Como transmitir expressões humanas através de uma arte tão mecânica quanto o techno? As batidas são retas. Os timbres, diferentes de qualquer um saído de instrumentos de corda ou sopro. Sem falar nos compassos, sincronizados como apenas uma máquina faria. O produtor francês Vitalic é um dos que conhecem a resposta.
Futurista por aptidão, as músicas de seu novo álbum,
Flash Mob (2009), se desenvolvem sobre dois elementos - ritmo e melancolia. Não há paisagens solares nem baladas preguiçosas. Trechos orgânicos também são raros, e encontrados nos arpejos esparsos de faixas como "See the Sea (Red)". De alguma maneira, conseguimos ouvir a força criativa de Vitalic, embrulhada entre sintetizadores e batidas eletrônicas.
No conjunto, há poucos motivos para sorrir. O que torna essas composições algo além de puro pessimismo futurepop (de grupos como o alemão VNV Nation) é sua capacidade de estimular nossa adrenalina. Mesmo brotando do cinza, a energia de "Terminateur Benelux" - com sua linha de baixo áspera, sinetas convulsivas e teclados escorregadios - seria capaz de acender uma lâmpada elétrica.

Quem já conhece o som do produtor vai encontrar semelhanças entre essas faixas e sucessos antigos. "Flash Mob" lembra "La Rock 01" (de sua estreia,
OK Cowboy, de 2005) pela aceleração constante. A velocidade dos teclados desenha um crescendo interminável que deve criar novos momentos esfuziantes em pistas de dança. Uma cauda longa inversa do êxtase eletrônico que nem Chris Anderson poderia explicar.
É o mesmo tipo de som urbano que marca a obra de artistas como o inglês Surgeon. Vitalic se apropria de maneira inventiva do jogo entre luz e sombra criado pelos pioneiros de Detroit. Parece não haver emoções na massa metálica de "See the Sea (Blue)". Mas bastam alguns minutos (lá pelos 2'40") para que ela acelere e faça neurotransmissores inundarem nossas sinapses de sensações bem reais.
IMOBILIDADE CRIATIVA"One Above One" faz lembrar
Velocifero (2008), trabalho mais recente do grupo inglês Ladytron. Obra dos vocais femininos, cantados sobre um electro-pop de acento macabro. É uma das mais interessantes, e também mostra que a paleta de cores deste disco é limitada. Há um ar de comodismo no desenrolar das composições, e o álbum não respira novidades.
Ao repetir a estética de trabalhos anteriores,
Flash Mob entrega mais do mesmo. "Second Lives" e "Your Disco Song" são, no mínimo, esquecíveis. "Allan Dellon" agrada com sua melodia vagarosa, mas não demora a cair numa repetição tediosa. Também neste aspecto, o álbum é bem humano. Descreve com precisão nossa dificuldade (ora incapacidade) em superar áreas de conforto. Pois, ao contrário de suas músicas, Vitalic é feito de muito carbono.