Da redenção de Iggy Pop, ao charme do Metronomy e o electro de Etienne de Crécy e Rother, passando pelas guitarras de Primal Scream e Sonic Youth: o festival do ano
Na cinzenta e inóspita São Paulo é difícil imaginar um bonito cenário para festivais ao ar livre. A terceira edição do
festival Planeta Terra achou uma boa saída ao levar dois palcos e 17 mil pessoas para uma festa no tradicional parque diversões
Playcenter que, assim como o fatídico Anhembi, também é à beira da Marginal do Tietê, mas divide o cheiro do rio com os simpáticos brinquedos que entretêm os paulistanos há décadas. Foram 12 horas de festival, diversos brinquedos abertos até por volta de 02h da manhã e, mérito da organização, uma valorização do rock tradicional, de novas sonoridades e da música eletrônica, com os shows de Sonic Youth e Metronomy e os lives de Etienne de Crécy e Anthony Rother, entre os destaques, neste evento que se propõe "de muitas tendências".
Por volta das 17h um sol de mais de 30º C espinafrava o miolo das poucas centenas de presentes e das várias pessoas que chegavam ao Playcenter. De fácil acesso, perto do metrô e de avenidas servidas por ônibus, a estrutura do parque contou a favor para o festival: estacionamentos, bares, praça de alimentação, entretenimento e banheiros, que para eventos como esse nunca são suficientes (foi o caso, as filas durante a noite eram chatas).
O palco principal ficou no estacionamento ao lado da entrada principal - bem mais largo que em anos anteriores, portava bares de ambos e lados e uma área VIP de dois andares. A tenda "indie", menor, ficou lindamente disposta ao lado do Castelo dos Horrores e do antigo Cinema 3D, tendo ao fundo duas montanha-russas como cenários - além de um conjunto de espigões residenciais sendo construídos vizinho ao Play; imagine morar tendo o Looping Star de vista da varanda?
ABERTURAS E NOVATOSMonique Maion e seu Ex!

Logo cedo,
Macaco Bong distorceu guitarras no palco principal, seguido pelo show dos brasilienses do
Móveis Coloniais de Acaju: com uma boa orquestração de sopro e uma forte pegada ska que levantou a primeira manada de fãs animados. A esta hora havia mais fila para comprar cerveja do que para entrar nos brinquedos, algo que seguiu até umas 19h30, quando escureceu. Antes disso, o palco indie recebeu o
Fuja Lourdes, banda "bonitinha" de intragável música a la Cine, NX Zero e Glória (a ordem foi FUJIR mesmo)... E outro show, mais curioso, da banda de electro-pop
Ex!. Tendo a frente a voz (e a beleza) da cantora de jazz Monique Maion, a banda mistura electro, rock e música pop "mudernosa" num mix de referências que vai de Ladytron a electroclash no geral, passando por Goldfrapp, Emily Haines e Chicks on Speed.
Composta por boa banda ao vivo, o Ex! tem certo potencial forçado por sua mistureba, mas de fato soa como um produto feito por encomenda, sem muito a acrescentar. É sintomático que o momento alto do show tenha sido justamente uma cover, "Rapture", do Blondie. Dizem que eles estão cotados já para abrir o show do Killers, um feito para uma banda que nem MySpace tem ainda.
Um pouco ofuscados pelas apresentações dos brasileiros do Macaco Bong e do Móveis Coloniais de Acaju, a banda Maxïmo Park fez de tudo para chamar a atenção do público. Terceira atração a se apresentar no Planeta Terra 2009, abriram com "Quicken the Heart",
do disco homônimo lançado nesse ano, o terceiro da banda. Performático, o vocalista Paul Smith corria de um lado para o outro, apontava para a plateia, fazia mil poses e até cantava algumas partes das músicas com uma megafone. Carismático, de vez em quando soltava algumas palavras em português como "nós somos o Maxïmo Park" e "obrigado". O tecladista Lucas Wooller também chamava atenção por seus trejeitos e caretas. No início do show, com o festival apenas começando a esquentar, a banda foi recepcionada por uma plateia morna, mas até o final do show, quando já escurecia no Playcenter, conseguiram conquistar alguns gritos e eram ovacionados por quem estava no gargarejo, que cantava a plenos pulmões as letras das músicas. Durante "Apply Some Pressure", várias pessoas bateram palmas e ajudaram no refrão.
Copacabana Club

