O mestre francês enfrenta a mediocridade do tempo com música, críticas pontuais e a busca pela identidade orgânica
O homem está afiado. E bocudo. Laurent Garnier lançou seu quinto álbum mês passado disparando contra tudo e todos em nome da música. As críticas foram para a cena eletrônica em geral ("Hoje em dia o que é importa é o que você é, com quem você anda"), e até para a Inglaterra, terra que fundamentou sua carreira musical durante sua residência na Manchester ácida dos anos 80 ("O país está se tornando muito superficial musicalmente, definitivamente não é lugar que aceita experimentos, caso de Alemanha, França e Bélgica").

LG retorna vociferando com revolta - e certa prepotência francesa, digna de quem não se acomodou na resignação e, mais do que as meras palavras, expele a inconformidade com música instintiva, orgânica e pessoal. Grandiosa mesmo, que muitos podem até não assimilar (e não há juízo de valor nisso).
Tales of a Kleptomaniac apresenta um Laurent maduro, longe de pistas esfumaçadas e perto da companhia de músicos amigos e de muito vinho rosé do ensolarado sul francês, terra que originou as onze faixas centrais do álbum, 17 canções extras e um CD-mix explicando estas origens cleptomaníacas (de afrobeat a Guy Gerber -
veja tracklist). O eixo deste trabalho é permeado por seu conhecido techno de notas extensas e de clima soturno, que se fundem perfeitamente com as influências de jazz, dubstep, grime, rap francês, de dub e de música africana. "Gnanmankoudji", primeira faixa a ser divulgada, resume bem sem gênero definido todas essas nuances, e também exprimem bases musicais de LG (caso do jazz) e seus gostos atuais. Ouça.
Flash Content
Laurent Garnier - Gnanmankoudji (Horny Monster Mix) (mp3)
Se "Gnanmankoudji" é a essência do disco, "Freeverse (Part 1)" é o ápice da musicalidade orgânica que Laurent tanto exibe hoje. O MC MicFlow canta em versos de malandro rap enquanto Laurent cria scratchs, sobre sinos da Indochina, e músicos completam o circo com bateria, baixo, guitarra e um duelo entre sax e trompete. Em festa de lançamento do álbum em Paris, semana passada, deu para sentir no palco toda essa sintonia. Não deixe de notar a alegria do homem.
Laurent Garnier Live @ Paris, Bataclan - 28.05.2009 - Freeverse (Part 1)
Justificando seu posicionamento orgânico, segue a declaração primordial sobre música que Laurent deu na mesma entrevista da crítica aos ingleses. "A primeira coisa sobre a música deveria ser sempre a música. Música para mim é algo essencial, você goste ou não. É por isso que eu lanço tão diferentes estilos de música". Analisando os beats, dá para perceber tanto no techno e na pegada
grimy de seu rap o grave motorizado comum à eterna lembrança 4x4 da música de LG - aqueles arpejos elétricos e clima pós-trance crescente da inesquecível "The Man With the Red Face". Caso de "Desirless", que tem uma raiva tribal e viva, mas é futurística, metálica.
O disco é bom porque Laurent consegue apontar novos rumos de sua música (sua pretensão não chega a falar em nome de toda a música eletrônica; ele quer fugir deste mundo), ao mesmo tempo que destila uma irresistível sensação
back to my roots de referências e escolhas. "Bourre Pif" é um duelo entre a velocidade drum'n'bass e um trompete estridente e nervoso, uma boa-nova para quem mal pode esperar pela apresentação em SP do francês e de Marky no encerramento do ano da França no Brasil (infos em breve). "Food for Thought" é uma aula de como o dub é atemporal e grandioso, com sintetizadores em harmonia opiácea com a levada jamaicana. E encerrando mais uma bela obra autoral, "From Deep Within", a melhor faixa do disco.
JAZZSTEP"From Deep Within" é exemplo do que falei acima sobre Laurent apontar novos caminhos. Na faixa, uma releitura sensual de Miles Davis (em específico o álbum
Bitches Brew, gravados há exatos 40 anos), com a levada low-fi do jazz injetados em bass decodificado do tech-dubstep de produtores como Martyn (LG é fã declarado), tudo costurado lá ao fundo com bongôs africanos, percussão e chocalhos de samba que vão crescendo magnânimas até serem acalmadas pelo preguiçoso saxofone em meia nota, exatamente como Miles fazia.
O novo e o velho, o hermetismo de canções bem construídas desmistificado na sensualidade negra e tribal, provas de como Laurent está mais perto da Nigéria, da América do Sul e da Jamaica do que de branquelos ingleses do techno. Um caminho étnico, musical e orgânico, mas também de dançante alma eletrônica, como não poderia deixar de ser.
Bom é ouvir o LG dos 90's q fez história. É isso. : P