Alex Willner encanta em novo disco: techno orgânico, com influências de krautrock e trance
Em 2007 eu não dei tanta bola para a histeria em torno de
From Here We Go Sublime, o disco de estréia do sueco Alex Willner, o The Field. Claro que a delicadeza de "
Over the Ice" me tocou, assim como o lynchiniano sample da romântica "
I Only Have Eyes for You" (The Flamingos) na
faixa-título. Mas eu estava cansado de techno contemplativo, depois de descolar a borrachinha do fone de tanto ouvir James Holden e afins - fora que meus ouvidos estavam arrebatados pela ousadia do Simian Mobile Disco.
Então agora, dois anos depois, ouvi de alma limpa o segundo álbum do produtor,
Yesterday and Today. E que disco, leitores. Daqueles de devorar de uma vez só, como o livro mais bem escrito e a guloseima mais doce. Logo no começo tem a versão de um mela-cueca véio, "
Everybody's Got To Learn Sometimes" (The Korgis). A versão desse one-hit-wonder traz uma descontinuidade logo ao princípio do álbum, ao lado da confusa escalada em backspin da celestial "I Have the Moon, You Have the Internet" (ótimo título). Deste modo o release não tem cara de EP e nem soa como um set amarrado de techno, coisa que tem por aí aos baldes.
Fora que é uma mostra da organicidade que Willner buscou para este trabalho, ao isolar-se numa ilha próxima de Estocolmo com vários amigos instrumentistas: bateristas, guitarras, baixos, backing vocals, vibrafone... Tudo adornando a pedra fundamental eletrônica de seu laptop, e aparado na mixagem de Michael Mayer e Jörg Burger.
2007: The Field abriu para o LCD Soundsystem no Via Funchal, mas pouca gente viu

Na faixa-título "Yesterday and Today", Willner conserta a batucada manca de John Stainer, baterista do Battles (eles se conheceram aqui no Brasil), com um minimal sutilmente bombante e de suingue épico que lembra a grandiosidade de Chemical Brothers e Underworld. Ao contrário do primeiro disco, em que as referências eram mais óbvias (acid, trance), aqui elas são diluídas pelo sueco, que dita como um maestro o ritmo: da alta-velocidade a um espasmo espacial, de uma torrente de notas até vocais colocados num mosaico musical quase visível.
"Leave It" é assim, e pessoalmente a minha predileta. Tem a quentura de ecstasy assim como em "Over the Ice", um certo apelo eurotrance-pop de Röyksopp (ah, esses escandinavos), e termina nota por nota, como uma nebulosa que se desmancha em moléculas e partículas. Isto é ser orgânico.
Flash Content
The Field - Leave It (mp3)
De modo que o disco esgota de vez a idéia um pouco boba de "Kompakt music", tão associada ao The Field. Até mesmo
Take My Breath Away tem como ponto alto os momentos em que Gui Boratto foge da obrigação do techno melódico hiteiro. Isto se dá não só pela fertilidade sonora de
Yesterday and Today, mas também pelo fato de que, hoje, a Kompakt vai bem além do "techno alemão" e tem em seu cast artistas tão distintos como Foals, Rex the Dog e Thomas Fehlman.
CRÔNICAS DE UMA DÉCADA PERDIDAOutra desconstrução - legitimação, na verdade - que gosto no disco é sua cara anos 80. Tanto no soul mela-cueca quanto na estética "lorelei" do krautrock/goth e afins. Afinal de contas esta década sem nome ("anos 00"?
two thousands?) bebe culturamente na remissão quase freudiana aos anos em que crescemos para criar uma identidade musical. "The More That I Do" recria em suspiros de
Cocteau Twins e dançante introspecção shoegazer toda a ponte entre o pós-punk oitentista e o techno versátil de hoje, yesterday and today. Camilo Rocha falou muito bem
por aqui sobre isso.
O encerramento é outra surpresa, com cadência no melhor estilo "
Throw". 16 minutos de "Sequenced", que de fato é metalinguística com seu loop neo-trance de helicóptero, synth a la Junior Boys fase
So This is Goodbye, bateria viva e atuante (o chimbau inconstante pelas mãos, dá para ouvir a baqueta quase - atente ao respiro nos 12 minutos de música), tudo completado pelo grave funkeado que solta o fraseado.
Este que é então um "disco do ano", acolhendo corações clubbers, enriquecendo percepções musicais e enchendo de curiosidade quem grita por aí "o techno voltou!", naquela velha história da volta dos que não foram. Obrigado, Alex Willner.
abs!