"Contemporâneo" é um bom adjetivo para descrever
Red, segundo álbum do Datarock. Ao longo do disco, os noruegueses entregam um rock enxuto, que dialoga com o tempo em que vivemos. Seja através dos temas tratados nas canções ou de sua sonoridade, eles fazem um trabalho livre de saudosismo. E é isso o que os torna tão leves de ouvir.
Quem gosta da banda há algum tempo terá um bom motivo para conferir o disco: o rock eletrônico continua sendo a pedra fundamental. Sem apelar demais para o pop, há espaço para piada e poesia. Em "Fear of Death", o vocalista confessa seu medo da morte, e diz que não consegue parar de pensar no assunto. "Eu quero morrer primeiro, mas isso não significa que eu não tenha medo. E se a morte for nada além de som; barulho elétrico?"
Mas o grupo passa longe de qualquer melancolia, mesmo quando trata de assuntos funestos. A bateria não deixa o ritmo baixar, e os teclados tornam o conjunto apoteótico em alguns momentos. As ótimas "Back in the Seventies" e "Not Me" abusam de guitarras e sintetizadores, fórmula repetida ao longo do álbum.
Essa mistura de rock e eletrônica não chega a ser ousada. Os timbres sintéticos servem apenas como acompanhamento da melodia, e o máximo que se ouve é algum truque com microfones, guitarras tocando em canais diferentes do áudio e só. As faixas têm um quê de new-wave repaginada, só que com uma dosagem menor de plasticidade. Eles querem ser levados a sério, mas nem tanto.
O lado bem humorado do grupo aparece com mais abundância (e quem assistiu à apresentação deles no Brasil sabe disso). É só dar uma olhada no clipe de "Give It Up", que faz paródia da clássica briga de estiletes protagonizada por Michael Jackson em "Beat It". Ou então ouça "True Stories" e aceite o desafio: quem consegue ouvi-la sem mexer o ombro junto ao baixo malandro?
Essa ausência de pretensão não significa que as influências não estejam lá. O que seria de "The Blog" sem o synth-pop de bandas como a inglesa Human League? Felizmente, a faixa não se rende ao tributarismo. Acerta ao falar sobre fenômeno que acompanhamos de perto: a inflação de uma segunda bolha de entusiasmo em torno da internet. Samples frenéticas com análises sobre YouTube e MySpace se misturam às letras dos músicos. Eles, aliás, têm as credenciais para falar sobre o tema, já que nos últimos anos estiveram no epicentro da nova cultura blogueira.
A faixa, apesar de abrir o disco, serve também como epílogo. Ao longo de suas 13 músicas,
Red fala sobre o impacto da cultura de nicho, a ausência de barreiras entre orgânico e sintético, etc. Nesse panorama, talvez o Datarock tenha participado de um dos últimos hypes criados por um veículo de imprensa - a new rave da
NME. E com seu segundo disco, sugere - com ironia e sem rabo preso - que antigos hábitos estão mesmo fadados ao esquecimento.
percebo uma ligeira pasteurização neste Red, não sei, mas gostei.