Quem mostrou vigor de público e de palco foi o
Copacabana Club, que lotou o palquinho após o show do Ex!. O quinteto curitibano comandado pela doce voz da jovem Caca V mistura a empolgação disco punk com uma certa brasilidade "
Taj Mahal" de pop rock, um clima "Teretêtetê" que chegou junto com a garoa abafada e lotou o palco. "King of the Knight" foi divertida e o encerramento com "Just do It" foi grandioso, com Caca descendo ao fosso e cumprimentando o público, pose de estrela desde já, atitude que ser escalado para um evento do porte do Planeta Terra permite.
ROCKÃO: PRIMAL SCREAM E SONIC YOUTHBobby Gillespie

Passado o espasmo do forte sol, chega a noite e junto com ela os grandes shows. Na transição entre shows, palcos, brinquedos e o evento no geral, perdemos Mäximo Park, falta compensada com o show do
Primal Scream na sequência do palco principal. Misturando psicodelia noise, rock potente e muito bem tocado, Bobby Gillespie e companhia abriram com o hit do disco mais recente "Can't Go Back" e buzinaram as orelhas misturando momentos de puro rock com sua fase mais eletrônicas: canções como "Swastika Eyes" e "Country Girl" vinham amparadas por paredões orgânicos e amplificados de bass gigante, que alguns de seus espectros nem devem ser audíveis pelos ouvidos. Charmoso, apesar do ar de tiozão, o escocês Gillespie interrompeu por mais de uma vez as músicas aos gritos de "STOP, STOP", tendo recomeçado, dedicado e sem mal-humor, após algum problema de retorno ou exigências extremas que só os músicos veteranos sabem bem.
Ao vivo, o Primal mistura suingue com hipnose guitarrística, lembrando a sensualidade dos Stones com a nostalgia emotiva do New Order. Passada a experimentação mais eletrônica, o grupo volta ao rock, encerrando com uma trinca de hits: "Movin' On Up", "Rocks" e "Accelerator". Faltou "Come Together". E também algumas negonas carismáticas completando a banda no backing vocal.
A PELE ESTICADA DO TEMPO: SONIC YOUTH: 28 anos. Quantas bandas, no cenário evanescente do rock, duram tanto tempo? E dessas, quais permanecem relevantes pelo que produzem agora? Se há alguma outra, o
Sonic Youth mostrou do que é feito o seu engajamento com o presente. Numa apresentação de 75 minutos a banda nova-iorquina tocou quinze faixas e dividiu o show em duas partes bem evidentes. A primeira, dedicada sobretudo as músicas do seu último disco,
The Eternal, de onde saíram as três faixas de abertura, "No Way", "Sacred Trickster" e "Calming, the Snak".
Depois, condensou composições desta década, como "Pink Steam" e "Jams Run Free" - esta com direito a já famosa dança de Kim Gordon, nítida expressão de sua desengonçada sensualidade -, com outras dos anos 80, caso da característica "Stereo Sanctity", uma surpresa para fãs responsáveis pela consagração estética pós-punk do grupo. Ao contrário das apresentações anteriores em SP, ocorridas em 2000 e 2005, nenhuma música dos anos 90 foi ouvida ao longo do show, sem no entanto comprometer a adesão da platéia - no gargarejo, tomado por jovens fãs, todos demonstravam entusiasmo, mesmo ante a chuva renitente.
A dancinha de Kim Gordon!Com a formação original acrescida de Mark Ibold, baixista do Pavement, a apresentação, vigorosa, alternou os momentos enérgicos com outros plenos de contemplação. A escolha do repertório, com a dobradinha "The Sprawl" e "Cross the Breeze" bem no meio do show ressaltou a estratégia, graças às suas melodias. Antes do início, os fãs comentavam alvoroçados a disposição de mais de 20 guitarras diferentes no palco. Renovados significados despontam quando "Death Valley 69" é resgatada, no encerramento do show, lá dos primórdios da discografia, numa versão rigorosamente encorpada. Extasiante como o divertido tombo de Kim Gordon, admitido à sua performance, durante "Jams Run Free": "maduros" até na arte de cair.
NOVIDADES ENCORPADAS: METRONOMY E TING TINGSVery british a apresentação do
Metronomy. Empunhando elegância e uma discreta empolgação, expressada em amor e vontade de retornar ao Brasil, Joe Mount e companhia fizeram um show delicioso, em que o álbum
Nights Out foi completamente destilado para os paulistas, prova de sua enxurrada potencial de hits. Da geral em uníssono com "Radio Ladio", aos momentos cativantes das baladinhas "Heartbreaker" e "On Dancefloors", o democrático quarteto é composto ainda por um negro no baixo, um baixinho simpático e cheio de pose no teclado/synth (talvez o instrumento mais importante da banda, fraseando as melodias constantes do grupo), e a tímida baterista Anna Prior.

