Ouvir o quinto disco do
Mars Volta requer uma compreensão maior do termo
"rock progressivo". Isso porque o "acústico"
Octahedron, lançado em 23 de junho último, é carregado de uma atmosfera que só a banda poderia imaginar ao desplugar a guitarra de
Omar Rodríguez-López. Para criar o climinha do disco vale tudo: de sintetizadores à violões, de vocais calmos a outros rasgantes.
Mas, como ia dizendo, ouvir o novo álbum requer uma compreensão ampla do gênero eternizado por
Pink Floyd e
King Crimson. Alí, o que está em jogo não são só músicas intermináveis que passeiam pelo mesmo tema, mas o forte experimentalismo que marca todo o trabalho da banda desde o primeiro disco,
De-Loused in the Comatorium, de 2003.
Apesar de ser classificado como um álbum de rock progressivo, passa também pelo punk, metal e aquele velho conhecido
hard rock teatral. Sério. E assim a banda conseguiu criar oito faixas (
"octaedro", sacou?) perfeitamente harmônicas. De tão homogêneo, parece que o álbum foi gravado de uma vez só (foi em um mês, que não deixa de ser pouco tempo).
Uma música termina, a outra começa e não dá nem pra perceber, porque a variação de compassos é sutil. As músicas não ultrapassam a marca dos oito minutos, o que acaba tornando o álbum o mais acessível da banda, mas também o mais lento. Até "Luciforms", que é a mais longa - com 8:22 -, tem um tema coerente e uma estrutura linear. Não que isso seja ruim, não me leve a mal.
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The Mars Volta - Luciforms (mp3)
O disco começa com um quase-silêncio - quebrado pelo som de sintetizadores bem fraquinhos - de quase um minuto e meio da faixa "Since We've Been Wrong". Apesar disso, sua versão editada para o rádio - sem o silêncio - talvez seja a única mais comercial do álbum inteiro.
Da primeira faixa, "Since...", para "Teflon", que é a segunda, um novo silêncio prepara o ouvinte para receber um solo de bateria acompanhado de sintetizadores. A voz de
Bixler-Zavala entra cortando e chega em um refrão grudento, ao contrário do título da música (para quem não sabe,
Teflon é a marca registrada daquela substância antiaderente de panelas): "Let the wheels burn/ let the wheels burn/ Stack the tires to the neck/ with a body inside".
Se você achou estranho uma música falar sobre uma coisa de panelas, calma que tem mais. "Teflon", em inglês, é uma pessoa a quem a crítica não atinge. Mas o octaedro do Mars Volta serve pra isso: interpretações mil. E de temática bizarra a banda entende. Olha só "Halo of Nembutals".
Nembutal é o nome de um barbitúrico usado em suicídios, mas principalmente nas injeções letais dadas aos condenados à pena de morte na China. Ou seja, pode ser que a canção seja um ode ao suicídio, ou não. Xiii, lá vêm eles de novo...
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The Mars Volta - Halo Of Nembutals (mp3)
Pode parecer que o disco é sem sal, mas nem chega perto disso. O próprio vocalista Cedric Bixler-Zavala declarou: "Esse não é um álbum acústico! Tem eletricidade correndo por ele! Mas é a nossa versão. É isso que nossa banda faz - celebra mutações. É a nossa versão do que nós entendemos como álbum acústico". Claro, o formato abre muito mais espaço para o (ótimo) guitarrista
John Frusciante. Ponto pra eles.
A faixa mais empolgante do disco é "Cotopaxi", o primeiro single a ser lançado na Europa, que é o nome de um
vulcão que fica na Cordilheira dos Andes, no Equador. O nome significa "massa de fogo", em
Quechua, o idioma daquela região. E a música é fogo mesmo. Quando estreou no programa do
Zane Lowe na Radio 1 da BBC, foi apresentada como "the hottest song in the world". Ui!
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The Mars Volta - Cotopaxi (mp3)
Já "Copernicus", a sétima música do álbum, faz referência a
Nicolau Copérnico, o astrônomo que tirou a Terra do centro do universo. Sim, pode viajar que aí a banda está fazendo uma crítica ao egoísmo e egocentrismo. Afinal, tudo tem um outro lado. No caso do Mars Volta, tem oito.