A reinvenção mais celebrada do Reino Unido é feita com clima suave e percussão africana
Náo é de hoje que o mercado musical não é sobre música boa. Um exemplo é a ótima estreia do músico inglês
Jack Peñate, há dois anos. Mistura de rock, ska e rockabilly com inteligentes guitarras tiradas do mais típico indie britânico, o cantor/guitarrista chamou alguma atenção, mas naufragou num mercado disposto a assimilar qualquer coisa que fosse colorida e misturasse sintetizadores a sua música.
Depois de dois anos de silêncio, Jack se juntou ao famoso produtor inglês
Paul Epworth - sob a supervisão do DJ superstar
Norman Cook (o Fatboy Slim) - e planejou a sua reinvenção durante um ano, no famoso estúdio Kensal Rise. Saem as guitarras, o rock rápido e angular característico do músico; se intensificam as melodias e o lado dramático; e muitos elementos novos são adicionados, sendo o mais marcante uma notável influência baleárica.
Intitulado oportunamente de
Everything Is New, o segundo álbum de Jack Peñate lançado oficialmente hoje (22/jun) já alcançou notas muito superiores nas resenhas do que o primeiro - ganhando inclusive um
texto do Guardian nomeando 2009 como o ano da reinvenção dos artistas, citando também como exemplo as bandas
The Maccabees e
The Horrors - mas será que essa reinvenção ainda contém traços originais do músico?
Jack Peñate

Os segundos iniciais de "Pull My Heart Away" flertam com um pós-punk sombrio, que é rapidamente substituído por um clima baleárico de gostosas guitarras ensolaradas e vocal dolorido. Apesar de a faixa funcionar como uma excelente introdução ao novo som do inglês, "Be The One", o segundo single do álbum,
é a introdução perfeita ao novo Jack. Começando com trumpetes, partindo para vocais a la Prince (maior influência de Jack) em um instrumental com cara ares de soul, finalizado com um sutil sintetizador - isso tudo com uma das letras mais potentes de Jack ("We asked the church to save our souls / They said we were too early and to join the fold").
"Everything Is New" aparece como um colorido desfile de ritmos caribenhos. Percussão rica e dançante, barulhos cristalinos e um clima de carnaval esfumaçado escondido ao fundo. O forte refrão garante a música um destaque tão grande quanto "Tonight's Today", a próxima faixa e primeiro single do álbum. O espírito festivo da faixa anterior diminui, apesar de manter o coral de vozes da rua e as palmas, porém a guitarra africana mantém o clima iluminado.
E se até agora tudo se mostrou novidade, "So Near" é o meio do caminho entre
Everything Is New e a estreia
Matinee. Jack resgata suas melodias iniciais e as coloca para dançar com a nova instrumentação, e funciona, assim como a primeira faixa lenta, "Every Glance" - para impressionar fãs de Coldplay, e satisfazer os de Smiths.
"Give Yourself Away" resgata o carnaval de "Everything Is New", se diferindo apenas pelo vocal mais dolorido, umas pitadas latinas e um quente solo de guitarra. Curiosamente, a penúltima faixa de
Everything Is New,"Let's All Die", fala sobre morte, assim com a penúltima faixa de
Matinee, porém numa visão muito mais animada, tendo seu refrão focado na frase "Vamos todos morrer" (Let's all die).
E para encerrar um dos melhores álbuns do ano, a esfumaçada "Body Down". Épica dentro de seus limites e repleta de vozes fantasmas, a faixa se foca nos instrumentos básicos do rock, porém sob camadas hiper produzidas. E com o jogo ganho, Jack canta o refrão fazendo valer sua influência soul. A letra repete "Eu passei um tempo maravilhoso aqui" ("Had a wonderful time here"), tornando impossível não concordar com o inglês.
Jack, que junto a Adele, Sam Sparro e Noisettes, estreou como parte da cena conhecida como "London Soul", conseguiu fazer sua revolução própria e mesmo soando diferente do seu início, manteve sua personalidade romântica intacta de modo que sua reinvenção não aparenta somente necessária para sua carreira em curto período, mas mostra que devemos esperar uma ótima carreira futura para o músico.