Quando Joe não canta sozinho o trio de rapazes divide os versos em falsete, ritmado ainda por lanternas grudadas em suas roupas, e poses meio militarescas de acordo com o compasso, as paradas e a alternância de ritmos do grupo - que são muitas. "Holiday", acelerada, ia de riffs de guitarras, solos de synth e esforços da bateria. "The End of you Too", instrumental, mostrou a displicência da banda ao brincar com sua musicalidade. Mesmo em canções de remissão fácil ao passado, como em "A Thing for Me" (Human League 2000s), o Metronomy mostrou que ao vivo é único, criativo e divertido. E o desejo do público em relação à banda não foi outra coisa senão mútuo: que eles voltem logo também.
Katie, do Ting Tings: não se engane, ela não toca nada

Já a dupla
Ting Tings, que tocou na sequência no palco indie, mostrou que seu som, mais do que datado - acusação recorrente -, é bem fraco ao vivo. A voz de Katie White é baixa, não segura o groove acelerado das rápidas canções pop do grupo (o show não durou nem uma hora). Enquanto Jules de Martino segura a onda como excelente baterista, Katie não sabia se tocava guitarra, saudava os brasileiros e macaqueava no palco, com visual infantilóide mas cara quase de uma Debbie Harry cinquentona. Talvez pela calmaria, a baladinha "Be the One" saiu bem, cantada junto com o público, mas não deu para aguentar o falsete minguante de "We Started Nothing", que por ainda por cima saiu sambada. O show no Terra só comprovou o que era imaginável: o Ting Tings é banda ultraproduzida, sucesso criado na mesa de som.
E quem estava na dúvida entre ver Ting Tings e Iggy e arriscou 10 min na dupla pop inglesa, voltou correndo para o palco principal - dava para fazer um pitstop no carrinho de bate-bate nesse caminho, onde rolava uma seleção eletrônica e dance, indo de Locomia remixado a "Blind", passando por Opus II e house music bem grooveada. Sensacional!
IGGY POP: LIFE!Lust for life: Iggy Pop

