"Estou aqui para mudar o futuro!"
Pode soar como muita pretensão para um produtor com um nome tão deliberadamente genérico como "DJ Promo", mas o hardcore sinfônico e o coral no estilo "apocalípitico" da faixa de abertura dão uma certa credibilidade à sentença. Se não vai mudar o futuro pelo menos mostra alguns caminhos novos sendo explorados no presente.
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Promo - My Future Destiny (mp3)
Quality Control é o novo CD duplo do
holândes Promo e compila músicas inéditas, outras tantas versões originais que haviam sido lançadas apenas como singles em vinil e uns poucos remixes de tracks mais antigas como "Different Breed Of Men" e "Running Against The Rules", que mereceram a atualização. O título do CD é curioso porque a maneira com que Promo garante o "controle de qualidade" de suas produções é a desobediência à todas as "normas" consagradas do hardcore. Seus recursos vão desde apelar para as melodias do trance mais épico, até carregar na presença dos raps dos MCs. Mas o produtor mantém a marca registrada de estilo na densidade de seus bumbos, trabalhados artesanalmente num processo longo de distorção e compressão. Uma das faixas mais tocadas assim que o CD saiu, "Your Love is Gone", define bem essa liberdade de juntar peso com melodia e até algum sentimento. É "hardcore-dor- de-cotovelo" (emocore?) e ao mesmo tempo uma pedrada quase uplifting para as pistas, com os bumbos despencando como num ataque aéreo.
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Promo - Your Love Is Gone (mp3)
Há quem acredite que os estilos mais pesados são tão populares na Holanda por que o país é o berço da tolerância pela diversidade e isso se estenderia para um interesse maior pelo som mais alternativo. Mas o fato é que uma vez que esse "underground" tomou o poder, se tornou tão ditador de fórmulas quanto qualquer outro estilo comercial voltado para rádios e estádios lotados. Esse compromisso com o mainstream acaba limitando a liberdade da maioria dos produtores e DJs, especialmente aqueles contratados por selos grandes como Masters of Hardcore, Enzyme ou Offensive. Pra esses caras, a garantia de tocar em festas enormes como Hellraiser, Megarave ou Hardcore Gladiators, depende um pouco de não frustrar as expectativas do público mais fanático, que não é chegado em muitos experimentalismos e considera heresia qualquer inovação mais pessoal. Por isso que os estilos "não comerciais" como
splittercore ou extra-tone acabam soando tão extremos - verdadeiros desabafos contra a rigidez da panela rica da cena.
Promo, ou Sebastian Hoff, conhece bem as armadilhas de se render ao sucesso comercial amparado por um label influente e o risco de terminar produzindo música sob encomenda. Sua carreira começou em 95 numa parceria com
The Prophet que chamaram de Section 8 para lançar uma única faixa, "Punanny", numa das coletâneas da série Thunderdome. Logo em seguida remixou duas músicas muito populares na época: "Don't Speak" do No Doubt (Shut up!) e
"Born Slippy" do Underworld ("Born Whappie!") com o nome bizarro de DJ Promo, que podia ser tanto uma brincadeira com o apelo simplório desses remixes, quanto uma indicação de que Sebastian nem queria crédito pela autoria daquilo. Eram versões meio tolas, com um pé no poperô europeu e outro no nascente Happy Hardcore, mas que eram bem profissionais na parte técnica e por isso foram tocadas em vários sets, inclusive fora da Holanda. Isso chamou a atenção dos empresários da poderosa ID&T que prenderam "DJ Promo" num contrato que lhes rendeu mais de 80 faixas em poucos anos!
Com o nome de Promo consagrado, Sebastian ganhou dinheiro de sobra com a ID&T mas nunca escondeu a frustração criativa - quando juntou o suficiente pra fundar seu próprio selo, The Third Movement, correu atrás do tempo perdido e assumiu uma oposição quase politizada à postura conservadora do hardcore holândes. Seus lançamentos abrem espaço para sons tão diversos como o techno ambient do inglês Jami3 Ball (pelo sublabel Men in Motion) ou a mistura wonky do finlandes Peaky Pounder. E quando lança suas próprias faixas usa os títulos e as vozes dos MCs para sua pregação pessoal contra a estagnação da cena. Desde o primeiro lançamento do Third Movement - "Running Against the Rules" (remixada por D-Passion neste CD) até o provocativo CD duplo de 2006 "The Revolutionist", suas letras o definem como um outsider rebelde e heróico dentro de um estilo que praticamente ajudou a criar. O discurso de Promo é o mesmo em diversas de suas faixas e cansa um pouco o recalque contra os que não curtem suas inovações e insistem em repetir "Promo is Homo" todas as vezes que ele utiliza elementos mais suaves num som. Mas algumas de suas críticas acertam direto no alvo - em "Fuck that Mash up" fala que precisamos de "novos líderes" porque hoje em dia os grandes nomes pararam de produzir sons novos e só copiam e reciclam faixas velhas em mash ups...
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Promo - Fuck That Mashup (mp3)
Uma das faixas mais intensas, "Always Futile" destaca um melancólico e delicado vocal feminino acompanhado de uma melodia quase sinistra e o sample "raro" da voz sintética em 8 bits "Humanoid", do videogame "Berzerk", gravado originalmente num arcade inglês por Brian Dougans em 1988, antes mesmo dele fazer parte do Future Sound of London. Sample de "entendido" de dance music. A transição das passagens suaves para os compassos marciais com os kicks mais distorcidos do album é no mínimo emocionante:
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Promo - Always Futile (mp3)
Infelizmente o controle de qualidade de Promo não é tão rigoroso assim e faixas mornas como "The Tablet" ou "Weapons of Divine Temper", assim como a tola "Asian Drum Lesson" ficam meio destoadas no conjunto. Talvez se optasse por um CD simples só com as músicas mais interessantes (as mesmas que estão sendo lançadas numa série de EPs da Third Moviment), Promo conseguisse o seu tão esperado reconhecimento como o "arauto da mudança" dentro de um gênero tão rígido quanto o hardcore. Mas para curtir nessa primeira metade de 2009 tá mais que bom!
Agora, que fique claro, o Promo tá dizendo que é o futuro DO HARDCORE - obviamente a influência se restringe à própria cena.