Peter Hook - The Haçienda / How Not to Run a Club
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2009
Selo: Simon & Sciuster (EM INGLÊS)
Estilos: Acid house, nightlife, memórias, clubes
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Peter Hook - The Haçienda / How Not to Run a Club
Baixista do New Order conta em livro de memórias pessoais como o lendário clube de Manchester, propagador da acid house, era um buraco sugador de dinheiro
24.02.10 10:15
Livros sobre música eletrônica costumam ser chatos, enciclopédicos. E um pouco insuficientes - é preciso o áudio. Mas há uma exceção: o livro de memórias de Peter Hook, baixista do New Order, intitulado The Haçienda - How Not to Run a Club. E que ótimo livro este, que conta por um viés estritamente pessoal - e bem escrito - toda a saga do histórico clube de Manchester, Reino Unido, definidor da acid house e do formato de clubes e de "cena eletrônica" como conhecemos até hoje.

A edição é estrangeira e em inglês, mas você pode ter uma cópia em sua casa por cerca de US$ 40 (R$ 75). Comprando na amazon.com chega em 20 dias. Dividido em capítulos ano a ano, com curiosas interseções com as atrações de cada noite, atas de reuniões, interlúdios sobre uma noite e Ibiza e uma noite no Haçienda, a edição traz também os balanços financeiros anuais. Sim, porque o mote do livro é como o clube, por mais revolucionário que tenha sido, foi um elefante branco financeiro, tendo sugado o dinheiro de seus investidores nos 15 anos em que existiu (1982 - 1997).

Cria da Factory (o clube leva o registro FAC51 até hoje), é com os lucros do Joy Division e do New Order que a casa foi criada e se manteve. Da banda, Peter Hook foi o maior entusiasta e também financiador, tendo inclusive pagado 7 mil libras de hipoteca por mês na época do fechamento do clube, com os seus sócios implorando por mais investimento.

NÃO ABRA UM CLUBE COM SEUS AMIGOS!
O Haçienda surgiu da ideia do pessoal da Factory, comandado pelas bandas e pelo empresário Tony Wilson (RIP), que queriam um lugar em Manchester para shows, festas, intervenções artísticas e também para ser um ponto de encontro entre amigos. Assim o clube surgiu e assim o clube terminou, para o bem e para o mal: a ideia de ser um lugar para os amigos sempre prevaleceu ao business propriamente dito; por mais de uma vez Hook repete no livro "não abra um clube. não abra um clube com seus amigos!". O nome veio de um livro filosófico, futurista e escapista chamado Leaving the 20th Century, que explicava como a sociedade se tornava cada vez mais entediante. Do excerto the haçienda must be built (a "fazenda" precisa ser construída), surgiu o clube projetado pelo famoso (e ultracaro) designer Ben Kelly, com a Factory/Tony Wilson e o homem-forte Rob Gretton à frente da administração até o seu fim.

Peter Hook é um DJ fanfarrão. Mas toda a cena eletrônica deve muito a ele
Peter Hook é um DJ fanfarrão. Mas toda a cena eletrônica deve muito a ele


O livro costura bem todas as nascentes dance music. A inspiração original veio das visitas dos "factorianos" a Nova York, lugar em que eles ficavam embasbacados com clubes como The Loft, Paradise Garage, Roxy e Fun House. Assim, o modelo de "boate" propriamente dita foi transportado à cinzenta, roqueira (e violenta) Manchester, acostumada aos prosaicos pubs. A empreitada não foi uma unanimidade, como prova o relato de Martin Hannet, famoso produtor do selo, que achava um desperdício tanto investimento quando se poderia bombar estúdio e material para músicos. De fato, era uma grande iniciativa. Das 70 mil libras previstas, o clube abriu em 1982 após 344 mil libras de custos (Hook afirma que são 3 milhões em valores atuais; quase 9 milhões de reais!).

E ele relata que tudo surgiu naturalmente, feito por paixão. O próprio New Order não se importava quanto ganharia com seu sucesso, discos e turnês, e de qualquer forma este lucro acabava sendo repassado quase integralmente ao clube por anos, com o aval de todos. Com o tempo, a maioria saiu desta ligação financeira e pessoal, e apenas Hook seguiu como investidor. São engraçadíssimos as histórias de péssima gerência financeira, de roubos e burrices administrativas. Funcionários roubavam peças e instalações caríssimas e tentavam revender para o próprio pessoal da Factory e do clube; a bebida era vendida sem lucro, e no princípio da casa, quando shows e exibições eram o mote, a lotação era baixíssima.

MÚSICA E ARTISTAS
Os primeiros capítulos mostram bem a evolução musical do clube e da cidade. Do chamado "indie", que agrupava o rock e sons alternativos da época (de Softcell a The Fall; de Lydia Lunch a Smiths; de A Certain Radio a Xmal Deutschland), o clube evoluiu naturalmente para o dançante, a música negra. Mas não era um caminho unânime. Hook conta que Tony Wilson e ele mesmo eram cínicos com a dance music e DJs. "Sempre fui cético sobre eles. Sempre os achei arrogante, mas sem o Haçienda eles não seriam estrelas como são hoje", conta.

