Vocalista e instrumentista do Hot Chip cria cesta de frutas sonoras em ótimo disco eletrônico
O Hot Chip é uma das bandas mais bacanas da décadas. Do sucesso onipresente de faixas como "Over and Over" e "Ready to the Floor", a seus primórdios tropicalistas de
Coming on Strong (2004) e suas incansável
presença na
música eletrônica, o quinteto inglês pode se gabar de ser um dos poucos
acts a arriscar sem medo de macular sua identidade sonora - independente se o resultado seja lá bom ou ruim - eu pessoalmente acho
Made in the Dark um álbum ruim.
Em mais um passo dessa evolução, o vocalista e instrumentista
Joe Goddard (o gordão barbudo, a voz de barítono) lançou este mês um ótimo disco de música eletrônica, pura e simplesmente. É
Harvest Festival, disco com auto-declarada estranha obsessão por frutas e influências de Aphex Twin e Brian Eno (também declaradas). São 12 faixas com nomes como "Coconut Shy" e "Apple Bobbing", feitas num par de velhas drum machines e um sintetizador modular ao longo dos últimos anos. Por boa coincidência, Goddard faz DJ set neste sábado (28/nov) na festa
Smirnoff Experience.
Joe Goddard, DJ e produtor

Mais do que uma associação direta ao Hot Chip,
Harvest Festival é o ápice da evolução do selo-coletivo
Greco Roman, comandado pela banda e alguns outros DJs em festas por Londres, e que hoje em dia é uma real plataforma de lançamentos de nomes como Totally Enormous Extinct Dinosaurs,
David E Sugar,
Buraka Som Sistema, Grovesnor e o
Drums of Death, produtor de electro que compôs o último álbum da Peaches. Com sua temática olímpica e de cartoon, o Greco Roman ajudou a fomentar a sensação fidget pela cidade - na verdade um
approach mais volúvel entre techno, house, electro e dubstep, tudo com bass gordo e beats safados ou blipados.
A CESTA DE FRUTASO disco não é literal - ainda bem, seria bobo. E também não seria algo tão possível assim, músicar as frutas? Talvez "Pineapple Chunk" (naco de abacaxi) pudesse ser ácida. Mas não, é arranhada, confusa, com notas de sintetizador desafinado duelando com a batida torta, uma irregularidade pulsante presente no disco. Caso de "Sour Grape" (uva amarga), de fato um pouco literal por sua indigestão que realmente remete a AFX: apesar de saborosa, tem um órgão nostálgico e chuva de blips que ardem na boca.
O disco tenta o tempo todo harmonizar o caos com a base 4x4 sempre apelativa, e também desenvolve uma certa protuberância de caroços 8-bit. "Tinned Apricot" (damasco perdido) tem uma ambientação de notas que lembram o andamento de fases, telas e chefões do Mega Drive; assim como "Strawberry Jam" (geléia de morango - também foi o
nome de um disco do Animal Collective), que segue a mesma idéia, só que com um beat pululante e neurótico, em clima mais lúdico.
O trenzinho Hot Chip: Al, Alexis, Owen, Felix e Joe Goddard

Harvest... é repleto de faixas boas para festas, e também agrada na proximidade Ao tímpano de um fone ("Pear-Shaped" é dubstep, mas pra mim soa como breakbeat - ou o contrário; "Tropical Punch" é como se de fato Brian Eno produzisse o Hot Chip). E o ponto altíssimo do disco, que pelo título faz valer toda a ideia frutífera, é uma faixa bombator de pista, com aquela progressão de beats que explode pela elasticidade, não pela combustão:
"Go Bananas". Não poderia haver fruta mais sugestiva para esse beat sinistro. Atente ao vocal "and bullshit..and party.." que vai te fazer cantar por horas.
Flash Content
Joe Goddard - Go Bananas (mp3)
Para quem só se sentirá saciado com remissões ao Hot Chip, "Tropical Punch" lembra muito "
The Warning" e "Shining Escalade" com seus delicados beats quebrados. Mas o disco no geral lembra bons momentos menos pop da banda, como "
Tchaparian", ou quando xilofones e a voz doce de
Alexis Taylor não está presente. Joe e Alexis fecham a identidade do grupo como queijo com goiabada (fruta que faltou no pacote).
Completado pelo podcat que Goddard gravou também esse mês para o Resident Advisor (
ouça aqui), e também a ascenção de muitos dos artistas do Greco Roman, o gordão pode consolidar uma carreira eletrônica sem necessariamente ter que passar recibo ao Hot Chip, mais comprometido com o sucesso em escala universal. De qualquer maneira, quarto disco dá banda promete ser mais dançante, já tem
nome, data de lançamento e tracklist, e estaremos aqui para provar qual sabor terá. A ver.
Quando você fala que ele tenta "harmonizar o caos com a base 4x4 sempre apelativa", acho que é a melhor descrição tanto do disco solo dele como do Hot Chip em si.
De primeira soa tudo óbvio, mas nos detalhes do caos é que você percebe que eles são geniais.
Nada é por acaso, cada timbre (quase) farofa, cada melodia mal feita, cada batida que entra meio torta, te dá a sensação de "já ouvi isso antes" mas soa inovador ao mesmo tempo.
Ouça o Made in the Dark de novo se puder, sem ouvir "Ready For The Floor" e "Shake a Fist" (meio que contaminam a audição), é obra-prima que vai virar referência pro futuro.
Quem mais escolheria "Wrestlers" pra ser single?
=P