Na Inglaterra, exposição "Banksy vs Bristol Museum" mostra a evolução do famoso (e misterioso) artista de street art de protesto
Ao se deparar com o desafio da sua primeira exposição individual, Banksy simplesmente poderia ter escolhido o caminho mais fácil - seriam necessárias apenas uma dúzia de paredes grafitadas para conquistar publico e crítica. Todo mundo ficaria satisfeito, afinal somente ele consegue ser uma
persona sem rosto, sem identidade e, deste modo, o mais respeitado artista underground do mundo. Afinal, todo mundo ia gostar.
A amostra
Banksy vs Bristol Museum, inaugurada mês passado na cidade de Bristol, Inglaterra (
infos), mostra que ele optou pelo caminho mais louvável: o de um artista que deseja evoluir. Esta evolução não diz respeito apenas a um grafiteiro que se escondia para não ser capturado pela polícia e que, agora, ocupa dois andares de um dos mais respeitados museus do Reino Unido. Banksy convida as pessoas a repensar os seus conceitos sobre arte através do estêncil. E como ele faz isso? Confrontando o caos, a transgressão e poluição visual das grandes cidades com o formalismo e a sobriedade dos museus.
Uma das coisas que mais irrita Banksy é a sociedade de consumo. Assim como muito artistas, ele utiliza o incômodo como fonte de inspiração, então no meio da década de noventa começaram a surgir nos muros de Bristol e Londres desenhos que quebravam a hipnose de preocupações tão comum em moradores das cidades grandes: Mickey Mouse e Ronald Mcdonald andavam de mão dadas com a famosa menina queimada por
napalm; colegiais louvavam bolsas de supermercado, e por aí vai.
Os hábitos capitalistas sempre foram vítimas das suas grafitadas, e além disso havia a temática non sense, de policias dançando ciranda, uma turma de crianças alegremente abraçada a mísseis, ratos vestindo a camiseta "I Love NYC" - um destes muros foi
leiloado no E-Bay por mais de 400 mil libras.
Aos poucos seu trabalho começou a ser notado não apenas pela policia inglesa, mas pelo mainstream em 2003, com o convite do Blur para ilustrar a capa e o encarte do álbum
Think That. Dizem que a parte gráfica do álbum teve mais êxito do que a música em si. No entanto, o grande golpe de mestre foi em 2005, quando Banksy viajou por conta própria ate à Cisjordânia, e realizou uma série de desenhos no recém erguido Muro da Segregação (que divide fisicamente a Palestina de Israel). O desenho mais impressionante é o de uma menina ganhando vôo graças a balões de gás, maneira sutil e poética que Banksy encontrou para tratar de um assunto tão delicado e que ganhou as páginas de jornais do mundo inteiro. Na foto abaixo.
REINTERPRETAÇÃO OU SUBVERSÃO?Agora estamos em 2009, e a sutileza foi totalmente deixada de lado ao adentrar-se no hall do Bristol Museum. Lá o visitante depara com um policial da tropa de choque cavalgando em um pônei de brinquedo, atrás dele um enorme um enorme caminhão de sorvete pichado. As instalações - algo recente na sua carreira - são uma constante à medida que avança-se pelas salas, desorganizadas e provocativas, onde aparecem animais aprisionados que sonham com a liberdade - sobrou até para o simpático Piu Piu, que aparece triste e enrugado dentro da sua jaula. "Reinterpretações" seria uma expressão muito polida para se referir o que Banksy fez com algumas das mais famosas expressões das artes visuais: David, de Michelangelo, com explosivos presos ao corpo; a deusa da justiça sem a sua tradicional venda, usando agora óculos assinado e no lugar da balança bolsas de compras; quadros pixados ou alterados pela publicidade - algo realmente forte e chamativo, que à primeira impressão pode ser interpretado com uma maneira agressiva e gratuita de chamar a atenção.
O que não pode ser esquecido é que esta exposição propõem às pessoas repensarem a arte e, principalmente o local ande ela acontece: os museus. Pois trata-se de um espaço que em outros tempos tinha o objetivo de analisar a sociedade através de obras, e que agora muitas vezes não passa de um local de transações comercias, divididas em dois níveis: o primeiro é um circulo social fechado formado por curadores, críticos, colecionadores e artistas que realizam ali os suas transações. O segundo nível (ou sub-nível) é formado pelo grande público, que paga o valor da entrada para ver obras famosas de artistas famosos, para depois, na loja de souvenirs, ter a ótima oportunidade de adquirir o cinzeiro do Pablo Picasso, o porta lápis do Van Gogh, entre outros mimos.
MITO. PRESERVAÇÃOEm momento algum Banksy foge do seu tempo, artista urbano que usa a internet para promover seu trabalho, sendo o
Twitter um dos seus canais favoritos. Mas é impossível não relacionar Banksy com outro artista que reformulou os conceitos da sua época - Andy Warol -, mesmo que um gostasse muito de aparecer e o outro simplesmente não aparece; mesmo que ambos tenham surgido de escolas diferentes e usassem técnicas diferentes, eles se assemelham pelo simples fato que pouco usaram uma linguagem tão acessível às pessoas de sua geração, tendo o cotidiano como obraprima e as figuras do mundo capitalista como objeto de estudo - claro que aqui, Banksy representa o lado negro da força.
A grande pergunta é por que alguém que consegue realizar algo diferente em um mundo onde praticamente já criado de tudo, prefere permancer no anonimato - apesar dos
inúmeros boatos que surgem na web?. O óbvio seria dizer que ele quer reforçar o mito entorno de sua não-imagem, mas talvez ele prefira ficar na espreita, pois sem um rosto como alvo, fica difícil elaborar criticas dirigidas. Deve ser muito desagradável e de certo modo é pouco relevante ouvir que a cada ano sua obra fica cada vez mais efêmera, ou que durante a sua última vernissage o lambrusco foi servido na temperatura errada.
SERVIÇOBanksy Versus Bristol Museum13/jun - 31/ago
EXPOSIÇÃO GRATUITA
Bristol's City Museum and Art GalleryQueen's Road - Bristol (BS8 1RL)Inglaterra
Diariamente, das 10h às 17h
Legal também o post da Carol , adicionando infos. Queria ter visto essa expo ein , haha. Bem que o Banzky podia fazer uma paródia com o rato mais famoso do Beatport , Deadmau5 , pff.
A sua arte é uma representação incrível e crítica dos dias atuais!!
Parabéns pela matéria.