DECA-DANCEQuem chega em Detroit se depara com uma paisagem urbana pouco hospitaleira, pelo menos de acordo com os lugares-comuns do que é uma "bela" cidade, arquitetônica ou paisagisticamente falando. Claro que os moradores de qualquer metrópole tupiniquim não estranham muito o abandono e a decadência que dão o tom geral da atmosfera da cidade. A deserção e desertificação foram impedoáveis no decorrer das últimas quatro décadas: edifícios que pontuam cada etapa estilística da arquitetura moderna, do art dèco às gigantescas caixas de vidros miesianas, deixados à sua própria existência desprovida de qualquer presença humana.
Brás, Bexiga, Detroit

O espectro da opulência que um dia fez brotar vida nas planícies de Michigan ainda está ali, vivo e forte. Não há como cruzar Detroit sem possuir um carro. Alguém lembrou de
Mad Max,
Omega Man ou
I Am Legend? Pode ser, mas serve também o Brás ou mesmo qualquer vizinhança portuária de uma grande cidade costeira cujos dias de glória industrial e comercial há muito se foram.
A grana não está mais por aqui, nem os empregos, isso sem mencionar que a classe média branca (no eclodir dos protestos raciais trazidos pelo clima geral de tensão por demandas de igualdade civil que marcaram o fim dos sessenta) fugiu em massa para os subúrbios ou outros ambientes mais aprazíveis no estado. Assim, quando os ventos da mudança atingiram Detroit, havia combustível de sobra na forma da segregação de um enorme contingente de afro-americanos cujas raízes ja haviam se estabelecido e fortalecido no solo da cidade. O resultado foi a mais violenta irrupção de ferozes tumultos e protestos vista no país àquela época.
Mas sempre houve música em Detroit. Essa é uma tradição muito cara à cidade. A identidade de Detroit é sonora: do roncar dos motores às melódicas linhas de baixo de James Jamerson, das constantes buzinas à voz de Diana Ross, do ritmo frenético dos robôs da linha de montagem ao pulsar incansável do techno e do house. E é durante estes três dias de
DEMF que vemos como a musicalidade reina absoluta na atmosfera da cidade. Como se a beleza e a força dos elementos que dão forma a uma paisagem sonora tão única fossem intensificados justamente enquanto complementos à carência daqueles que formam a paisagem urbana.
PANQUECAS À INGLESA
O Cobo Center, o suntuoso centro de convenções encravado no centro da cidade, é ladeado por cassinos, quartéis-generais de corporações automotivas e o rio Michigan, que separa aquela região do Midwest estadounidense do sul canadense - mais propriamente Windsor, terra de Richie Hawtin. Logo em frente à entrada principal escolhida para o evento ergue-se a presença imponente da estátua do Spirit of Detroit, elegante em toda a simbologia que personifica. Pouco mais à frente, o cruzamento do Hart Plaza está apinhado de gente e, de longe, já se ouve o bater constante do ritmo que é o produto típico da cidade. Chegando mais perto, um caminhão da Red Bull com dois DJs tocando drum'n'bass recebe o público, formando uma muralha sonora vibrante que, ao mesmo tempo, esconde e insinua aquilo que nos espera lá dentro.
Quatro palcos, espaço e público para os mais diferentes gêneros e subgêneros da dance music. Ou música eletrônica, como o nome do festival sugere. Ou propriamente "techno", como os habitantes de Detroit insistem em lembrar, orgulhosos de sua música nativa. "Are you going to the techno festival? Yeah!". Tendas de comida, roupas, discos, todos representando o comércio local, forram o corredor de acesso principal.
Na pista da Red Bull ao fundo, com uma vista maravilhosa do
waterfront, Liz Copeland é a primeiríssima a tocar e conduz seu set para uma pista ainda vazia. Os outros palcos são preparados num ritmo frenético, mas sem pânico no ar. Tudo está em seu perfeito lugar. Vários DJs começam a se revezar nos diferentes espaços e a realidade de que provavelmente não será possível ver todos os artistas que gostaria finalmente me atinge. Damian Lazarus, seguido por Adam Beyer e Marco Carola fazem as honras no Beatport Stage, enquanto Steve Bug e François K colocam as coisas em ponto de ebulição na arena principal da Vitamin Water, o principal patrocinador do evento; isso sem mencionar a eclética seleção de DJs convocados para formar o line up do Red Bull Stage e o contingente legendário de DJs de house que ocupam o espaço chamado Made In Detroit. Ali house é a palavra de ordem, com lendas locais como Rick Wade, Mike Huckaby e o DJ dos DJs (o Marquinhos MS da Motor City, por assim dizer): NormTalley, mostrando de maneira inequívoca qual a levada que move Detroit.
