Parece que a dupla alemã
Modeselektor aprovou a experiência de lançar discos pela gravadora
Get Physical. Depois de assinarem a
oitava edição da série de coletâneas Body Language, Gernot Bronsert e Sebastian Szary publicaram em novembro, pelo selo do
Booka Shade e
MANDY, o divertido EP
Art & Cash. O disquinho tem uma única (e regular) música, acompanhada por uma introdução insana, ao estilo do duo, e por um (ótimo) vídeo que vale o pacote. Quem dirige o clipe é a trupe audiovisual
Pfadfinderei.
"Art" é uma vinheta com pouco menos de dois minutos, e de pouca explicação. Não passa de uma nota grave de sintetizador que, no começo, provoca estampidos e cócegas no ouvido. Quando ela traça sua curva ascendente na direção mais aguda da escala, chega a machucar.
A música propriamente dita, "Cash", não é exatamente a mais inspirada do Modeselektor. É techno-marreta para pistas, e foi gravada durante uma sessão do duo no clube Rex, de Paris (dá até para ouvir os gritos do público quando a dupla libera o grave, após uma introdução de agudos e médios). Synths ríspidos, bateria quadradona, viradas repentinas e breaks saídos do nada - é a fórmula alemã que, se não soa exatamente melódica, funciona com a força duma britadeira quando enclausurada numa pista escura. Por ser tão mecânica, é um pouco difícil se afeiçoar por ela de imediato. Mas o pessoal da Pfadfinderei deu um jeito nisso.
Eles colocaram Bronsert e Szary na galeria de arte contemporânea Brot Und Spiele, em Berlim, junto ao coletivo de artistas The Fantastic Nobodies, para sacanear com réplicas de obras de pintores como o alemão Albrecht Dürer (responsável pelo retrato do coelho cinzento) e o holandês Piet Mondrian (o dos retângulos coloridos). Em frente a tantos clássicos, a dupla parece se interrogar profundamente sobre o valor daquelas obras. Em seguida, os quadros são substituídos por paródias (em alguns casos bem ofensivas) encenadas pelos rapazes do Fantastic Nobodies. No fim, sobra até para a Santa Ceia - ápice do deboche criativo do coletivo.
E o trunfo do Modeselektor é justamente esse, desde seu álbum de estreia,
Hello Mom! (2005). Eles são capazes de extrair graça e bom-humor do tipo mais sisudo de techno e colocar na mesa questões da seguinte natureza: se há valor estético em coelhos congelados pelo tempo e em retângulos tão coloridos quanto obtusos, por que não haveria também num amontoado de notas de sintetizador cuja única razão de ser é causar nas canelas um irrefreável impulso de dançar?
Troque as palavras "arte" por "música", ou "produção artística" do meu post anterior por "produção de música eletrônica", então. Pra ver se da liga.
Até que ponto os compradores ou os consumidores de arte interferem na produção artística. Ou até comandam o rumo da arte. E o quanto eles compreendem dela, ou até se isso importa pra eles, e não só o quanto custa, o status envolvido.
Bom, o clipe não responde, aliás, abre a interpretações. Por isso tb é tão bom.
Abrassss