Voz tímida e suave da cantora se transforma em vantagem graças a arranjos e melodias sob medida
Há cantoras que possuem vozes tão belas e poderosas e interpretações tão intensas e apaixonadas que são capazes de transformar qualquer coisa em obra-prima. Nina Simone, Billie Holliday, Elis Regina e Edit Piaf podiam arrancar lágrimas dos ouvintes apenas recitando a lista telefônica. E Maria Bethânia, então, que conseguiu fazer da ultra-brega "É o amor" uma bela canção romântica?
Pois esse não é o caso da francesa Charlotte Gainsbourg. Dona de uma voz apagada, com alcance, potência e carga dramática praticamente nulas, Charlotte seria um verdadeiro fiasco como cantora caso não se apoiasse em um repertório de qualidade e sob medida para sua voz pequenina. Felizmente, ela parece ter consciência de seus poucos recursos vocais e sempre se cercou de músicos que souberam criar dentro dessa limitação.
Filha do cantor e compositor
Serge Gainsbourg e da cantora e atriz
Jane Birkin (dupla que gravou a sensual
"Je t'aime moi non plus"), Charlotte estreou como cantora com apenas 13 anos, fazendo um dueto com o pai na sugestiva e polêmica
"Lemon Incest". Dois anos depois, em 1986, ela lançou seu primeiro disco-solo,
Charlotte For Ever, composto e produzido pelo papai Serge. Na idade adulta, Charlotte se dedicou à carreira de atriz, voltando a lançar um disco somente em 2006: o ótimo
5:55, que conta com colaborações do duo francês de música eletrônica
Air, dos músicos Jarvis Cocker (ex-Pulp) e Neil Hannon, e produção de Nigel Godrich (também conhecido como "o cara que produziu todos os discos do
Radiohead a partir de
The Bends"). No seu mais recente trabalho,
IRM, Charlotte foi novamente esperta e escalou o gênio camaleônico
Beck para escrever e produzir as faixas do disco.
O terreno mais seguro para o tipo de voz de Charlotte é o das canções delicadas e melancólicas, e há várias delas no disco, como "In the end", "Vanities", "Le collectioneuse" e "Le chat du café des artistes" (do cantor canadense
Jean-Pierre Ferland). Mas também há espaço em
IRM para as roqueiras "Tricky Pony" e "Greenwitch mean time", o blues meio desajeitado de "Dandelion" e o pop cativante de "Heaven can wait". Com clima que lembra bastante o das faixas de
Modern Guilt, último álbum do Beck, "Heaven can wait" foi a primeira do disco a virar videoclipe - e um videoclipe bem surreal:
Beck está mais prolífico que nunca. A cada dia, aparecem novidades em seu site oficial. São videoclipes, playlists, entrevistas e, o mais interessante de todos: o projeto Record Club. Nessa empreitada arriscada e um tanto megalomaníaca, Beck se incumbiu da tarefa de regravar discos clássicos. Acompanhado de parceiros como a banda Wilco e a cantora Feist, ele se tranca em um estúdio e, sem ensaio ou arranjos prévios, tem que dar conta do recado em apenas um dia. A cada semana, um vídeo com uma faixa do álbum escolhido é colocado no site. O primeiro da lista foi o antológico The Velvet Underground & Nico (que coragem...), seguido de Songs of Leonard Cohen e Oar, do ex-Jefferson Airplance Skip Spence. E não é que, tirando uma escorregada ou outra (a primeira versão de "Heroin" ficou um horror), o negócio tá dando bem certo?
Mas o que torna
IRM especial são os arranjos criados por Beck, distantes tanto do convencional quanto do experimentalismo explícito. Nas primeiras audições dá para perceber que existe ali algo de diferente e original, mas é difícil explicar o que é. Pois o segredo de
IRM está nos detalhes: na utilização de instrumentos não muito comuns, como marimba e órgão, na sonoridade extraída de um violão desafinado, nos poucos e certeiros efeitos sonoros empregados, nos coros de vozes um tanto etéreos, e nos belos arranjos de cordas (desde
Sea Change, de 2000, Beck não utilizava tanto esse recurso). Um exemplo de como pequenos elementos fazem toda a diferença está em "Vanities". Repare que a música começa com um instrumento (harpa? violão?) fazendo arpejos. Em seguida, outro instrumento entra fazendo arpejos em notas e ritmos diferentes, criando uma suave confusão sonora.
Charlotte escreveu
em seu site oficial que uma grande fonte de inspiração para
IRM foi
Gainsbourg Percussions, disco com os dois pés na África lançado por Serge em 1964. Novamente, foi uma escolha inteligente, já que o contraste entre a percussão vigorosa e a voz frágil de Charlotte criou duas das melhores faixas do álbum: "Master's hand" e, principalmente, "Voyage". Completa a seleção de melhores do disco a faixa-título, "IRM", que possui uma história interessante. Em 2007, Charlotte sofreu um acidente sério enquanto praticava esqui aquático. Teve hemorragia cerebral e precisou passar por cirurgia e por vários exames de ressonância magnética (sigla IRM em francês). Toda vez que entrava no túnel do exame, reparava no barulho que a máquina fazia e no ritmo constante que havia ali. Assim, o ruído do aparelho de tomografia acabou virando a base instrumental da música (à maneira da caixa registradora em "Money", do Pink Floyd).
Flash Content
Charlotte Gainsbourg - Voyage (mp3)
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Charlotte Gainsbourg - Master's Hands (mp3)
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Charlotte Gainsbourg - IRM (mp3)
O disco
IRM é mais um exemplo de como uma limitação técnica pode ser benéfica. Porque, se Nina Simone, Billie Holliday, Elis Regina e Edit Piaf podiam arrancar lágrimas dos ouvintes apenas recitando a lista telefônica, e Maria Bethânia conseguiu fazer da ultra-brega "É o amor" uma bela canção romântica, quantas cantoras não acabam descambando para a cafonice justamente por usarem seus dotes vocais de maneira exagerada? Charlotte Gainsbourg prova que uma boa cantora depende menos da garganta e mais do cérebro - e ter uma mãozinha do Beck por perto também ajuda.