Há dez anos surgia o discaço de electrofunk que alçou Stuart Price (aka Jacques Lu Cont) ao mundo
Dez anos atrás, maio de 1999, era lançado no Reino Unido via Wall of Sound/Astralwerks o histórico
Darkdancer, segundo álbum de um vulgo produtor francês de cabelo vermelho chamado Jacques Lu Cont e seu projeto Les Rythmes Digitales. Tratava-se na verdade de um rapaz de pouco mais de 20 anos de Reading, Inglaterra, chamado Stuart Price,

hoje incansávelmente conhecido como o produtor que em 2006 trouxe Madonna de volta à relevância sonora com o disco
Confessions on a Dancefloor.
Darkdancer é seu grande marco como produtor. Numa oportuna brincadeira irônica com o french touch de então - que transformavam Daft Punk, AIR e Cassius em deuses do pop, o Les Rythmes Digitales juntoup-se a essa safra com uma mistura sintética e bem-humorada de electrofunk e synth-pop dos anos 80, fundindo referências americanas e européias num som reta, 4x4 bem linear: technopop de estética e som metálico, cheio de sensualidade vintage, com aquela sensação requintada de "house fino" que alegrava os tênis lustrados da época.
São dez anos do disco que, do outro lado do Canal da Mancha, fez um complemento proporcional em estética e sonoridade ao seminal disco
Homework do Daft Punk (aquele de "Around the World" e tudo mais). Lu Cont não se tornou uma hecatombe de sucesso igual aos franceses, mas ao contrário do Cassius, que morreu na inanição de um par de hits, o LRD adquiriu aura cult e seu criador não foi esquecido.
Além de Madonna, ele é DJ, remixer ocupado e produziu no seu apartamento em Londres cheio de sintetizadores antigos álbuns de uma lista pomposa de artistas: The Killers, Seal (!), Keane e o debut de Frankmusik a ser lançado em breve, indo em direção contrária ao que
declarou no site Popjustice em 2005: "Eu não quero entrar nessa carreira de ficar produzindo canções para todo mundo, eu quero fazer outro disco meu, um novo disco do Les Rythmes Digitales."

Vale dizer que não foi só a produção, mas também a co-autoria da faixas de
Confessions... ao lado de Madonna que destacaram Price, depois de ter sido tecladista e coordenador musical de turnê da diva, tornando-se disputado por figurões do pop sedentos por bons beats. Talvez seja melhor aplicação profissional para este jovem produtor, que é bom DJ - ele passou pelo Brasil em 99 com DJs sets do
Darkdancer no Rio e no clube U-Turn, em São Paulo. "O lado glamouroso de ser DJ não tem relevância pra mim. Quando os DJs dizem mais respeito a quem se anda, com quem se transa e qual champanhe se bebe, isto é a desgraça da dance music", reclamou Price
à Mixmag, também em 2005. "Odeio andar por Ibiza e ver DJs posando em cartazes", completa, numa declaração que reitera suas escolhas fora da cena eletrônica até hoje.
JACQUES YOUR BODY, MAKE US SWEAT - AS FAIXASVamos ao disco. Imagine Prince e o Human League tomando ecstasy juntos, numa festa londrina inspirada nos videogames de 1989.
Darkdancer é menos preso à house music "chique" (Daft Punk), ou à soul music (Cassius), pois suas doze faixas contemplam o melhor dos topetes
new romantic do synth-pop inglês 80s, junto com uma negritude house/techno/break de Detroit e Chicago. A verdade é que o Les Rythmes Digitales, muito mais que um "touch" do fim do milênio, ajudou a abrir as porteiras para uma obsessão pela década perdida e por todas suas sonoridades.
"Dreamin'" abre o disco idealizando como Tim Maia seria em versão electrofunk, vindo na sequência a sensacional "Music Makes you Lose Control": guitarras de surf rock, o 4x4 de Roland seco e repetitivo, e o refrão-título repetido e picotado à exaustão. O verso é sample de "Body Work", faixa de 83 do Hot Streak (
ouça aqui), mas é provavelmente de Stuart Price que veio a idéia de Missy Elliot criar a faixa "Lose Control" com o mesmo sample (
ouça aqui também).