Quatro anos depois, a pele ainda mais caída, a barriga maior e o corpo um pouco mais decrépito, Iggy Pop voltou ao meio de nós e saudou os "paulistas" a torto e a direito com rock, muito rock de diversas fases de sua carreira e do Stooges, mesmo após a morte do famoso guitarrista Ron Asheton agora em 2009. Aos 62 anos, Iggy começou a apresentação mais calmo, deixando que o público desse mais atenção à musicalidade de canções como "Raw Power" e "Search & Destroy" do que seus surtos.
Mas estes não tardaram a chegar: ele se jogou no meio do gargarejo em "Gimme Power", amparado sempre pelo cabo do microfone para não afogar no meio da galera sedenta pela esperada interação. Por mais que seja previsível e até medida, o fuzuê de seus shows é algo que ele deseja, e desse momento em diante, Iggy surge como uma criatura insana do rock, gritando saúdos, mantras, berros incompreensívels, disparando ordens para a banda, e cantando. Como um senhor de 62 anos se esbalda dessa maneira e ainda consegue cantar no melhor estilo barítono-goth, dos moldes que bandolas como She Wants Revenge só conseguem via mesa de som?
Já no alto do seu show, Iggy pede para as luzes do palco acenderem e chama "a few guys over here". No fim das contas, num palco maior do que o de 2005, a impressão lá de trás era que pelo menos uma centena de pessoas subiu. Amparado por seguranças que afastavam os curiosos e empolgados a cotoveladas, Iggy se divertia, berrava, gritava, e o público também: havia quem segurava os bagos e fazia pose, quem ensaiava sair na mão à toa, quem gritava e pulava sem saber porque... Foram quase 10 minutos para esvaziar o palco e reclamações paranoicas na imprensa no domingo - "
AGRESSÃO E TUMULTO DOS SEGURANÇAS"? Bem, quem subiu ali foi por conta e risco.
Na reta final, Iggy estava tão entregue quanto o público. E foi lindo quando ele, de joelhos e se revirando, parecia falar de si mesmo ao berrar "Life! Life! Life!" e emendar com "Lust for Life", inesquecível. Dedicada ao
"fucking" Ron Asheton (que morreu em janeiro desde ano) e com latidos, veio "I Wanna be Your Dog", e, como se não fosse o bastante, o estacionamento do Playcenter virou o apocalipse quando surgiu a indefectível guitarra de "The Passenger".
ETIENNE E ROTHER: LITTLE COMPUTER PEOPLECom chuva firme e 5% do público do Iggy Pop, Etienne de Crécy fez uma festa quase particular para os poucos sobreviventes na frente do palco principal. O quadrado gigante em que ele, centrado no meio de nove cubos, surgiu sob luzes fluorescentes e sirenes, emanava muitas sirenes caóticas e policiais, que surgiam o tempo todo para revezar entre o electro quebradíssimo (mais conhecido como 'até o chão') e um eletro-tech maximalista, grandioso e insuportável para quem bebe muito leite. Quando o francês ainda descia o dedo no acid, o som era ensurdecedor e o efeito de luzes piscantes e dançantes, que eram soltos num balé geométrico pelas barras dos cubos, traziam o conforto e a atração para os olhares.
Anthony Rother: redenção electro

Fechando o evento e a boa aposta do Terra no electro como música eletrônica oficial do evento, Anthony Rother se apresentou no palco indie. A chuva era insistente, mas ainda assim o calor beirava os 25º C, e todas as insígnias e ideias do mundo digital do alemão foram expressas: "Little Computer People", "Youth", "Father" e "Punks" foram alguns dos hits irreprensíveis do electro de Rother. Ocupado com suas centenas de linhas de knobs e sequenciadores, Rother fundia breaks, e dava respiros contemplativos de sintetizadores melódicos, quase órgaõs do inferno de alguma máquina degenerada, que ele reconstrói em música.
A presença constante dele no Brasil, que rende críticas, descaso e até piada ("Toninho"), não valem mais do que sentir os breaks do alemão na nuca, num festival redentor como o Planeta Terra, que mostrou que o roteiro nacional não se esgotou com o fim de alguns eventos, e que sempre acertará ao trazer artistas realmente diversos, divididos entre nomes estabelecidos e novidades anciosas. Que venha o próximo!
Tô encafifada com isso, porque tive essa impressão muito nítida durante o show, mas em toda crítica que leio, só saem elogios.