Sexualidade auditiva no groove safado do ótimo segundo disco da dupla novaiorquina
Antes de tudo, aperte o play aí.
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In Flagranti - She bend each leg alternativel, She Bend Each Leg Alternately (mp3)
Bem-vindo a uma viagem erótica ao passado, mais precisamente à Manhattan dos anos 70: atrevida e vulgar, exatamente como a dupla novaiorquina propõe em bom inglês pelo seu mais novo álbum,
Brash & Vulgar. Uma mistura pubiana de house music de groove banger, disco music tarantinesca, e uma pegada disco-punk/electrohouse que leva as doze faixas deste excelente disco para uma introspecção espacial e neo-tranceira.
Brash & Vulgar reúne tão diferentes elementos sob a mesma batuta safada e dançante, comum ao som desta dupla autora de vários hits dos discólogos e freakchics ("
Business Acumen" foi a mais recente). "She Bends..." abre o disco num house bate-cabelo e loopeadíssimo, um neo-Armand Van Helden: latino, acinturado e de synth electrohouse ditando o ritmo. Das últimas três semanas em que ouvi o disco, já presenciei essa música em duas boas festas diferentes, #hitalert mode ON.
É o bumbo extasiante perfeito para o erotismo latente de Alex Gloor e Sasha Crnobrnja (Sasha já tocou no Rio e em SP), que a frente do selo Codek chamaram atenção não só pela sua música chacoalhante, mas também pelo visual
soft porn setentista e malandro, fashionista e tipográfico. A faixa-título "Brash & Vulgar" é uma versão berlinense de
Gino Soccio, com os layers tocando em inversão contínua de blips, atmosferas e rasgações sonoras - repare lá pelo minuto e meio na panelada que o beat leva, pra cair num break com vocal e synth reinante.
The people went mad! / when they hear that..Flash Content
In Flagranti - Brash & Vulgar (mp3)
Sasha Crnobrnja e Alex Gloor

Há todo um cenário lúdico no atrevimento do In Flagranti. Não apenas sexual, mas também filósofo (de botequim, claro). Repare nos longuíssimos e misteriosos nomes das faixas. É som ilustrado, que usa a música não como objetivo artístico final, mas como meio dançante e hipnótico de temas e imagens propostas. A falsa moralidade - talvez daqueles que condenem sexualidades latentes - é desmistificada em saxofones sampleados sobre bases bem secas de house, o fôlego não para.
As mulheres tem presença marcante no disco, tanto em seu lado punk como na sugestão sexual. "I Can Thrill & Delight" é masturbatória, com vozes sexuais oferecendo "
if you want it / you can have it / get it on" numa marcha sexual tensa e infantilóide - a punheta e sua tradição de ser expressa puerilmente, "voa pombinha, voa...".
Brash & Vulgar segue cópula sonora adentro numa canastrice dance punk (mais new wave do que Liquid Liquid, na real), com um par de guitarras dançantes que Alex e Sasha parecem ter feito pra pegar as roqueirinhas da pista. "Svelte Blonde" sampleia "
Rock & Roll" (Gary Glitter) e dá o clima sexual que a pegada épico já dava na original; "Black & Grey Stripped Trousers" é uma batucada em homenagem a
Mr. Oizo, com direito a latidinhos da vocalista; "Pick a Trick" é uma nova concepção de Le Tigre, com a sensualidade que os Glimmers sonham ter, fora o refrão fácil na levada rockabilly dance.
stuff

O quadrante final de
Brash & Vulgar é uma ressaca moral, melancólica e chapada. "It was Like Nothing Before or Since" é italo disco impressa em formulário contínuo, com um vocal de The Knife bêbado, sensação futurística a la Kraftwerk. "I Hadn't Screwd Around Before" é um neo-trance esquisofrênico e agonizante, que eu não sei se é irônico ou sério, com seus pistões industriais e synth falante - essa faixa estará na primeira
compilação do Hercules & Love Affair, logo na sequência da faixa inédita do grupo.
Claro que para pensar (neo)trance é conceber uma viagem 4x4 quase heterogênea e de referências PLUR, talvez. Mas aqui a tranceirice é injetada na abstração aérea da disco music, perfeita para a introspecção. "Ooh, I have to Loose Weight Luv" só é requebrada por um bongozinho implantado como chimbau e "How Did the Affair End" joga a malemolência para uma amplitude sonora fetal, a batida lenta e envolvente no ritmo do pulso.
Seja sexual, brincalhão ou melancólico, In Flagranti fizeram à boca miúda um álbum excelente, exprimindo bem sua identidade - tanto sonora quanto visual, e mostraram o apuro na produção de seus sons já esperados e fizeram jus à idéia de álbum autoral com novas escapadas musicais. Vulgares e atrevidos, ainda bem.