Projeto "caseiro" de produtor americano lança mini-álbum com tiragem de apenas 200 cópias
Vivemos mergulhados numa paisagem de músicas perfeitamente produzidas. É o tedioso universo radiofônico da compressão controlada; dos vocais pasteurizados por efeitos; dos baixos esféricos. Talvez isso explique porque as músicas do projeto americano Washed Out soem tão joviais e refrescantes logo à primeira audição.
High Times foi lançado em uma edição limitada a 200 cópias em fita cassete, mas está amplamente disponível para download em versão digital. As faixas são assinadas pelo produtor de quarto Ernst Greene, com quem o
Rraurl bateu um papo recentemente. E a sonoridade delas reflete a inaptidão técnica de Greene. São abafadas; seus instrumentos se sobrepõem de uma maneira estranha e os samples parecem gravados em MP3 de baixíssima qualidade. Quase dá para ouvir o estalo dos cabos mal conectados do computador.
Mas quem precisa de técnica quando se tem frases de teclado tão boas quanto a de "Olivia"? A música se desenrola sobre um loop de sintetizador brilhante. Distante desta época, ela soa como um hit romântico resgatado de uma caixa esverdeada pelo bolor. Quem não se apaixonar deve, ao menos, sair com o coração amolecido - é o estado da arte em pop eletrônico.
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Washed Out - Olivia (mp3)
Outro acerto é "Belong", que reforça a verdade inconveniente a qualquer rato de estúdio: uma música não precisa ser perfeitamente produzida para tocar um ouvinte. Os vocais de Greene vacilam, desafinam, somem no arranjo - mas junto aos teclados, que vêm num ritmo jamaicano, a conquista é imediata. As colagens assumidamente precárias de "Good Luck"; a maneira brusca com que as faixas terminam - tudo contribui para essa aura deliciosamente relaxada do Washed Out.
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Washed Out - Belong (mp3)
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Washed Out - Luck (mp3)
O afeto pelas miudezas cotidianas aparece nos nomes de algumas canções: "Phone Call" é uma das mais felizes, com coro de vozes e um emaranhado de bateria e teclado. "It's Kate Birthday" tem samples de sirenes, saxofones e um grave sintético saído de um brinquedo made in China. Seus loops repetitivos, que não levam a lugar algum e terminam sem aviso, afrontam os tabus da métrica. E é essa aversão ao complexo que torna High Times uma terapia de desintoxicação musical.
Mesmo que Greene não sobreviva ao hype, suas músicas já serviram como inspiração a quem gosta de produzir música em casa. Numa época em que softwares gratuitos proliferam, este álbum demonstra que qualquer computador pode se tornar uma magnífica usina de criatividade. Que surjam mais novidades caseiras - e talentosas! (E não se esqueçam de me endereçar uma cópia.)
Lembro do Chemical quando eles surgiram, o espanto sobre o bom uso de samples. É praticamente a mesma coisa. :)