita demo, mas isto no fim faz parte da história. O minimalismo é que dá o tom krautrock ao disco. Baixo e synths crescentes em "Yr Daughter Lies" são repetidos à exaustação, com calma, enquanto efeitos lúdicos pipocam ali e aqui, brincando com os vocais.
"It's a Broterhood" segue na mesma esteira, espacial, e até arrisca um refrão no mantra do título, mas é daquelas faixas em que cabecinhas ficam a dançar, atentas, numa apresentação ao vivo. Aliás, o Tetine tem apresentado estas canções florestais há algum tempo, e quando os vi num show gratuito ano passado, a sensação era justamente essa.

A influência brasileira está até mesmo nesta estética disco punk/krautrock, tão estrangeira. Bruno e Eliete lançaram seu álbum anterior,
Let our X's Be Y's em 2008 pela Soul Jazz Records, contato criado após o Tetine tocarem em seu programa de rádio os artistas do pós-punk nacional dos anos 80, nomes que viraram parte da celebrada coletânea
The Sexual Life of The Savages da gravadora. Então por mais que
A Forest Near You seja interessante a fãs do The Rapture e até se assemelhe a coisas como YACHT, o álbum está mais para Fellini e As Mercenárias do que DFA. Tanto pelo sotaque abrasileirado do inglês, e até mesmo pelas canções em português, como as divertidas "Não" e "O Espaço", outros pontos altos.
O Tetine é daquelas bandas que, ao contrário do sabor tutti-frutti de CSS e da boçalidade engraçada de Bonde do Rolê e afins, talvez não alcance a fama que o hype almeja, mas vivendo em Londres eles estarão sempre num roteiro artístico mais consistente que o nosso, e por sua característica estranha e de experimentalismo sempre manterão acesa a chama do underground paulistano, brasileiro. "Heading South", como eles cantam na penúltima faixa, é o mote, sempre.
Aliás, quando os vi num show gratuito ano passado, a sensação era justamente essa. (2)