Festa em estúdio cinematográfico prioriza a música eletrônica e coloca milhares para dançar em SP
São Paulo recebeu sábado passado seu último grande evento de 2009, a festa
Smirnoff Experience, que propôs a ideia de "squat party londrina", num conjunto de galpões industriais na Vila Leopoldina, futuras instalações de um centro cinematográfico. Conceitos à parte, o que interessou e arrastou 2.500 pessoas ao local, numa abafada e chuvosa noite, foi o line-up. Das 23h até cerca de 07h da manhã, foram mais de 10 atrações nacionais e internacionais, em duas pistas bem próximas separadas apenas por um corredor de circulação/bar, e uma mais escondida, no andar de cima dos galpões.
Quem chegou tarde demorou para estacionar o carro nas ruas entorno do local, vizinho ao megaclube Pacha. A circulação interna era fácil apesar de a constante sensação de tudo muito cheio; banheiros não eram um problema a ser enfrentado e um pecado foi não haver mais espaços para sentar. Era ou de pé, ou dançando na pista.
A primeira grande atração foi a dupla
James Murphy e
Pat Mahoney, líder e baterista do LCD Soundsystem, dupla que já é bem conhecida do público brasileiro em seus ataques de DJs (terceiro ano seguido deles por aqui). Sempre em vinil, encheram a
pista 1 (a maior, toda em luzes vermelhas e com teto bem baixo) com foco mais na house music old school do que na disco propriamente dita - eles que ajudaram a retornar o gênero 70tista nos últimos anos. Muita percussão, chuva de bongôs e macumbaria braba traziam o tom orgânico e groove que os vocais, não muito presentes neste set, fariam.
Em todos os sets da pista 1 a frente do palco era um caldeirão suado de rodinhas apertadas, fãs inveterados e mãos pra cima Já lá no fundo o drama era para beber, pois demorava-se bastante para conseguir uma bebida pela pouca quantidade de atendentes. Entre diversos drinks e possibilidades de vodka Smirnoff, não havia disponível à venda cerveja normal, apenas a terrosa e escura Guinness a R$8,00. Bomba calórica, é uma delícia para amantes da cultura britânica, mas muitos doidos por uma lôra não engoliram o fato de beber cerveja escura. "Tem gosto de Shoyu" foi uma boa piada.
YACHT: DOGMAS, POSE E BASES PRONTASEm tempos de
Funktion-one, os PAs de pistas estão cada vez mais estalados, nítidos e pontentes, e não foi diferente na pista 1, que teve ainda Renato Cohen em versão disco-techno e Renato Ratier empunhado bem o lifestyle funky e sexy da house music do D-Edge. Brasileiros abriram a pequena
pista dois: o Stop Play Moon, show já "oficial" de abertura em 8 de 10 eventos, e Gil Barbara que foi de electro e soltou um belo remix de
XX. Problema pontual, a pouca clareza do som e o excesso de luzes espantou o público da pista 2.
Na sequência, o único momento em que a acanhada e clara pista lotou: o live do
YACHT, dupla americana composta pela exótica loira Claire Evans e Jonas Berchtolt. Tudo muito simples: bases pré-progamadas em um MacBook, microfones e a dupla, entoando mantras de seu disco
See Mystery Lights e várias faixas desconhecidas, que devem compor um próximo álbum já em 2010. Em inglês, adorações a símbolos como triângulos e iconografia náutica dividiam o culto hippie a aforismos, dancinhas, projeções visuais e berros sobre o amor e a vida libertária. Variando entre pancadão hip hop, disco punk e eletro-rock, a pegada era pop chicletinho, mas impressionava. Teve quem achou a coisa mais legal do mundo, e quem achou a baboseira mais adolê da festa. De todo modo, ponto positivo para a sagacidade do evento em trazer um nome tão fresco. Ponto negativo da dupla: não terem tocado a grandiosa "The Afterlife".
A pista 2, lá para o canto, teve ressaca após o show. O tão anunciado set de
Joe Goddard (Hot Chip) passou batido entre interpretações histriônicas, quase bate-cabelo, de house e techno, e vários hits (Basement Jaxx e Daft Punk, por exemplo). E Mau Mau já mais tarde, tocou para pouquíssimos. Apesar do volume de som excessivo, o espaço se mostrou ótimo para shows então, e teria sido interessante se outros lives e bandas novíssimas e atraentes tivessem sido escaladas ao lado do YACHT. Mas como apuramos, o lugar vai virar um estúdio em breve e não deve sediar mais festas em 2010.
A MAGIA DA PISTINHANada como uma querida e aconchegante pistinha. Subindo uma escada relativamente escondida, a festa tinha todo um novo ambiente: um cômodo circular em caracol de lounge (o único lugar em que se podia sentar, vale lembrar), com música ambiente e projeções de laser na parede, bem interessante. Escondida também havia uma pista VIP em que tinha cerveja clara e gelada, e logo ali a
pista 3, bem escura, não tão grande mas relativamente larga e com linda iluminação e instalações de LED; torres industriais de caixa d'água visível ao fundo, um cenário industrial bem paulistano.
Para amantes da eletrônica, era o paraíso na terra. Foi a última a abrir, 01h, com Max Underson,
revelação apontada pelo rraurl há tempos e que foi confirmada nesse evento. Seguro do seu som melódico e envolvente, Underson proporcionou o aquecimento ideal para a pista 3, que já ensaiava passos animados. Numa próxima oportunidade não fará feio ao tocar em horário nobre de uma boa noite techno. Na sequência o alemão David Moulfang, o
Move D, espumou corações deep e ensinou uma equação simples na ideia, mas difícil na prática: BPM anestesiado, mas com espacialidade sonora que entrava por todos os ossinhos do ouvido e empolgava, house, techno, minimal e abstrações indefinidas ninadas por bases 4x4. Move D foi um sutil exemplo de como a música deep pode fazer dançar.
A transição do final de seu set para a entrada de
John Tejada foi um dos grandes momentos da festa: longe da chuva, perto de um bar mais vazio e de frente a um PA metálico que soltava som absurdo. Tejada, mais minimalista e linear, seguiu a receita de Move D, e pesou um pouco mais a mão, mas sem desvirtuar a aura ali instaurada - não à toa uma pacífica luz rosa dominava o ambiente na pista.
Ainda no clima pistinha, Derrick Carter sacodiu a cintura da geral de volta lá para o encerramento da pista 1. Chicago house numa parábola ascendente de groove, até meio fidget. "House lenha", como alguém comentou.
ATÉ 2010!Para quem seguiu até tarde da madrugada, já manhã, virou aquela coisa: rodinha de amigos na transição entre festa, fim de evento e estados alterados da consciência e a busca pelo after sagrado. Nesta hora foi crucial o fato de que água e picolés Rochinha (!) eram distribuídos gratuitamente, ponto para o festival, que já havia disponibilizado fartas porções de mini-hot dogs para o público durante a madrugada. Assim, o Smirnoff Experience fecha os grandes eventos de 2009 como uma grata surpresa: boa curadoria artística, criatividade e organização, apesar de arestas que sempre sobram para ser aparadas em grandes eventos. Esperamos ansiosamente a edição 2010.
fotos: Fabio Motta e Silvio Tanaka
Valeu os rochinhas...muito...7 ou 8 no total...salvou :)