Porém, este é um festival internacional e é Carl Cox quem revira o público munido de sua destreza particular, todos que já tiveram a oportunidade de vê-lo tocando sabem que esse é um de seus traços mais característicos. Mantendo os pés bem fincados na musicalidade detroitiana - a mesma cujo
groove típico lhe proveu elementos sobre os quais ele construiu sua carreira e ele sabe bem disso - o tio conseguiu levar a arena inteira à loucura, claramente se divertindo no processo, puxando um coro uníssono de louvor à cidade.
Difícil acreditar que isto é apenas o primeiro dia. Ainda mais quando descubro que o melhor ainda está por vir, porque o DEMF é só o começo: as
afterparties são o que há de mais excitante no período do festival e pipocam por toda a cidade. A festa da
Matrix Records de Sean Deason é a minha escolha para a noite, com um um l
ine up respeitável, que contava com o visionário cabeça do selo, ao lado de Shawn Rudiman e Arhur Oskan (melhor conhecido pelo pessoal de breakbeat e prog como Myers Briggs).
MY HOUSE IS YOUR HOUSE...Se
afterparties já eram demais para acompanhar, no domingo a descoberta é a de que também há
pre-parties. E a pedida sob o quente sol dominical do Midwest é uma festinha beneficente chamada "DJs & Backpacks" que conta com o apoio dos músicos locais. Tendo nomes como Juan Atkins e Carl Craig encabeçando o line up e cujo principal objetivo é arrecadar material escolar para as crianças carentes de Detroit. O ambiente é amigável, de estrita informalidade, como um churrasco de final de semana na casa de amigos como Mark Taylor (do
Model 500), Mad Mike Banks, DJ Dijital, Gerald Mitchell, Mark Flash... o
namedropping poderia continuar para sempre, se não fosse redundante em uma cidade que sempre contou com uma incrível fertilidade de talento musical.Todo mundo ali no Z's, uma espécie de churrascaria/hamburgueria com um grande pátio ao lado, está batendo papo, tanto sobre o passado como sobre o futuro.
Terrence Parker

O assunto principal, dada minha presença ali, é como quem já teve o privilégio de tocar no Brasil quer voltar e quem não teve morre de inveja de quem já veio. Inúmeras narrativas de como o D-Edge é fantástico e o público é inesquecível pontuam o conversê.
Cornelius Harris, o homem de negócios por trás da UR fala a respeito do festival e de como é bom para a cidade, como ela precisa disso, mas também como o impacto poderia ser mais duradouro, a fim de fazer uma diferença efetiva naquele melancólico cenário urbano. Ouço atento até o momento em que toda minha atenção é sugada por um set absurdamente bem tocado e coeso, com muito house, disco e soul, entrecortado por firulas elegantes e um
turntablism muito bem dosado. Noto que acabo de descobrir que o melhor DJ de house da face da terra é
Terrence Parker. Algo de que já suspeitava, mas não há como ter tanta certeza quanto no momento em que se é levado irresistivelmente por um groove impecável e insistente como aquele que TP entregou ali.
O segundo dia de festival promete mais house ainda e este convescote era somente o prenúncio do que viria a seguir. Quando chego ao Hart Plaza, Osunlade já castiga a pista com uma batucada intensa, inaugurando o clima percussivo que será predominante nesta noite no Vitamin Water stage. Quem prossegue com as festividades macumbeiras é o Innervisions, projeto dos alemães do Âme, tomando conta do palco com uma forte presença que consegue empolgar o já animado público desta ensolarada tarde de domingo. Dennis Ferrer é o próximo, escoltado pelos Martinez Bros. que não tocam e sim ajudam-no a fazer uma festinha particular na cabine, tudo movido ao som sofisticado do típico house dessa turma do Brooklyn. Durante este ínterim, me esforço para tentar conferir as outras pistas e verifico que Tiefschwarz carrega a pista da Beatport com facilidade, seguido de Wighnomy Brothers e Guy Gerber, mantendo um pulsar bem dançante, estes últimos soltando
loops do discurso inaugural do presidente Obama, que previsivelmente elevam a galera num frenesi contagiante.
