É um pouco mórbido ouvir a versões dançantes de "Immolate Yourself", faixa que encerra o segundo e trágico
álbum homônimo da dupla de produtores americanos
Telefon Tel Aviv (2009). Mesmo com a morte do parceiro Charles Coopner, dois dias depois de o trabalho chegar às lojas, Joshua Eustis continuou com o projeto, e
acaba de lançar um EP com quatro remixes para esta que é uma das faixas mais melancólicas do disco.
O time encarregado de fazer as releituras é bem conhecido de qualquer pistas em que se ouça techno: Thomas Muller, Miss Fitz, Ben Clock e Sascha Funke. Para iniciados, esses nomes já resumem o conteúdo do pacote - uma coleção de faixas cuja linha de força se encontra nos arranjos hipnóticos, com melodias tão sucintas quanto sombrias.
Telefon Tel Aviv - Immolate YourselfMuller envolve o ouvinte num jorro de notas graves, sem formas harmônicas bem definidas - é uma linha de baixo cavernosa e constante, coroada por teclados espaciais, cuja única função é rechear o espectro sonoro com seu peso. Sua releitura foi batizada "Burning Man", numa referência óbvia ao título original (em seu sentido mais corrente, a auto-imolação é o ato de atear fogo ao próprio corpo).
Há mais balanço na reinterpretação de
Fitz, como se ouve logo em seu princípio. Bumbos não respeitam a métrica com o mesmo rigor, aventurando-se para fora do compasso sempre que podem. Às vésperas do terceiro minuto, entra em cena um belo sample que lembra o som de um instrumento de sopro, preenchendo de melodia a paisagem desértica.
FORÇA E MELODIAQuem coloca mais peso é
Ben Klock (e quem conhece sua monstruosa
"Subzero" sabe do que isso se trata). A costura bem sacada de bateria, chimbau e palmas garante o bom andamento da base instrumental, com adição homeopática de dissonâncias apimentando o arranjo. Os vocais da dupla e uma bela frase de teclado que emerge pouco depois do terceiro minuto completam a faixa.
Para terminar,
Sascha Funke dá sua contribuição melódica. Não que inexista intensidade aqui - pois os bumbos chegam a fazer cócegas de tão graves, quando ouvidos num fone apropriado. Ao desgustar o remix, é fácil se encontrar com o olhar perdido, enquanto o cérebro tenta assimilar a invasão de notas repetitivas estimulando suas terminações nervosas.
Reunidas, as versões não soam muito diferentes da original que as inspiraram. Ainda que sejam totalmente diferentes na forma, elas têm em comum algo muito concreto e palpável - a capacidade de estimular sensações sem que tenhamos que lançar mão de julgamento, bastando nos deixar levar por sua inércia melancólica.