Se eu fosse frio o suficiente, dividiria a frutífera carreira do Spoon em três fases. Na primeira, extinta no início dos anos 2000, a trupe de Britt Daniel se deslumbrava com experimentalismos e arranjos com cara de garagem enquanto. Na segunda fase (que chegou ao auge com Ga Ga Ga Ga Ga, de 2007), uma pegada mais pop marcava a fogo dezenas de canções do grupo.
Transference, lançado no começo desde ano, abre uma nova fase para o Spoon - uma temporada em que músicas de fácil agrado esbarram a todo o tempo em canções que parecem ter sido gravadas ao vivo. O espírito jazzy-com-swing de "The Way We Get By", um dos hinos do grupo, já não aparece mais, mas cede espaço para uma infinidade de melodias instigantes e, ao mesmo tempo, soturnas.
São coisas como os delírios vocais de "Before Destruction" e a jam cativante de "Mystery Zone" que te fazem começar a dar valor para o disco - e, a partir daí, é só alegria. Até a pouco surpreendente "Who Makes Your Money", ganha valor com uma guitarra à lá Strokes e atmosfera inspirada pelo Pink Floyd. Os Floyds, diga-se de passagem, não são as únicas grandes influências do Spoon nesse novo disco: guitarras com cara de Sonic Youth transbordam nos últimos momentos de "I Saw The Light", que conta com letras intensas.
Ao lado de "Mystery Zone", "Written In Reverse" briga pelo espaço de melhor composição de Transference. Se os metais, velhos conhecidos do Spoon, fizeram falta no novo trabalho, o piano apareceu para compensar no maior estilo Cold War Kids. Épico, assim como na destoante (mas encantadora) "Goodnight Laura", uma lullaby que não se encontra todo dia.
O próprio Spoon, afinal, não é uma banda que se encontre todo dia - e que atire a primeira pedra quem conhece uma banda genial mesmo em momentos de tanto pessimismo como em "Got Nuffin'". Torcemos para que o próximo álbum não leve outros três anos para sair.
AInda não escutei mas fiquei interessado, exceto pela comparação com Cold War Kids, que, pra mim, só tem de bom 'Hang Me Up To Dry' e 'We Used To Vacation'...