Reciclando antigas faixas num novo pacote, produtor escreve epitáfio do formato álbum
Em julho de 2008, conhecemos
"Dance Wiv Me". Pérola do pop dos anos 2000, a música contava com as rimas do rapper britânico Dizzee Rascal sobre uma base bem sacada do escocês
Calvin Harris. Deliciosa de dançar e munida de um refrão pegajoso, virou sucesso instantâneo. Mas a pergunta é: por que alguém empacotaria, um ano depois, a mesma música num disco de (supostas) inéditas?
Em
Ready for the Weekend, seu segundo trabalho de estúdio e sucessor do ótimo
I Created Disco (2007), Harris escreve - talvez não propositalmente - o epitáfio do formato álbum neste fim de década. Talvez a mensagem também sirva para a imprensa musical: por que escrever sobre uma faixa lançada há um ano (que já tocou à exaustão em nossas rádios) em uma seção que não seja a de tesouros? Iniciativas como a do grupo inglês
Radiohead (que só lançará faixas soltas daqui em diante) resumem o espírito de nosso tempo.
Mas isso não significa que as músicas do álbum sejam ruins. Pelo contrário - em sua maioria, elas são deliciosas. O produtor de Dumfries assina um synth-pop refrescante, livre de cacoetes do gênero (como o de soar necessariamente retrô). Os timbres são vintage, mas ao ouvir músicas como "I'm Not Alone", temos certeza de que este é o som dos anos 2000, ainda que as notas de teclado lembrem a eletrônica produzida na década passada. No fundo, está tudo lá: trance, house, electro...

Não é à toa que o escocês seja cortejado por algumas das principais figuras do pop. Seja no underground ou no mainstream, os timbres e ideias que aparecem em
Ready for the Weekend são invejáveis por qualquer um que deseje fazer música acessível sem cair na repetição de sonoridades enfadonhas. A maneira quase descompromissada com que os vocais e instrumentos aparecem em faixas como "Blue" mostra que é possível compor canções radiofônicas (e eletrônicas) de maneira menos pretensiosa, sem afetações ou viagens de ego.
CARTESIANOÉ isso que faz com que as partes sejam melhores que o conjunto. Em sua individualidade, faixas como "5iliconeator" - com notas etéreas de teclado e estrutura pouco definida - e "The Rain" - pós-electrohouse livre do mau gosto que tomou conta do gênero nos últimos dois anos - esbanjam frescor e sinalizam para o talento de Calvin Harris. Sem falar em
"Ready for the Weekend", outra conhecida do público.
Mas parece que o produtor tem amigos (que são amigos do pessoal da
Web Sheriff) que insistem no álbum como tábua da salvação. Mesmo sabendo que isso tem data para acabar de vez, a ideia de incluir "Dance Wiv Me" num pacote com (faixas não muito) inéditas soa mais anacrônica que as músicas de Harris. E, neste caso, talvez seja preciso mais que um sintetizador humano para convencer alguém a comprar este CD numa loja de discos.
u used to hold me...
u used to hold me me me me me yeah!
quando damos uma volta no carro de alguém, geralmente as músicas são trocadas antes mesmo de terminarem. por melhores q sejam.
sign of the times. bom?! talvez não mas é o mundo hj. a arte nunca foi tão banal e nunca se produziu tanto. um paradoxo.