Agora em produção e estúdio próprios, franceses criam lindo disco que toca o amor em temas tropicais, psicodelia sul-americana e cheiro de mato molhado
Instinto e espontaneidade tropical. A alegria ensolarada pelo know-how de anos de experiência musical que agora abrange temas como natureza e o amor. Ah, o amor... Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel, os franceses da dupla AiR, chegam a seu sexto álbum embalados por um verão sonoro que originou as 12 faixas de
Love 2. Desta vez sem o comando de um produtor (no caso, Nigel Godrich), Godin e Dunckel mostram ambição ao produzirem eles mesmos o disco em sua novíssima central de produção, um estúdio intitulado Atlas.
O nome não seria melhor, pois
Love 2 é uma viagem musical geográfica rumo aos trópicos. Étnico, naturalista, úmido e feminino, o disco é um avanço da proposta introspectiva de
Pocket Symphony (2007): se antes os franceses musicaram o espaço por desejos irrealizáveis de amor - em canções por vezes insossas,
Love 2 é a realização final da paixão embalada por elementos tropical; é o amor idealizado e, melhor, vivido.
NATUROCK, JUNGLEBEATLove 2 surgiu primeiro com a
divulgação de "Do the Joy", a faixa de abertura: guitarras que flutuam numa distorção sintética, ventos eletrônicos e muitas notas, delicadas e bem colocadas notas de piano, de synths e de teclados. Afinal de contas, o AiR é uma banda de notas e reverberações eletrônicas de identidade bem próprias. O resto, é incremento. Talvez por isso muitos pensem à primeira audição: "é, um disco bacana, só que mais do mesmo". Ainda bem né? Que bom que eles se esforçam entre acertos, erros e ambições dentro de seu escopo musical. Queriam o quê, que de repente o AiR virasse
dubstep?
Entre a bossa-nova de "Love", anunciada entre chocalhos de cobra e sopros - muitos sopros que pontuam o disco inteiro; e o possível single "So Light is Her Footfall", a faixa que melhor sintetiza
Love 2 é "Tropical Disease". Estão lá visões sul-americanas como espamos de monstros não identificáveis e a musicalidade do sol/lua cheia, mas também um bom resumo das possibilidades do AiR: o french pop sessentista que já embalou
Charlotte Gainsbourg; mais sopros, absurdas flautinhas andinas; a grandiosidade que remete aos
primórdios da banda, em tempos big beat. Até desembocar num
turning point no meio da faixa, onde tudo recomeça com trompetes, xilofones e reverberações com
Ray Connif feelings.
Em "Tropical Disease", Godin e Dunckel criam a ilustração de uma malária amorosa, o conforto de uma febre de verão, chapante, confusa e suada. "Woman... Make me feel warm.. Inside". Lampejos nonsense e sensuais que são transmutados numa ressonância sintética de virar os ouvidos do avesso. Nunca o AiR trabalhou tão bem a reverberação como em
Love 2.
Flash Content
Air - Tropical Disease (mp3)
Love 2 navega ainda por águas calmas numa variação de rock tarantinesco de bastante influência blues ("Eat my Beat" e a potente "Be a Bee", talvez a maior personificação do disco: uma abelha distorcida e viajante), trajetória essa que bate o casco do caiaque também pelo boogie woogie, a surf music (de novo "Be a Bee"), e o calor e a apolepsia do eletrônico notívago: nesse ato do disco, destaque total para "Missing the Light of the Day", minha predileta.
É como se o
Kraftwerk tivesse vivido o
verão da lata carioca: o break é harmonizado pelas notas características do AiR, backing vocals angelicais e computadorizados, e o vocal em coro que fecha uma linha cronológica que começa em Tom Tom Club e chega nos últimos anos por artistas como
Joakim e Woolfy. Tudo muito sutil até que, de repente - o AiR sempre joga seus efeitos de forma surpreendente -, surge uma espiral de synths mágicos, que traz à mente a forma de um ácido desoxirribonucleico traduzido para a cintura humana.
Flash Content
Air - Missing The Light Of The Day (mp3)
LIVE YOUR PASSIONPassado os pontos altos, que vão da contemplação brega ao ápice dançante,
Love 2 mergulha numa reta final que reprocessa a temática proposta. O disco
começou a ser gravado na primavera francesa e seguiu seu imaginário verão adentro, época que a confiança enfim deve ter se instaurado de dentro do estúdio Atlas.
"Heaven's Night" lembra
Premiers Symptomes e, traduzida para uma brasilidade, poderia ser cantada até por Roberto Carlos (sério!). Voltam ainda os temas noturnos com "Night Hunter", electrosoft e ambient - um bongô ali, outro linha de frases de piano aqui -, tudo numa firmeza easy listening eletrônica que, aos que conhecem a fundo o AiR, faz sentido o que eles estabeleceram em
10.000 Hz Legend: "
we are electronic performers".
Um porém deve ser feito, mas é logo recompensado. "Sing Sang Sung", divertida brincadeira com o verbo inglês, mas excessivamente adocicada e pop - é o segundo single após "Do the Joy" -, vale mais por seu magnífico clipe, que, inspirado na psicodelia "Yellow Submarine", mostra um jogo colorido e visual no equivalente gráfico da musicalidade do disco. Cnidários, saltos, bocas, amebas, complexos de Golgi, mitocôndrias, árvores, fungos, trompas de falópio, estalactites, bolo floresta negra, diamantes... Mil coisas, assista.
O encerramento - são 45 minutos de disco -, vem com uma interpretação sublime do que é o verão. Em "You Can Tell it to Everybody", a flautinha boliviana já está molenga e com ensolação, e o título da faixa é o próprio verso-refrão, que diz o suficiente. A bateria tem papel crucial ditando o compasso, aqui comandada por
Joey Waronker, baterista que já trabalhou com R.E.M. e atualmente excursiona com a
big band de Thom Yorke. Depois da abstração de
Pocket Symphony, em que o amor é substituído pela confusão solitária dos sentimentos, o final de
Love 2 mostra o AiR em paixão realizada e assumida, que eles querem é contar para todo mundo em forma de música

Mas, como tudo no verão, essa paixão parece ser efêmera. A linda "African Velvet" encerra o disco como uma ressaca de sentimentos. O trompete jazzístico a consolar o ouvinte, o coração espumado de um souvenir de amor vivido só no momento de uma estação, o adeus na hora de ir embora. A lembrança que conforta, é bonita, mas também é melancólica.
Não me lembro de ouvir um disco "temático" tão inspirado - e inspirador -, que mostra o artista imerso entre sua propriedade, seus medos (e vacilos) e novas ideias. Mais do mesmo sim, mas diferentes como nunca e, principalmente únicos. Dos grandes nomes da eletrônica surgidas nos últimos 10, 15 anos, Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel são talvez o que podem trabalhar mais as suas possibilidades, sem se desvirtuar. Queria eu saber expressar o amor dessa forma.
Ao invés de Love 2 queria um Moon Safari 2.
A crítica do Pitchfork é, ao meu ver, bem embasada e a nota dada condizente com o disco.
Me lembra Astrud Gilberto + Kraftwerk.
A resenha definiu mto bem...
achei a crítica meio exagerada e cheia de critérios bestas, e considero essa do rraurl muito melhor referenciada. mas sou um pouco suspeito pra falar pq adorei o álbum...hehehe