Pantha du Prince - Black Noise
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ficha técnica
Nota: 4.8 / 5
Ano: 2010
Selo: Rough Trade Records
Estilos: Minimal techno, experimental, 4x4
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Pantha du Prince - Black Noise
Criando música com elementos inaudíveis (!), captados na natureza (!!), Hendrick Weber está salvando o minimal techno
29.01.10 13:05
Hendrick Weber está salvando o minimal techno. O 4x4 encapsulado, tocado a exaustão há anos já, encontra uma evolução criativa no segundo álbum de seu projeto Pantha du Prince, Black Noise, que será lançado semana que vem pela Rough Trade Records. Rought Trade? Selo de Smiths e Arcade Fire? Sim, uma conquista significativa e bem peculiar para um artista que espantou críticos e pistas com This Bliss, debut lançado há quase três anos atrás pela Dial Records.

Weber - que se apresentou em SP na festa V3 (2007) -, busca refúgio sonoro e conceitual na natureza. Black Noise foi gravado com captações de som, áudios e informações sonoras gravadas por Pantha com a ajuda de Joachim Schütz e Stephan Abry nos Alpes Suíços, fato que ele contou em entrevista ao Rraurl no Sónar 2008: "Levamos aparelhos, microfones e gravadores para as rochas e tocamos. Dava para ouvir os pássaros, os cachorros latidos, o sino da igreja tocando. Está tudo lá nas gravações, é lindo", explica, comentando como a dance music inorgânica pode ser, para ele, a complementação de barulhos encontrados na natureza. "Estou interessado em fontes criadas por humanos, que depois são transferidas para as máquinas."

Mas não expere ouvir cachorros latindos nem o barulho da chuva, pois o título Black Noise representa a utilização de sons e barulhos que existem, mas não são audíveis e não deixar de ser informação sonora - a música escondida. São enxertos na frequência do techno Pantha du Prince que acaba por revestir as faixas do álbum. Em "Abglanz", os sinos de Pantha - presentes obsessivamente em todo o disco - badalam entre o que poderiam ser uivos de vento, passos entre folhas e pedras em choque. Ao fundo, um bass nervoso, percussão tribal, chocalhos e uma construção feita em simbiose tão complexa como um emaranhado de terra com folhas secas e bichos. Música orgânica, definitivamente.

Flash Content
Pantha du Prince - Abglanz (mp3)

Claro que, na audição pura, sem esta informação sobre o método de gravação, prevalece o 4x4 bem feito e cristalino de Weber (barulhos do que podem ser objetos sendo cristalizados também estão presentes, levando a metáfora a sério). "Behind the Star" é aquele techno suingado e nervoso, que remeta na hora a uma pista, underground mesmo, principalmente quando entra o vocal repicado e nervoso, ao que parece falando algo como "over" ou "move" - instintos básicos, em inglês, do primitivo ato de dançar.

Pantha: fontes criadas por humanos, que depois são transferidas para as máquinas


STICK TO MY SIDE
Corroborando a expectativa pop de Black Noise, o disco traz convidados: Tyler Pop, baixista da DFA toca no single "The Splendour", mas suas cordas são tão maquiadas e costuradas entre notas computadorizadas e percussão disforme que soan quase inaudível. E, ponto altíssimo do disco - e arrisco dizer da carreira de Weber -, é a parceria com Noah Lennox, o Panda Bear, do Animal Collective. "Stick to My Side" é uma joia rara, delicada.

A melodia surge discreta, entre sinos e tremores reverberantes. O beat é simples, mais housy e com groove também tímido, que parece evoluir naturalmente para a harmonia com os efeitos e todo o espectro em volta da música. Até que o bass começa a cantarolar, convidando Noah a falar sobre decidir pelo que é novo, pelo que você nunca experimentou. Sua voz é um pouco fanha, e repetida como um mantra cria uma preciosa orquestração techno-pop, com direito a cordas de violino, fazendo o refrão-título 'Stick to my Side' colar na sua cabeça. Perfeição.

Flash Content
Pantha du Prince - Stick To My Side (mp3)

Pulando as faixas lá para o fim, perceba como Weber é autoral, e desconstroi a noção minimalista que é dita geralmente para contextualizar, e não dogmatizar (Max Cooper é um bom cara nesse sentido também). "Welt Am Draht" é tão complexa e matemática, mas ao mesmo tempo tão sentimental, recheada e crescente, que a música eletrônica aqui chega a adquirir uma noção de Realidade Virtual - uivos humanos que lembram Thom Yorke, micro-inserções em descompasso que deixam o pé dançante no chão entre a viagem intensa e a órbita de efeitos e enxertos - da natureza ou não, já não importa mais.

Black Noise é difícil? Sim, talvez de início. Mas nunca cabeçudo, de tão delicado e bem acabado que é. Este álbum é um espanto de produção, que talvez tenha relevância comparável a de We Are Monster, obra de Isolée de 2006. Mas num selo de indie rock, que pode trazer não uma grandiosidade pop de facto, e sim mostrar como as fronteiras entre rock, dance music e afins estão diluídas no gosto geral. A maneira de Weber representar isso, numa orquestração desmistificadora entre o humano e o natural, o orgânico e o robótico, foi perfeita.

Para quem ontem reclamava dos aberrações do pop, hoje é inspirador ver a evolução da ousadia experimental na música.
MP3
Flash Content
Pantha du Prince - The Splendour (mp3)

Flash Content
Pantha du Prince - A Nomads Retreat (mp3)

Flash Content
Pantha du Prince - Behind The Stars (mp3)

Flash Content
Pantha du Prince - Welt Am Draht (mp3)


Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
17 comentários
Geraldo Nogueira
1AprovadoQueima
Ótimo album!
Modern Process
Modern Process(04.02.10)
0AprovadoQueima
ótima resenha Jade, estou adorando suas resenhas, Pantha é um artista incrível.
Jade Augusto Gola
@Pedro Cunha

Fala Pedro, beleza? Queria entender o que vc disse com "apologia" da resenha.

abração!
coy freitas
coy freitas(03.02.10)
1AprovadoQueima
Jade,

Parabéns pela resenha. Espero poder trazer ele de novo em breve...
abs
Thiago V. R. Cunha
1AprovadoQueima
O live no pantha na V3 foi catártico!. Para quem já conhecia seu estilo e suas composições foi mesmo uma grande experiência. Não teve nada de monótono ou retilíneo. Estava tudo lá, todas as camadas sonoras, todos os timbres secretos que só são ouvidos por aqueles que escutaram suas músicas muitas vezes. This bliss foi criado sobre base matemática e tem referências de teorias de Foucault na composição, o som é incrível. E agora esse álbum está, no mínimo, no mesmo nível de qualidade!