Quinto álbum da dupla vale pela criatividade - e pela diversão - até nos momentos de farofa
O Basement Jaxx é a nossa desculpa para gostar de dance music. De baba. De uma farofa temperada com diversas iguarias da música eletrônica que, ao contrário de hits de FM que só agridem, aqui dão um sabor palatável e até mesmo infame, que nos pega justamente pelo estômago. Tome como exemplo este novo álbum,
Scars, o quinto lançado pela dupla inglesa Felix Buxton e Simon Ratcliffe. Se você interpretar o disco na primeira impressão, é uma porcaria dançante - divertida até, mas boba. Mas retiradas as amarras do preconceito,
Scars revela-se uma ótima reunião das mais diversas faixas.
Tem poperô para os fãs insaciáveis de David Guetta e afins, tem o ragga-Jamaica característico de Londres, tem baladinhas e um espasmo ou outro bem criativo. E isto é o ponto alto do álbum, que flutuasobre a alma pop da house music - enquanto todos os artistas do french touch e os
big names do fim dos anos 90 variam entre o céu e o inferno suas musicalidades características. Nesse aspecto, o Basement Jaxx pode orgulhar-se de ser o mais versátil dessa turma. Fora que é um puta show ao vivo.
"Raindrops", o single de estreia, tem aquela grandiosidade estelar e radiofônica, corroborada pelo vocal autotunadão que sim, ficará na sua cabeça. E o outro single, "Feelings Gone", é o mais baba. Sam Sparro canta com sua típica pretensão de Frank Sinatra do hype, e violinos metalizados são inseridos para trazer uma "classe" que só cutuca o sarcasmo. Mas dá para sentir nesta faixa como é interessante o modo que Felix e Simon administram as bases de maneira tão espontânea e rápida, pura orquestração eletrônica a serviço de FMs bacanudas.
Quem sente falta de hits como "
Fly Life", "
Samba Magic" e "
Red Alert" terá que se dedicar a retornar no disco algumas vezes. Pois
Scars não adiciona outro megahit na discografia da dupla, mas ao contrário da
latinidad irreverente de
Crazy Itchy Radio (2006), este diverte de várias formas e, ao final, vale a pena. Tome como exemplo a faixa como "My Turn", onde o cantor
Lightspeed Champion canta, preguiçoso e melancólico, em contraposição a uma linha de synths e efeitos que podem fazer a alegria tanto de um comercial, quanto de uma festa em que você tomou uma balinha.
Flash Content
Basement Jaxx - My Turn (feat. Lightspeed Champion) (mp3)
O sossego do Basement Jaxx pode ser conferido ainda em "D.I.S.tractionz", onde um tal Jose Hendrix sussurra, sensual, numa língua estranha (francês? romeno?) sobre um jogo de notas que lembram aqueles antigos porta-jóias musicais. E ainda na linha
erotique, tem "Stay Close", em que o vocal black convidativo escorrega em tubos sonoros e num requebrado de bass sensacional, a boa e velha "paradinha" a serviço das cinturas clubbers. Quem canta aqui é Lisa Kekaula, uma das animadas cantoras que acompanham o BJaxx em suas apresentações.
Flash Content
Basement Jaxx - Stay Close (feat. Lisa Kekaula) (mp3)
Na onda
pós-N.A.S.A. de listar dezenas de convidados num álbum ou numa faixa,
Scars traz todo um colegiado de colaboradores, que vão do já citado e enfadonho Sam Sparro até Yoko Ono, que faz a música ter sua cara em "We March On". Com Santigold, "Saga" é um ragga acelerado com rasgos de AFX, mas nesse monte de negonas maravilhosas de boa voz, quem se destaca no disco são as nervosas do
Yo Majesty dando o tom em "Twerk". O autotune surge calibradíssimo nos versos "
Maniac, maniac on danceflooor.. She dances like she never danced before", raqueteados de volta no ouvido por uma cornetona de funk carioca. Sim, funk carioca. Sabe quando você entra nessas de tocar em festinha e de repente a pista começa a funcionar? Então, "Twerk" é um coringa, um supertrunfo.
Safado, tropical e londrino. Farofa, sentimental e criativo. Com
Scars, o BJaxx reafirma sua posição no tabuleiro dos grandes nomes da eletrônica mais pela criatividade do que pela inovação. Sem medo de assimilar tudo que passou de curioso pela música "under" nos últimos 3 anos, o disco é basicamente uma diversa experiência sonora, já que não há temática, nem para o título (que significa 'cicatrizes'), nem para a capa (que tem uma mulher-coruja cyberasteca). É para ouvir, e ponto final.
Texto, banda e disco muito bons!
;)