Você pode conhecer Tim Shaw (foto), produtor britânico que atende pelo sobrenome (Tim) Exile, de várias formas.
Remixando ao vivo o discurso inaugural de Obama, ou manipulando seu famoso
pênis-joystick-controler ao vivo. Também pelos lançamentos de drum'n'bass frenético em selos como
Moving Shadow e
Beta Recording, fora os EPs de profunda quebradeira IDM que saíram pela
Planet Mu. Mas este que vos escreve o conheceu em sua fase mais sabática, justo agora em 2009, ano em que Tim Exile desejou que sua música e mensagem fosse ouvida por mais pessoas e lançou um excelente álbum de, hummm, electro-pop.
Listening Tree tem temática literária quase esóterica, interpretando o mundo pela cabalística árvore sonora de seu criador, que canta grosso em 10 faixas de pegada espacial (lembra um pouco
Kelley Polar) e com quebradeiras e intervenções eletrônicas despejadas pelas interfaces de aparelhos musicais que ele mesmo cria. Isto numa aura oitentista de electro-pop dark que lembra muito Depeche Mode, tendo a
XLR8R posicionado tal referência entre o álbum
Black Celebration e
Thomas Dolby. "Há um vigor entre mim e meus medos, ansiedades e expectativas, e como tudo isso é reflexo da maneira que enxergo a sociedade", disse o sempre telúrico Exile
à revista. "Acho que é o processo de envelhecer e querer fazer as coisas diferentes", completa, justificando suas novas escolhas e tentativas sonoras.
Flash Content
Tim Exile - Don't Think We're One (mp3)
Listening Tree começa pelo ápice, a faixa "Don't Think we Are One". Se a justiça musical fosse implementada nas Cortes, elas daria a Exile o direito à fama por causa desta canção. As notas da intro são bolhas eletrônicas sensuais e urbanas, em que seu sotaque de Dave Gahan (15 anos mais jovem) cantarola em versos,
bridges e corretos refrões inseridos sobre camadas do compasso bem marcado, algo que o pop exige. Quando o refrão cai no requebrado mantra "Don't fool yourself / don't follow me", os dois pés já estão dançando.
As faixas são quase sempre unidas por fade out/fade ins de dramático clima
fog londrino; e a partir da segunda faixa ("Family Galaxy"), começa a brotar o caos de beats quebrados e distorcidos de Exile. Mas não disparados à toa e sem contexto, como pode se apontar na sua produção IDM antiga, mas num beat crescendo ao lado do vocal épico e do synth a la Presets que rasga tudo ao fundo.
A MEDIDA DA IDENTIDADE POPExile deve saber que no pop nada se cria, tudo se copia. Então há a óbvia referência ao Depeche (e um pouco de Frankie Goes to Hollywood, também no vocal), as lembranças de um Presets mais religioso e até mesmo The Knife, pois a base nipônica e soturna de "Fortress" é a cara da dupla sueca, casando muito bem com o vocal grave e límpido de Exile. Quem se interessar mais pelo seu passado barulhento, "There's Nothing Left of Me but Her and This" parte de um fio condutor esquisofrênico até cair numa batida acinturada e rasgada por interferências radiofônicas.
Em seu primeiro álbum pop, este produtor esquisitão e genial acertou a mão entre o ponto de partida temático e a versatilidade. Ele entrega hora o
know how ferozmente abstrato e IDM ("When Every Day's a Number é cria de
Chris Cunningham), e hora apazigua os ânimos, como na faixa título. Há espaço ainda para humor irônico em "Pay Tomorrow", com sua base 4x4 assimilável apesar das interfências tão características no álbum todo. Fora o tom de profeta do metal melódico que ele adquirie no drum'n'bass de "Carouselle".

"Experimental" é uma alcunha que define certo renome cult na eletrônica, mas também é expressão que lima identidades, e que não significa muita coisa além do pressuposto de abstração. É só reparar no dubstep, que já faz tempo é o pressuposto mais de versatilidade do que um gênero por si só. Não à toa, faixas de
Listening Tree já estão fazendo a alegria dos tracklists de sets e podcasts do pessoal dessa cena, principalmente pela sua catarse pop travestida de pancadão underground que agarra qualquer um pelo estômago. Um álbum sensacional, sem dúvida.