A dificuldade de expor suas dores de coração em público.
Amy Winehouse há de concordar comigo: nada como um coração partido pra injetar uma boa dose de inspiração na carreira de um músico. Pelo menos, essa tem sido a feliz consequência que afetou a banda londrina
Noah and The Whale, e mais precisamente seu líder, Charlie Fink.
Charlie e sua banda indie folk despontaram no cenário britânico no verão de 2008 com o single
"5 Years Time", um daqueles hits que grudam na sua cabeça por terem refrões repetitivos e extremamente irritantes sobre o quanto seus autores são felizes e sorridentes ("it was fun fun funnnn, oh it was fun") Nessa época, Charlie tinha motivo pra tal: além do single entrar pro top 10 e vender mais de 100 mil cópias do álbum
Peaceful, The World Lays Me Down, o moço ainda namorava sua talentosa companheira de banda, a cantora inglesa Laura Marling.
Só que o tempo passa, o tempo voa, e a adolescente Laura (ela nasceu em 1990) engrenou uma bem-sucedida carreira solo com seu álbum
Alas I Cannot Swim, produzido por Charlie - e como agradecimento, Laura deu um chute na bunda de seu antes feliz e sorridente namorado. Deve ter doído muito, porque um ano depois, Noah and The Whale voltou em ótima forma não só com um disco inteiro baseado no término da relação, o
The First Days of Spring, mas também com um belo filme homônimo. Não a toa, a banda foi convidada a se apresentar no
Mercury Prize Sessions, uma gig mensal no exclusivo
The Hospital Club em Londres com o intuito de promover os artistas britânicos mais talentosos do momento. O show aconteceu no último dia 28.

Aparentemente, a ordem das músicas no álbum segue a história do sofrimento de Charlie, desde a dor do rompimento até as primeiras tentativas de esquecimento com sexo casual - e assim segue o show. Começando com a música título, a banda tira proveito do poderoso sound system do estúdio do club e constrói uma longa trilha sonora, soando por vezes não muito diferente da banda islandesa Sigur Rós (outra que também já se aventurou com ótimos resultados por terra cinematográficas). O violino de Tom Hobbden engrandece a voz grave de Charlie, chegando ao ápice com "Love of An Orchestra," enquanto o baixista Matt Owens e o baterista Doug Fink (irmão de Charlie) tentam emprestar um pouco de violência e propósito ao sentimentalismo quase caricato da performance. No fim, a banda percorre uma linha tênue entre poesia (bom) e melodrama a la Snow Patrol (ruim) - mas encerra bonito em pouco mais de 1 hora, com a serena "My Door is Always Open", uma declaração de que a dor passa, mas esperança (de voltar) é a última que morre.
Uma pena que a audiência britânica presente - gente da mídia, claro - é cínica demais pra levar a dor do menino a sério: no meio do show Charlie pede pra todo mundo calar a boca que ele não consegue escutar a si mesmo, e ao final da última track sai marchando do palco, sem olhar pra trás. É duro expor as dores de amor em público. Mas como diz o ditado, há males que vem pra bem. Só nos resta torcer pra que, em nome da arte, mais artistas levem um célebre fora.