Sucesso na bloghouse, produtor canadense de 21 anos lança delicado disco ambient autoral
06.01.10 11:45
CFCF é a alcunha binária do produtor canadense Mike Silver, que com apenas 21 anos conseguiu chamar atenção em blogs musicais tanto pela atmosfera característica de sua música ambient/balearic quanto por sua "imagem" de homem mascarado vermelho.
Notou-se o CFCF primeiro há um par de anos, na mesma leva de estranhamento com que surgiu Crystal Castles e outros absurdos como HEARTSREVOLUTION, quando Mike deu um pouco de sossego à anormalidade eletrônica destes novos nomes do electro.
No final de 2009 máscaras caíram com o lançamento de Continent, álbum lançado pelo bom selo Paper Bag Records e que estabeleceu a excelência de Silver como promessa e revelação entre a juventude que cria música a frente de computadores caseiros. Ele explicou contou à URB que a inspiração transita entre o sucesso do pop dançante de Junior Boys e a house music de Chicago, além do grupo de rock progressivo Alan Parsons Project, que cada vez mais acredito ser uma referência velada de gerações que cresceram ouvindo ao rádio.
Na mesma entrevista o jovem conta ainda que o ser vermelho mascarado não trata-se dele, mas sim do personagem de um filme francês dos anos 70, Nuit Rouges. A ideia em apropriar-se deste alter-ego é pelo constrangimento de fotos promocionais de artistas, diz Silver, o que pode ser analisado como coerência para um artista que produz sons de referências diversas e cheios de possibilidades de interpretações e ilustrações pelo ouvinte.
Mike Silver: homem e alter-ego
O disco é ainda a evolução de Silver como produtor, já que o EP Panesian Nights, lançado alguns anos antes, não é tão bem acabado e abusa da sorte no revival synth-pop/disco. A abertura de Continent com "Raining Patterns" é sintomática deste desenrolar: metalinguagem da interpretação que a dance music proporciona para temas mundanos que, no ouvido, soam cheios de nuvens e devaneios. Notas que escorrem, um beat molhado e duro, cadenciado os efeitos e sempre um sentimento - várias faixas do álbum são simplesmente tocantes.
Neste sentido, destaco a grandiosidade "Monolith", a melhor canção do disco: a house music é desconstruída numa sensação de verão sossegada e chapante; Mike Silver é bom produtor por saber fazer, de forma simples, um bom arranjo entre bases, beats e efeitos. Com esta faixa ele consegue fazer seu cérebro relaxar e esperar pela explosão dançante ao mesmo tempo, que oxalá surge após 5 minutos e te acorda do transe para dançar. House music pura, mas autoral.
Dá para associar o clima lo-fi aqui ao despretensioso sucesso da nova música chill de Washed Out, por exemplo, mas o CFCF não conta o amadorismo como elemento agregador. Não à toa ele se deu ao luxo de regravar Fleetwood Mac ("Big Love"), em faixa romântica que cria uma linda dobradinha de amor com "Invititation to Love". Enquanto a primeira brinca de piano house, a outra mistura notas introspectivas do ambient com synths Daftpunkeanos.
Se "Raining Patterns" apresenta a ilustração musical, "You Hear Colours" é outra tentativa explícita do CFCF em usar a música eletrônica não em sua finalidade óbvia (a 'dance music'), mas sim em construir imagens e sinestesias a partir de loops e batidas, um mundo ("Continent") próprio onde os sentidos e visões são expressas pelo som. Por trás de um sensacional jogo percussivo (tribal sem ser étnico, dançante e orgânico), guitarras tubulares e notinhas angelicais criam em "You Hear Colors" um espectro tão complexo quanto a gama de cores Pantone; tente ouvir cores com a música.
CFCF - You Hear Colors
A definição de ambient, voltando lá nos anos 90, pode ser definida pela velocidade da música e sua ambientação. Agora em 2010 este tipo de música, inspirada por um livre (quase descarado) uso de qualquer tipo de referência e baixos BPMs, cria sonoridades menos arraigadas aos estilos tradicionais da eletrônica (techno-house-trance-breaks). Não consigo definir as batidinhas cheias de eco e o suingue de "Snake Charmer", e até mesmo quando a influência é explícita - a Chicago house em "Letters Home" - surge um ranço Gui Boratto de ser e flautinhas andinas para desconstruir as sinapses sonoras que o cérebro espera.
Esse é todo o mérito de Continent e da música do CFCF: ele entrega o esperado - até mesmo o previsível - mas é um trabalho de produção tão criativo e, notavelmente delicado, que não tem como você passar incólume. Sentimento puro (de novo, "Monolith"), e proeficiência nos conceitos e nas possibilidades da dance music ("Letters Home"; "Raining Patterns"). E o cara tem só 21 anos...