No palco da Red Bull, Deeon, Starski, Omega e Godfather fazem um set massacrante e eclético a oito mãos, às vezes com informação demais para ser absorvida de uma vez só - mas infeccioso do mesmo modo. Quem assume o palco em seguida é Neil Landstrumm com um live poderoso, que deixa muito pouco a ser feito mesmo para o excelente RJD2. Contudo, é no palco "da casa", mantido pela Made In Detroit, que as coisas atingem um calor incomporável. O veterano local do electro Will Web cozinha bem a pista e entrega tudo redondinho para Jay Denham assumir numa levada mais pesada, ainda que recheada de groove, chegando ao apoteótico momento em que o Octave One inicia sua apresentação e a pista simplesmente entra em erupção na galeria subterrânea do complexo. Aqui, o contrastre de abordagens fica nítido quando percebo que, ao som do lendário trio, vemos imagens projetadas ao fundo com a efígie já icônica do presidente norte-americano intercalada com imagens da guerra no Oriente Médio. E aqui me ocorre novamente que este
cutting edge, musical e conceitual, é o que distingue a música de Detroit de qualquer de seus discípulos: ela é crítica, do começo ao fim.
Como se não bastasse uma tal sequência exaustiva de sets inesquecíveis, a lenda Mark Kinchen também se apresenta no modo live e, mesmo que não de uma maneira tão densa e empolgante como seus predecessores, levanta os ânimos pela nostalgia e qualidade de suas faixas clássicas. Nada mal para quem já fora dado até como morto por seu longo sumiço logo após o auge de sua carreira. E, novamente como se tudo isto não fosse suficiente, Anthony Rother sobe aos controles de sua nave espacial e faz aquilo que só ele faz tão bem:
vocoders,
synths e uma pegada que consegue manter em movimento todo mundo que se espreme ali embaixo. Migrando de volta ao palco principal, os eternos queridinhos Loco Dice e Luciano consolidam a noite numa parceria incansável, materializada em um
groove constante e potente, tanto que até o Ferrer e os Martinez ficaram ali na cabine curtindo junto aos dois, acompanhados do festeiro Stacey Pullen.
Enfim chega o momento das
afterparties do domingo. Porque se tem uma coisa que não pára em Detroit, ao menos durante o DEMF, é o clima de festa. E as opções novamente são excessivamente vastas. Tento conferir duas que prometem muito: "The Homecoming" de Jeff Mills e "Face The Music" que conta com um modesto line up da mais pura nobreza houseira do meio-oeste, arrolando nomes como Roy Davis Jr., Scott Grooves, Rick Wade, Gene Farris, Chuck Love e Keith Worthy. Nesta última, a palavra de ordem continua sendo a house music típica dali: quente, suada, franca e classuda. E assim tenho a chance de testemunhar alguns dos sets mais impressionantes da minha já longeva vida de esbórnia musical. Já na gig de Jeff Mills, ele mostra como sempre será um muito bem-vindo filho pródigo desta cidade. Isso sem contar a impecável guarnição provida por Buzz Goree e James Pennington (Suburban Knight), dois oficiais condecorados do pelotão da Underground Resistance.
MAY DAY?E finalmente chegamos ao dia do feriado, que dá ensejo ao findi prolongado do festival e anuncia seu úlitmo dia. A ênfase, obviamente, recai sobre o palco principal da Vitamin Water, no entanto isto não quer dizer que o ritmo sobrehumano requerido para acompanhar uma boa quantidade das atrações oferecidas tenha diminuído. Eles levam bastante a sério a tradição do "save the best for last" e a prata da casa é quem tem as honras de encerrar o evento. Antes disso, bato um papo com Jason Huvaere, o diretor artístico da
Paxahau, produtora do festival. Ele é bem otimista a respeito do papel do festival na transformação da cidade e da música como um elemento central no processo como um todo.
Conversamos a respeito dos outros tipos de empreendimentos que eles operam na cidade, todos voltados ao entretenimento, e esta parece ser uma das saídas mais viáveis para a tão necessária renovação da cidade. Aqui o cinema parece ter uma posição central, dadas os incentivos oferecidos pela adiminstração municipal e os preços minúsculos das propriedades locais. Ele relembra os tempos em que se dava uma festa em qualquer galpão da cidade sem correr riscos, exibindo orgulhosamente suas credenciais no
underground local e se orgulha de ter feito parte dos anos dourados da vida
clubber local, quando a musicalidade detrotiana explodiu para o mundo. Ele reconhece que muita coisa mudou e não necessariamente para melhor, mas aposta no DEMF como algo essencial para recolocar Detroit no mapa turístico, usando do que ela sempre teve de melhor. Encerramos a conversa em um tom informal, bem engraçado, quando ele procura os sobrinhos que, segundo ele, brincam nas imediações e me conta que são brasileiros, fruto do casamento de sua irmã com Bezerra da Silva. Eu tento explicar qual a importância do velho para o samba, fazendo uma comparação meio tosca com o gangsta rap e a narrativa da vida do morro e da contravenção numa sacada jocosa. Ele finge que entende e eu faço de conta que o enganei.