Flash Content
Les Rythmes Digitales - Music Makes You Lose Control (mp3)
A alma funk do disco está em seu lado orgânico (baixo, guitarras, percussão) digitalizado em efeitos eletrônicos, numa referência que o ouvido lembra na hora de Afrika Bambaataa. Adicione malemolência e malandragem de alguns vocais, como na áspera "Soft Machine" e em "Take a Little Time". Esta última tem vocais sensuais da tiazona Shannon, autora de "
Let the Music Play",

hit pós-disco/pré-house de 1983. E no combo "Disco to Disco" e "Brothers", a sensacional aplicação do techno e da house music na estética tradicional do pop.
A primeira é repetitiva, crescente (Lu Cont tem um pé no prog inglês), e explode em synths requebrados com um um Pato Donald eletrocutado berrando ao fundo. "Brothers" é tão orgânica que devia ser trilha de um novo
Blade Runner, com synths substituindos guitarras e notas que levam a melodia até algum lugar do Espaço Sideral que o Chemical Brothers não sabe onde fica - aliás, "Got Glint", do Chemical, e "About Funk", do LRD, são duas aulas do uso de chimbau e harmonia 4x4. São faixas que também provam como o LRD está mais para Thomas "
Roulé Boulé" Bangalter do que Daft Punk.
Encerrando o disco, pop bem feito e uma faixa que deveria ser matéria obrigatória para quem gosta de falar em house music: "Jacques Your Body (Make Me Sweat)". Lu Cont cria o seu próprio
Jack the House e estabelece o suingue eletrônico que todo produtor, de Fred Falke a Tiga, tenta buscar hoje em suas produções. Fora a ponte lá pelos dois minutos de faixa, morna e deep, que desemboca numa explosão houseira sensual e fina, ponto altíssimo de todo o
Darkdancer.
A dobradinha "Sometimes" (literária, emotiva) e "Damaged People" (sombria e arrastada), fecham a narrativa sonora desse jovem produtor com aquela rara sensação de disco completo e redondo.
LEGADOSintetizando notas tanto para o electroclash quanto para o maximal da década seguinte; e criando pequenos grande hits que fizeram parte da história eletrônica de toda uma geração alimentada por Daft Punk, Chemical, AIR e afins, Stuart Price não teria caído no apreço de Madonna sem este álbum. Sem
Darkdancer, talvez todo o novo milênio de celebração do passado em fusões criativas e experimentais não teria surgido, já que foi uma era de pop dançante que livrou a eletrônica de amarras de gêneros.
Da sua temática às suas pretensiosas intenções pop, o LRD foi plataforma para um disco original, com identidade sonora e poder de fogo em pistas e na densa floresta do pop. Mas eis os sinais do tempo: dez anos depois, com tanto imitadores de sua estética, e ele próprio emprestando seus sintetizadores para para qualquer artista pop cafona, talvez não faça mesmo sentido um retorno de Lu Cont e seus cabelos vermelhos a frente de um novo álbum e de DJs sets. Porque é hora de algo novo, assim como
Darkdancer foi em 1999.

DARKDANCER - OS VÍDEOS
EM NOITES REGADAS A AMP MTV, OU ATÉ MESMO EM PROPAGANDAS DE CARRO, AS IMAGENS E REFERÊNCIAS DO LES RYTHMES DIGITALES.
SOMETIMES
Com voz de Nik Kershaw, cantor que fez sucesso na Inglaterra durante os mofados anos new wave, o vídeo de "Sometimes" conta a singela história de um ursinho de pelúcia suicida. A letra existencialista ("Sometimes, When I wake at night / I feel that nothing on earth could ever heard me") não faz coro ao synths amplo, que traz nuvens pesadas para cima da doce voz de Kershaw.
(HEY YOU), WHAT'S THAT SOUND?
Kraftwerk, Devo, Atari, Keith Hering, Flashdance... Estão lá algumas das referências oitentistas de Jacques Lu Cont. Numa época em que música eletrônica ainda era sinônimo de futuro, ele sai às ruas de Londres de cabelo vermelho e transforma os pedestres em dançarinos de 1986 com sua teclado de lasers retrô. A pergunta "What's the Sound?" cai como uma luva dez anos depois, quando essa estética é uma obsessão incurável.