QUEM PASSOU POR LÁ
New Order, A Certain Radio, Cabaret Voltaire, Smiths, Simple Minds, Bauhaus, Bow Wow Wow, Sisters of Mercy, Tears for Fears, OMD, Madonna, John Foxx, Cocteau Twins, Nick Cave, Sonic Youth, Gene Loves Jezebel, Einstürzende Neubauten, Quando Quango, Everything But the Girl, Adonis, The Fall, Frankie Knuckles, Ten City, Happy Mondays, Elvis Costello, Edwyn Collins, Pedro (Laurent Garnier), Evil Eddie Richards, Nightmares on Wax, Mr. C, Sasha, Primal Scream e outros


Esta evolução teve início por lá com noites de black music (Grandmaster Flash, Bambaataa), de electro (Eric B and Rakim, Mantronix), o estouro da house music (Marshall Jefferson, Adonis, Fingers Inc, Frankie Knuckles), e o surgimento em 1988 da acid house local, impulsionada pela revolução comportamental com o surgimento do ecstasy (musicalmente Hooky destaca Phuture, Sleezy D como pioneiros, e pontua bem o surgimento de "Loaded", dos então roqueiros Primal Scream). E mesmo que até Madonna tenha cantado no palco do Haçienda (ela dublou "Burning Up" e "Holiday" lá para sua primeira aparição na TV britânica), os DJs foram a alma do clube. Responsável por noites, mixtapes, festas e sons que mudaram toda a cabeça de uma geração, o livro destaca os seis grandes protagonistas das pick-ups: Hewan Clarke, Micke Pickering, Dave Haslam, Graeme Park, John da Silva e Sasha.

A pista do clube foi reconstruída no mesmo local para o filme "24 Hours Party People"
A pista do clube foi reconstruída no mesmo local para o filme


VERÃO DO AMOR
O tão celebrado verão do amor de 88 foi de fato o ápice do Haçienda. Com a descoberta do 4x4 pulsante em ritmo com o ecstasy, o clube virou um fenômeno e lotava noite por noite, sem que isso representasse lucro - vale o registro que o Haçienda nunca deu lucro, mesmo tendo movimentado milhões em seu caixa e na própria cidade. Após um divertido interlúdio de Hooky contando de suas férias malucas em Ibiza naquele ano, é interessante notar como a música eletrônica formatou espaços que antes eram pra shows, e como as drogas mudaram para sempre seu destino - de novo para o bem e para o mal.

A febre da acid house surgia, e com o clube na crista da onda vieram os problemas. Drogas, muitas drogas, overdoses, polícia, Prefeitura e as diversas gangues da cidade, que trouxeram violência e a decadência ao clube nos anos seguintes. São capítulos e mais capítulos para contar todos os meandros dessa relação com as gangues, que ganhou contornos institucionais quando eles assumiram a segurança da casa.

O baixista do New Order conta como este caldeirão cultural e comportamental surgiu como um raio, e como isso mudou a impressão de todos sobre música e entretenimento. As primeiras raves surgiam (o relato de uma festa organizada na fazenda de Peter Gabriel é hilário), e o ecstasy era um deslumbre. "Esta droga fez até homem branco dançar", lembra Tony Wilson, no que Hook concorda. De overdoses a divertidas histórias de fritos, esta foi a primeira grande viagem de bala da cena mundial: inesquecível, efêmera e revolucionária. Mas com suas consequências. O músico conta como o ecstasy acabou com o New Order - "a gente só conseguia fazer música boa quando estávamos sóbrios".

Antes e depois: Hoje, o prédio da Whitworth Street sedia o residencial Haçienda Flats
Antes e depois: Hoje, o prédio da Whitworth Street sedia o residencial Haçienda Flats


É honesto e profundo este relato pessoal de Hook. Ele não mede a caneta para dizer como mergulhou fundo nas drogas, e encerra assumindo-se um dependente químico, mas sem arrependimentos. Em sua prosa recados são mandados a desafetos, relações são reconstituídas e pessoas vêm e vão por sua vida com o Haçienda de mote. Sem entrar na onda trance e drum'n'bass dos anos 90, o clube perdeu seu "mojo" na década seguinte, mas seguiu até 1997, maior, ainda influente e estabelecido como um gigante cultural britânico. Mas sem dar uma libra de lucro. Pelo contrário, as dívidas eram bolas de neve que chegaram a um ponto em que o clube fechou numa noite por falta de abastecimento de bebida e nunca mais reabriu.

The Haçienda - How Not to Run a Club tem seu ponto ao relatar uma revolução cultural em curso por anos, e tem seus bastidores escancarados para provar que é quase impossível a paz financeira e administrativa num meio que promove o hedonismo sem fim. Mostra pelo olhar de um grande insider todas as expectativas e angústias sobre a vida clubber - Hook era um óbvio frequentador assíduo de seu clube, e sua narrativa mostra todas as incoerências possíveis deste músico fanfarrão tão amado e odiado (ele encerra o livro falando que nunca abriria outro clube, mas acabou de anunciar uma nova empreitada). E ele completa dizendo como um grupo de amigos, músicos e visionários - dá para chamá-los assim - propôs que a diversão fosse coletiva e sem fim, que a música ditasse o ritmo da vida. Não estranhe se você acabar de emocionado ao se sentir parte desta história.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
12 comentários
Rafael Moraes
Rafael Moraes(03.03.10)
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Livro encomendado... Recomendo também o livro do Lil Louis (Louis Burns) - A Man's Diary (Book)
Rodrigo Lopes
Rodrigo Lopes(27.02.10)
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Será que o Hook aceitaria produzir e apresentar um programa de acid house na rádio...

Ah, deixa prá lá. Vou procurar este livro
Rodrigo|Digha
Rodrigo|Digha(27.02.10)
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Talvez o único megaclub realmente underground em essência, exatamente por não se prestar a ser uma empreitada comercial.
Impraticável hoje em dia. O que é um pena.

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Leiloca Pantoja
Leiloca Pantoja(27.02.10)
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:)
Ótima resenha, para quem tiver a oportunidade assista o Filme "24 Hours Party People", conta muito bem a história.