Voltando ao evento propriamente dito, chego ao palco da Red Bull para ver o live do Flying Lotus e percebo que ele tenta fazer algo original mas não parece convencer muito o público, algo que necessariamente não atesta contra seu talento. Benga vem na sequência e impressiona pela potência do set, que não parece sofrer da militância forçosa e enfadonha que parece ser o
handicap da maioria dos sets de dubstep atuais. Me dirijo ao palco principal e Quentin Harris mantém as coisas mornas em mais uma ensolarada tarde de feriado, muito esperada por todos os habitantes e visitantes. Fico para ver o elegante Carl Craig, soltando mais um de seus sets intrincados e densos, como se quisesse oferecer uma pequena amostra do que nos espera em 2010,
quando assumirá a direção artística do festival.
Prosseguindo a festança, Los Hermanos ocupam o palco com todo seu equipamento, dançarinos, animação e o techno soul que só poderia ter saído deste lugar. O genial Gerald Mitchell comandou o grupo de modo primoroso do começo ao fim, jogando solos e melodias pegajosas sobre as bases de Mark Flash e Ray, enquanto Pirahnahead enganchava basslines sólidas o suficiente para segurar aqueles grooves complexos. Kevin Saunderson é o próximo e devo confessar que minhas expectativas sempre foram reduzidas, dadas suas decepcionantes apresentações que pude conferir no Brasil. Aqui, no entanto, ele provavelmente quis mostrar serviço e mandou um set dos mais empolgantes, Techno do começo ao fim, às vezes linear demais, mas no geral super dançante, com direito até a umas cinco versões diferentes de "Good Life".
Enquanto isso, corro para ver o live do Audion no Made In Detroit stage e descubro que o Matthew Dear é imensamente mais interessante neste formato do que tocando faixas de outros artistas no gênero que ele mesmo ajudou a desenvolver. Volto rápido para a grande arena e Derrick May já se esconde na cabine, aguardando os últimos momentos do colega Saunderson. Ele começa firme, com ritmos intensos e melodias suaves, sustentando uma energia hipnótica e alternando com faixas mais percussivas. Um set memorável pela seleção, apenas meio que estragado pelas excessivas sambadas iniciais, o que não refletiu no público, dançando como se não houvesse amanhã.
Durante o festival rolaram muito mais coisas. Apesar de não me arrepender, por ter perdido Ellen Alien, Benny Benassi, Tiga ou Bad Boy Bill - já que isso seria como ir a um rodízio de carnes no litoral - foi animador ver como havia pessoas de todos os tipos, origens, idades e nacionalidades. A predominância de uma molecada jovem, entre 18 e 21, é revigorante, mais ainda do que ver gente com carrinhos de bebê (os pequeninos devidamente equipados com protetores auriculares), curtindo a música que deve ter sido a trilha sonora de sua já saudosa adolescência. Detroit agradece e espera que todo mundo volte e compartilhe do maior tesouro que esta decadente metrópole tem a oferecer. Disse as pessoas dançaram como se não houvesse amanhã mas isso é uma meia-verdade, pois se as intenções dos organizadores estiverem acertadas e as esperanças dos músicos se concretizarem, todo mundo ali dançou justamente para que haja um amanhã. E, assim aprendemos três coisas muito importantes que se concantenam de forma subime naquele espaço:
1) "Ain't no love like Detroit love";
2) "Love will save the day"; e
3) "Music will save our lives".
Ou como melhor dito por Pirahnahead quando, em um momento de tietagem, lhe disse que amava sua música. Ele simplesmente respondeu: "It loves you back, man."
muito obrigado pela cobertura, nessas horas é que a gente percebe nas entrelinhas do texto, o carinho pelas palavras e o amor e dedicação pela verdade, e sempre pela música. That`s what`s up in the D.
High Tech Soul (full video, documentário sobre o nascimento do techno em Detroit)
http://video.google.com/videoplay?docid=-195672552584716914
Estou tento o privilegio de ver uma cidade aos poucos renascer das cinzas, literalmente.
A musica , o cinema, a arte em geral estao transformando o lugar que de discrimado passou a ser "trendy". I love 313!
No festival do ano que vem, quem quiser economizar com hospedagem, basta me pagar uns connie-dogs. Peace out!
Abs