Sintetizadores lo-fi dão o tom em disco que sobra de influência Daftpunkeana e boas faixas
Lá nos anos 80, quando o maquinário de sintetizadores e o acesso à informação referente a essa cultura era algo difícil, o espírito DIY (do-it-yourself) era talvez mais um conceito. Mas 20 anos depois, com a internet e a avalanche de possibilidades e conhecimento fácil, esse termo originado do punk realmente faz sentido. Desse modo também, os anos 80 são revisitados e redescobertos, época de nostalgia infanto-juvenil para os jovens músicos e entusiastas de hoje. Basta um par de sintetizadores velhos, alguma criatividade, referências pops e uma conta do Gmail para enviar sua música para blogueiros e pronto: você já pode dar conta de um projeto de electrosynthpop e afins.
É o caso do
Neon Indian, alcunha de Alan Palomo, americanogem mexicano de Austin, Texas, que está sendo comentado com seu terceiro projeto musical, Neon Indian. O primeiro álbum do projeto já está devidamente lançado, chama-se
Psychic Chasms, e saiu no mês passado. Ao que parece, o Neon Indian conta ainda com a presença de uma garota do Brooklyn, responsável pela parte visual do projeto ao vivo.
REFERÊNCIAS EXPLÍCITAS; A BUSCA PELA IDENTIDADEO álbum é desses projetos recentes que divide seus méritos entre a diversão de boas músicas e uma exacerbação de referências rápidas e assimiláveis: cultura de game (o perfume 8-bit), Daft Punk explícito, a remissão direta a músicos de sucesso recentes (Cut Copy, MGMT),
Alan Palomo

hedonismo (drogas, verão) e muita nostalgia musical e até infantil, que já chamei aqui no rraurl mais de uma vez de "freudiana".
O clima lo-fi de produção caseira em sintetizador, microfone e laptop é o mesmo do
Washed Out, mas este tem mais versatilidade dentro de um som mais único, onde a referência não é tão manjada assim e é mais fácil se surpreender. "Terminally Chill", por exemplo, é tão Daft Punk 2005 que dói, dá um pouco de implicância. Mas a colorida ambientação de videogame SEGA deixa a brincadeira mais leve, menos robotizada.
Bom que o Neon Indian está tendo algum reconhecimento justamente por sua sonoridade diversificada ao longo das faixas, pois o projeto anterior de Palomo, intitulado
VEGA (o chefão do Street Fighter?), era um synth-pop mais pasteurizado e polido, logo, não tão interessante.
Psychic Chasms tem algumas pérolas, como a linda "Deadbeat Summer" (ótimo nome), em que dá quase para ouvir o crack de vinil antigo num 4x4 bronzeado por guitarrinhas em diálogos com gemidos. O vocal de Palomo é um misto de Phoenix universitário com electro bloghouse.
Flash Content
Neon Indian - Deadbeat Summer (mp3)
"Laughing Gas" soa como caixinha de música decorada com arabescos de french touch e, como o nome diz, faz rir. Junto com suas boas canções, algo a se marcar bem sobre o disco são os interlúdios, sempre charmosos em seus rápidos espasmos musicais e que deixam o espectador atiçado, sendo saciado pela boa composição de canções que Palomo faz no disco. As baladinhas são prova disso. "6669 (i don't know if you know)" tem pegada rock que fica enrustida pelos tilintares espaciais e a bateria eletrônica, pura nostalgia.
E tem "Mind, Drips", provavelmente a faixa mais bonita do disco, que agrada os fãs introspectivos de Fever Ray com sua batida letárgica, é imponente com seu reverb a la
Art of Noise e faz juz ao nome "Indian" do projeto com uma escaleta tribal. O vocal tenso, ecoado como efeito na base, é bonito.
"Mind, Drips" resume o que parece ser uma identidade Neon Indian de fato. Porque a referência Daft Punk é legal (beira o Justice em "Ephemeral Artery"), mas vale sempre a pena polir as possibilidades musicais numa jóia que seja só sua. Não que isso seja fácil, não sou músico e tenho certeza que, ao produzir algo, sempre refletimos as músicas e sonoridades que gostamos e/ou crescemos ouvindo. Mas daí a se propor sério e autoral, é outra história.
Meia-boca? Eu não acho nem um pouco.
Adoro!
http://www.youtube.com/watch?v=3Jma6Ojg2Vg&feature=fvw