Ao mergulhar em suas influências mais fortes, guitarrista e vocalista foge às invencionices e remonta ao passado.
Para sua satisfação pessoal,
Kyp Malone vem compondo livre e despretensiosamente, comprometido apenas com a fluência de suas melodias mais intrínsecas, desde 2000. Membro do
TV on the Radio e do Iran, o músico, tão logo entrou para estes projetos, deixou incrustada sua marca nas composições, e nos próprios rumos sonoros, que ambas as bandas tomariam.
Rain Machine, incursão antes conhecida por Black Lights, é o primeiro álbum de Kyp Malone. Nele, podemos notar a personalidade musical do guitarrista e vocalista do TV on the Radio fluir sem a lapidação que existe nos discos do conjunto egresso do Brooklyn nova-iorquinho.
Ainda que bastante experimental, o TVOTR tem lá seus pezinhos no indie e no dancefloor. Solitário, Kyp Malone preferiu o caminho elíptico, por vezes lacônico, dos acordes introspectivos. Preferiu lançar-se ao passado, revisitando suas influências mais incutidas e essenciais. Aqui, as melodias são verdadeiramente belas e bem moldadas, mas doloridas, como em "Driftwood Heart" ou "Winter Song". Com certo recuo, o horizonte se aprofunda, e surge entrelaçada nas faixas uma equação permeada de elementos do blues e do jazz, dos remotos folks, do bluegrass e do rock experimental.
Há momentos em que esse casamento de referências embarca em viagens sérias, como na comprida e arrastada "Love Won't Save You". E se o tom introspectivo não parecer claro no "auge" da canção, arranjos típicos de mantras orientais que aparecem no final dinamitam qualquer ressalva. O mesmo embalo dos mantras vem no final da já citada "Winter Song" que encerra o álbum, quando o já lento caminhar da faixa mergulha numa intensa calmaria entre o minuto 7' e seus 10:57.
Mas o repertório não começa tão lento assim, na verdade a segunda música, depois da vinheta de abertura, "Give Blood", vem embebida de um groove bem pop, vocais dobrados no refrão e distorções sintetizadas. A partir de "New Last Name" Malone começa a experimentar com as baladas que vão diminuindo seu andamento progressivamente até chegar à elasticidade máxima dos arpeggios pentatônicos, dos falsettos e dos acordes soltos.