Atualmente tudo é corrido: os avanços tecnológicos, o crescimento das cidades, as descobertas farmacêuticas, as novidades midiáticas, o tráfego de informações, a inclusão digital. O advento da internet acelerou todos os processos possíveis de divulgação e interação. O clichê do tudo ao mesmo tempo agora.
É claro que aqueles que acompanham essas transformações enquanto crescem tenham muito mais facilidade em assimilar essas mudanças, com seus prós e contras. E no universo da música não é diferente. Intuitivamente ligada a esses avanços a cena eletrônica, em especial, se ampliou com a ajuda da rede.
É dentro desse panorama que alguns jovens produtores se consolidam como relevantes, do ano 2000 para cá. Nomes como John Dahlbäck e o nosso protagonista
Dusty Kid são alguns dos representantes dessa geração geek, digamos. Crianças intimamente ligadas a computadores e acostumadas a suas excentricidades, à vontade com o universo virtual e atentas a suas possibilidades.
Paulo Alberto Lodde - ou metade do
Duoteque, ou Dusty Kid - é um menino prodígio do techno. Já deu muito o que falar para além da ilha de Cagliari, Sardenha, onde mora. Aos 10 anos era uma promessa do piano clássico, aos 17 teve seu primeiro flerte com a música eletrônica e aos 19 - após ter chamado a atenção dos produtores Marascia e Kortezman - lançou seu primeiro single "I Found a Reason". Aos 20 anos seu primeiro EP pelo
Motivo Productions e hoje, apenas 4 anos depois, é considerado um dos mais relevantes produtres do gênero. É nesse cenário que se desenhou o lançamento de
A Raver's Diary, em abril passado, e que tocou no Brasil, em junho.
A Raver's Diary é o debut de Dusty Kid, seu primeiro álbum completo, porém com as fixas mixadas - é possível encontrá-lo em outros formatos, sem adições ou subtrações de faixas - como ele mesmo disse,
em recente entrevista, "o álbum foi concebido como um acontecimento, eu estava procurando descrever a minha visão de uma rave trip, desde quando encontramos os amigos e começamos a jornada para a rave até o final, quando estamos voltando para casa." Sua pouca idade talvez seja o único revés. Não que impossibilite a construção do álbum, mas parece atrapalhar um pouco a sua visão. Na tentativa de agradar a todos que possam ouvir seu trabalho, Dusty Kid se atrapalha com a enormidade de referências que deseja mostrar. Embora seja um álbum muito bem produzido, mais pro final
A Raver's Diary desanda um pouco. Ainda assim, impressiona neste sua construção precisa, a forma como ele consegue trazer o passado de volta e olhar em frente. O álbum foi amarrado de maneira que parece se dividir em duas partes: uma bem techno, 4x4, batidão, psicodélico e detroitiano; a outra parte mais singela, mais esvoaçante, melódica, bem atual.
É nesse contexto é que começa o álbum, com a levada rápida e cheia de traquejos de "Here Comes The Techno". Sinais que lembram um sonar, linha de baixo pesada e marcante, break teimoso. A faixa é tão
late 90s que nomes como o Juan Atkins vêm a cabeça. E Detroit se mantém embalado pelo "menino empoeirado" na faixa seguinte, a ácida, "The Underground Persistance". É como se Octave One ou Kevin Saunderson tivessem encostado em Dusty, enchendo-o de psicodelia eletrônica.
Já na segunda metade as faixas que saltam aos olhos são as mais melódicas: "Cowboys" ou "Moto Perpetuo", joviais, polidas e claras. Mas ainda assim seria um erro deixar-se levar apenas pela melodia destas e se esquecere de outras belas faixas. Esse ar melódico este permeia 90% de suas produções - parece difícil deixar para trás anos de estudos clássicos, não? Eis que surgem, "Pluk" e "Agaphes," respectivamente.
"Pluk" é techno, é pista, são compassos rápidos decisivos, melodias repetidas, reverses marcantes. Sim, é minimalista, mas é redonda, fresca. Já "Agaphes" - usando o jargão clássico - é um estudo em dois movimentos. O primeiro movimento de "Agaphes," surge com uma melodia como as de igrejas nova-iorquinas no início do século XX ,que se estende até a entrada de uma bateria eletrônica super
kraut encimada por cordas sintetizadas. Bem 8-bit, gostoso, singelo. Mas, a surpresa se encontra no break súbito aos 2'46" para que tenha início uma techneira pesada, rasgada, bem Detroit, bem Jeff Mills, bem Samuel L. Sessions, mas que não chega a dois minutos.
"Nemur", que fecha o álbum é talvez o maior pecado de
A Raver's Diary. Seu curso extremo pop deixa qualquer David Ghetta feliz da vida. É uma ode ao que há de cafona no radiofônico e poperô. Dusty Kid toca violão, canta e, creio, assovia a melodia final que, ainda qie muito bem executada, é para lá de dispensável. Quando indagado no Beatportal sobre a dita faixa, Dusty Kid respondeu: "'Nemur' foi concebida para o fim da jornada, de um ponto de vista romântico. Talvez você encontre uma garota ou um cara interessante na rave e resolvem curtir juntos, mas quem sabe se você vai encontrá-la(o) novamente?"
E como dizem por aí: não se mede um artista por um único álbum. Vale a observação para suas próximas produções.
E quem usa o Firefox e quizer baixar essas musicas é só usar o Dowload Helper (plugin pra firefox): https://addons.mozilla.org/pt-BR/firefox/addon/3006
''Nemur' é ruim e fede neste disco tão bacana. Talvez o cara -de fato- tenha encontrado alguém interessante e especial para curtir junto essa Trip cujo final não foi tão feliz. Particularmente acho que o disco 'acontece' a partir de 'Cowboys', numa versão(zinha) com o final pouco diferente da lançada em EP; Jovial, polida, clara e GENIAL! Lembra The Doors... Flerta com música clássica (noves fora bom gosto).
Acho o Dalbäck um puta-produtor; Irado. E vc, Cat... Sempre arrasa nas resenhas!
Beijo Grande!