A diferença entre o rock apoteótico do The Killers (EUA) e do Phoenix (França) está no estilo. Por mais que nutramos uma simpatia pelos temas de amor-de-fim-de-mundo do Brandon Flowers, é com a banda de Thomas Mars que encontramos a perfeita sinergia entre
coolness, pegada rocker, aura indie, pretensão/certa arrogância e boas músicas.
live

No fim de maio o quarteto francês Phoenix lançou seu quarto álbum,
Wolfgang Amadeus Phoenix, em que se vale de temas eruditos para cantar sua grandiosidade. Não em temas metalinguísticos, mas quase sempre nas lamúrias de um amor intenso e puerilmente maduro. Se a banda destacou-se por uma forte identidade pop lá no começo da década com hits como "Too Young" e "If I Ever Feel Better",
Wolfgang... é mais uma etapa de um processo camaleônico, agora de influência pós-punk - menos adocicadas, só que mais humanas em sua amplitude, uma banda para musicar paixões e ver no palco com seu vocalista se esforçando visível e sonoramente para se tornar um mito.
Os dois primeiros singles resumem bem essas características. "1901" vazou na web antes do álbum e mostrou o jogo de riffs mais bacanas do ano junto do indefectível vocal de bêbado apaixonado de Mars (os franceses sempre serão mais afetados). Animada por um "hey-hey-hey-hey-HEY", é prova da facilidade pop que o Phoenix usa ao repetir palavras e versos (
falling-falling-falling-falling / six six six six six / Too late too late too late she'll be late too late too late - são linhas de destaques nesta e em outras músicas, tão pegajosas quanto os próprios refrões). Veja o clipe.
Phoenix - 1901Já "Lisztomania" é o single oficial e melhor faixa do disco, sem dúvida. Tem levada de Strokes, e mostra a inspiração da banda na história de
Franz Liszt, compositor clássico húngaro do século 19 que foi um dos primeiros popstars da história, com o público feminino berrando histérico em suas apresentações (
Lisztomania é também um musical dos anos 70 encampado pela galera do rock progressivo, tão pretensiosos quanto Thomas Mars). Por sua "maturidade" e pelo próprio título do disco, o Phoenix não se refere diretamente a esse histerismo, apenas fala de um amor tímido que encontra vazão no escapismo e na idolatria do rock.
A banda gravou o vídeo oficial num antigo teatro, carregando suas bombas de Wolfgang Amadeus Phoenix de alcance rocker internacional e cativante, quase cafona. Assista.
Phoenix - LisztomaniaO disco foi produzido e mixado por
Philippe Zdar, DJ, membro do Cassius e grande produtor francês. Na bela "Fences", é curioso perceber as notas de synth tão comuns a Phoenix e Cut Copy, banda que Zdar produziu em
seu primeiro disco. Ainda nesta canção, é engraçado reparar na afetação de Mars em subir o gogó numa nota aguda, como quando brincamos de cantores e afinamos a voz.
Em
Wolfgang Amadeus Phoenix não há aquela cadência praiana e o clima de propaganda de pasta de dente que conquistou o mundo inteiro com os primeiros hits da banda. Mas dá para cair de amores pelo romance introspectivo das baladinhas do álbum. Em "Rome", a bateria consistente - no pulso do coração, e o vocal nostálgico em contraponto à guitarra chorando "
many tears have fallen / here I'll be driving you look the other way", entregam o melhor do estilo melindroso do Interpol.
A mesma atmosfera de amor perdido está em "Countdown (For the Big Sun)", com suas quebras de ritmo em que o vocal repetitivo de Mars se destaca, e a onda de riffs emanados por duas guitarras numa hipnose grandiosa, fazendo jus à boa performance de palco da banda - quem os viu no Nokia Trends 2007, em São Paulo, sabe do que falo.
Wolfgang, Amadeus, Phoenix, Liszt, Mars, Flowers...

Destaque também para a dobradinha "Love Like a Sunset" I e II, instrumentais e quase inorgânicas como um techno rock criado para acalentar a entrada da banda no palco. A alma é electro, com synths recortando a subida do grave, que galopa por cima da mão pesada da bateria. Até que o sol vai se pondo na canção e surge uma viola acalentadora, e Mars entra em cena...
Wolfgang Amadeus Phoenix mostra mais uma nova faceta do Phoenix, reforçando seu carisma, sua proximidade humana e suas possibilidades artísticas e versáteis: tanto no cinema (Mars é marido de Sofia Coppola; a banda já musicou filmes como
Maria Antonieta e
Encontros e Desencontros), quanto na trilha de desfiles de moda bacanudos. E de volta à comparação, se o Killers insiste em lutar pela enfadonha vaga de "novo U2", o Phoenix dá um bom tempero europeu ao pop rock atual sem cair na breguice - o que é um feito, tendo em vista a inspiração erudita.