JACQUES YOUR BODY (MAKE ME SWEAT)
Na compulsão pop de Stuart Price, a faixa mais housy do disco ganhou um clipe de andróides em perseguição, além de uma questionável acelerada no BPM. Vale o registro mesmo é pelo uso no comercial do Citroën C4 em 2005, fato que fez o disco ser relançado em edição especial, bem na época da parceria com a Madonna, para a alegria da conta bancária de Lu Cont.
Citroën C4 - Les Rythmes Digitales
PS: Daft Punk e até o hitaço electrohouse "Walking Away" (The Egg) também foram usados nesta campanha. E para quem quiser ver Stuart Price em registro, é só assistir o I'm Gonna to Tell you a Secret, segundo documentário de tour de Madonna no qual ele aparece bastante.
DISCO TO DISCO - OS REMIXESO Les Rythmes Digitales ao vivo nunca foi além de DJs sets e um trio de bases-teclado-backing vocal. E nem a outra banda de Lu Cont, o Zoot Woman, fez história nos palcos com seu show mais indie do que eletrônico. O ápice pop do inglês se deu na produção - e também a frente de famosos remixes. Como a remixografia geral de Stuart Price é tão grande que travar a página do Discogs, confira os melhores remixes do projeto Les Rythmes Digitales.
DEEJAY PUNK ROC - MY BEATBOXO maior hit desse "deejay" americano, que intencionava ares hip hop ao big beat, surgiu após o clipe, e teve destaque também pelo belo remix do LRD. Imagine o electrohouse em sua concepção pré-bombação: safadeza de breaks que deixam o compasso irracional e instintivo, junto de um bate-cabelo de deixar Armand Van Helden envergonhado.
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Les Rythmes Digitales - Deejay Punk Roc - My Beatbox (Les Rythmes Digitales 'As de Pique' remix) (mp3)
CASSIUS - FEELING FOR UO tratamento estético do LRD aqui é o mesmo de "My Beatbox": synth apurado com a cara de
Darkdancer substituindo a base da faixa original, mas sem desbotar suas características originais - no caso, o 4x4 e o vocal. É o ápice do french touch: dá para tocar numa festa descolada, ou num programa de FM.
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Les Rythmes Digitales - Cassius - Feeling For U (Les Rythmes Digitales Dreamix) (mp3)
LAPTOP - NOTHING TO DECLAREEm 1999 o LRD explicitou muito a sua intensa raíz Human League, no remix para essa
banda promissora da época mas que acabou sem chegar a lugar nenhum. O vocal descolado e o beat bem aos moldes de "
The Things That Dreams are Made Of", fariam que dez anos depois selos como Modular ou Kitsuné brigassem a tapa para lançar tal faixa.
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Laptop - Nothing to Declare (Les Rythmes Digitales Remix) (mp3)
WE IN MUSIC - NOW THAT LOVE HAS GONEEsta deliciosa balada dos anos electroclash foi o supertrunfo de várias coletâneas, incluindo A definidora
Excursions (Felix da Housecat - 2002). E a versão do LRD é nada mais que house music: melódica, deep, com vocal sussurado e seus altos e baixos alternados apenas no knob do grave. Lembre-se que Stuart Price é mais french touch do que electroclash.
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We in Music - Now That Love Has Gone (From Loneliness To Hapiness Mix By Les Rythmes Digitales) (mp3)
PLACEBO - PURE MORNINGNão dá para acertar sempre. A versão do LRD para o maior hit do Placebo, apesar do sutil toque tranceiro viajandão, não consegue ser melhor do que o original. Parece remix feito na pressa, por encomenda de gravadora. O pop tem dessas...
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Placebo - Pure Morning (Les Rythmes Digitales Remix) (mp3)
ORBITAL - NOTHING LEFTNos anos 90 Alison Goldfrapp emprestava sua doçura pueril de sua voz para faixas de Tricky e Orbital. Um bom hit do meio dos anos noventa foi "Nothing Left", em que Goldfrapp canta com os irmãos Hartnoll, faixa que caía tão bem num set ao lado de Gus Gus, Björk... A versão do LRD é mais techy do que a quebradeira original, e saiu junto do 12" de "Belfast" remixada por Sasha, lá em 99. Bons tempos, não?
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Orbital - Nothing Left (Les Rhythmes Digitales Remix) (mp3)
o cara é fantástico ,até com a madonna em confessions marcou época.... e que venha lrd vol 2!
materia fantástica!!!!! (2)