Dupla de Portland, EUA, exibe seus conceitos libertários e artísticos em ótimo disco de electrofunk e disco punk - o show deve ser sensacional
27.08.09 07:35
Livre expressão, música x internet como uma convergência cultural irreversível, performance, consciência de grupo e o mistério da luz (!). Quase como um xamã, a dupla Claire L. Evans e Jona Brechtolt surge de Portland, EUA, para o mundo com o projeto YACHT, onde conceitos libertários são musicados em criativa e boa música dentro do espírito cool da disco punk.
See Mystery Lights é o segundo álbum do YACHT, mas na verdade seu primeiro grande lançamento. Foi lançado pela DFA, e clipes e singles já haviam sido soltos aos poucos pelo selo de James Murphy.
YACHT IS NOT A CULT Num tempo em que o questionamento do formato "álbum" é intenso, See Mystery Lights mostra a força de compêndio redondo e essencial à imagem desse grupo, que por mais "coletivista" que possa parecer, trata-se basicamente de um rapaz e uma moça e seus microfones, laptops e MPCs. Da deliciosa influência de Prince em "I'm in Love With a Ripper", até a sensacional "The Afterlife", o YACHT não manda mensagens subliminares nem dita novos comportamentos juvenis - apenas faz dançar.
A cronologia de referências é até óbvia: DFA e a pedra fundamental do The Rapture, passando por fofuras pops ao nível de Ting Tings e New Young Pony Club no single "Psychic City" (isso é um elogio, ok?), Jona e Claire mostram o lado imprevisível de Portland, a Porto Alegre dos Estados Unidos, assimilando os pressupostos a la Animal Collective/of Montreal de picotes, alternâncias repetinas de ritmos e cadências, num mundo pós-pós-punk e indietrônico que faz dançar e canta coisas simples ao mundo, como o amor por uma "ripper" (algo como o difamador termo "galinha").
"It's Boring/You Can Live Anywhere you Want", por exemplo, é um duelo entre alguém reclamando e outrem dando a solução, com vocais cheios de eco, guitarras aceleradas de Liquid Liquid alternadas por vocais pré-programados e usados como loops e efeitos, algo sensacional que permeia bastante o álbum (water-ter-wat-er-water-water-waaAAater).
Mas bem além do coolness indie dançante, o YACHT sabe o valor da música negra e volta aos sagrados anos 80/90 com "I'm in love with a Ripper": claps como camada de beats, vocais de electrofunk e groove indefectível. Quando a batida cai e Claire aparece em monólogo, explicando que sai "rippin'" por aí, dá aquela vontade de ver a banda ao vivo, ainda mais que em suas bio-declarações eles explicam a importância das cores, da performance ao vivo, que é basicamente audiovisual - "a performance YACHT é expressamente designada para prover catarses e purificação a grupos de pessoas". Nuff' said.
O disco, que só tem nove faixas mas chega aos seus 45 minutos, traz um remix "Party Mix" para a faixa, bem ao estilo de Juan McLean - pena que o vocal é quase totalmente descartado.
Na mesma negritude, "Don't Fight the Darkness" é outra boa construção de vocais com de efeitos, batidinhas, groove e quebradeiras funks, como aqueles momentos em que o of Montreal cai na pista. É como se Neneh Cherry e Prince fizessem um dueto no Brooklyn, circa 1992, produzidos por Malcom McLaren.
LIBERDADE "O YACHT acredita que música e internet se tornarão a mesma coisa com o tempo (...) o YACHT acha que todo mundo deve ter o direito de livre pensamento, de livre expressão". Dentro desses conceitos, a liberdade parece ser uma premissa do grupo, e o conceito adquire contornos físicos nas ondas sonoras de See Mystery Lights, principalmente com a libertadora e crescente "The Afterlife", definitivamente a melhor faixa do pacote.
São 5 notas de baixo batendo o pé junto com o chimbau abafado e Claire cantando mandona, num tom exótico que lembra Gina X e Yoko Ono com coro ao fundo cantando "ôôô the afterlife". Tudo em cinco minutos cravados, com o vocal protagonizando, mas sumindo por vezes para dar lugar a efeitinhos pululantes e de clima nipônico, mantidos pela base baixo-beat. Tudo de repente explode, acumulado, no refrão e nos corais lá no final. Perfeito e tão amplo que dá taquicardia e vontade de sair cantando pela rua.
See Mystery Lights é o ponto alto do projeto idealizado primeiro por Jona Brechtolt somente, que agora, com Clair, adquire contornos conceituais, polidez sonora e identidade visual - fora o bom suporte e divulgação internacional do excelente DFA, sem dúvida um dos selos dessa digníssima década. O YACHT resume ainda boas noções da música dançante americana: o electrofunk grooveado em pegada indie experimental e a disco punk fashionista e tensa da Costa Leste, tudo numa perfeita fusão 00s.