Projeto atual de Jack White e Alisson Mosshart celebra essência seca e suja do blues
Antes de começarmos, uma pergunta: quantos projetos Jack White conseguirá abraçar até o final da década? Depois do "oficial"
The White Stripes, ele surpreendeu o mundo com o
The Raconteurs, com direito a execução do álbum de estréia
Broken Boy Soldiers durante a premiação da MTV em 2006, e um rápido 2º álbum,
Consolers of the Lonely, em 2008. Também em 2008, enquanto Amy Whinehouse ganhava sucessivas manchetes de jornais ao passar o seu tempo enfiando o pé na jaca,
Jack gravava ao lado da cantora Alicia Keys a faixa "Another Way to Die", tema principal da trilha sonora de
Quantum of Solace, 22º filme da franquia James Bond. Também fez companhia a The Edge (U2) e Jimmy Page (Led Zeppelin) no documentário sobre a história da guitarra elétrica,
It Might Get Loud, com previsão de estréia em novembro, no Brasil.
Agora é a vez desse norte-americano de Detroit escancarar suas inspiradas raízes blues-rock com o supergrupo
The Dead Weather ao lado de Alison "VV" Mosshart (
The Kills), Dean Fertita (Queens of the Stone Age) e Jack Lawrence (The Raconteurs). O quarteto anunciou sua existência em março de 2009 com o lançamento do primeiro single, a dinâmica "Hang You From the Heavens". Gravado nos estúdios Third Man, em Nashville, ao longo de três semanas de jam sessions, a faixa adiantava
Horehound uma viagem obscura, estranha e hipnótica no que há de mais sujo e clássico do blues rock dos anos 1970, com influências que vão de Allmans Brothers a BB King. Em todas as 11 faixas se percebe uma tentativa de soar contemporâneo, que a princípio parecer perturbador e esquisito, levando-se em conta que gênero foi parcialmente abandonado. Mas acredite: isso não nada é ruim.
A largada inicial é dada com a profunda e vigorosa "60 Feet Tall", recheada de linhas tensas de baixos e rugidos de riffs. A desconexa e divertida "Treat Me Like Your Mother" mostra uma ambígua selvageria que poderia facilmente figurar em qualquer registro dos Stripes. A balada "Rocking Horse" é mais ardente e tem energia suficiente para superar o convencional. E como o álbum é rodeado por um espírito experimental de blues, não poderia faltar o momento Bob Dylan com a agradável "New Pony", cover do cantor. A instrumental "3 Birds" soa como se fosse parte de uma trilha sonora de filmes do tipo western spaghetti. "I Cut Like a Buffalo" e "There Will Be Enough Water" prendem a atenção por serem agradáveis, sentimentais e um tanto assombrosas.
Ao contrário de suas outras bandas, no Dead Weather White prefere não ofuscar os outros integrantes e fica encarregado de tocar algumas guitarras, fazer alguns duetos vocais e se dedicar a bateria. Em
Horehound há uma nítida sensação de ele prefere ficar na sombra, e que o brilho da vez é a vocalista Mossheart, que além de ilustrar sozinha a capa, mostra dinamismo, profundidade e muita força ao gemer, gritar, seduzir e se desdobrar para preencher com sua voz as melodias sem nenhum apelo desnecessário. Se em muitas vezes ela obtém êxito (principalmente na envolvente "So Far From Your Weapon"), em outras falta carisma.
Não é um disco pop e, se essa era a oportunidade que alguns desconfiados esperavam para atacar a versatilidade sonora de White, esses terão que adiar essas pretensões. Por mais sinistro que
Horebound pareça, o artista mais uma vez com a forte personalidade que sabe se reinventar sem perder a essência. O Dead Weather demonstra porque White é tratado como um dos grandes artistas da música mundial desse começo de século.
Parabéns pela ótima resenha!