O tiozinho Paul McCartney, os soul rockers do TV on the Radio e os teens fãs dos Ting Tings: saiba como foi
Para quem planejava ir ao
Coachella 2009, a ansiedade chegou muito antes do próprio final-de-semana na Califórnia. Com o
anúncio do line-up e suas bandas de peso em janeiro, muita gente resolveu ignorar a crise econômica e pendurar mais uma conta no cartão de crédito. Irônica, a edição de 2009 do festival pareceu mais cheia do que a do ano passado, quando a paranóia financeira ainda não tinha surtido efeito nas cabeças gringas.
Sexta-feira, 17/04O primeiro dia de festival começou mais tarde que o planejado: as filas, do estacionamento e a entrada do festival tomaram horas das agendas de quem esperava lá fora. Com 5 bandas se apresentando ao mesmo tempo, fica difícil fazer a escolha certa o sempre. Assim, corri pra ver os
Ting Tings ao vivo, ao invés de ficar pra assistir ao show dos Black Keys.
Ting Tings - "That's Not My Name"
Katie White do Ting Tings

A popularidade da dupla inglesa é maior que você pode imaginar. Uma multidão - formada em sua maioria por adolescentes - lotou toda a área em volta da tenda Sahara, a maior do festival. Em coro uníssono, os fãs da banda dançaram juntos e fizeram da apresentação da dupla algo mais interessante do que ela teria sido sem esse apoio da torcida. Se arrependimento oferecesse uma segunda chance, eu teria corrido de volta pros Black Keys que - dizem - arrasaram no Coachella Stage.
Crystal Castles

Na sequência, foi a vez de trocar Franz Ferdinand por
Crystal Castles - dessa vez sem pensar duas vezes. Com um climão de fim de mundo, a dupla fez a tenda chacoalhar mesmo com o sol ainda batendo forte lá fora. Ethan Kath, de capuz preto no calorão do deserto, tocou cada um dos hits do álbum
Crystal Castles com uma linha de baixo mais pesada, enquanto Alice marcava as faixas com gritos ainda mais estridentes. Infelizmente, a famosa "Crimewave" começou empolgada, mas por motivos técnicos (leia-se: fãs pendurados nos cabos de transmissão) perdeu gás e volume em meio a sua performance. Ainda assim, Crystal Castles foi responsável por acordar qualquer um presente, fazendo um dos grandes shows da sexta-feira.
Crystal Castles - "Crimewave"
Morrisey

"May I serenade you?". Foi com a pergunta romântica que
Morrissey começou seu set no deserto, recebido pelos fãs de todas as idades. Caminhando pelo palco com microfone em punho, cantando de olhos fechados, ele incluiu os hits "This Charming Man" e "Ask" na primeira metade de seu show. Mais tarde, o cantor de "Meat is Murder", famoso por suas opções vegan, fez o comentário que marcaria as manchetes nos jornais locais no dia seguinte: "I can smell burning flesh and I hope to God it's human". O cheiro de churrasco das praças de alimentação do festival não agradou o cantor inglês, mas a proporção da história jamais deveria ter ultrapassado a de sua própria performance .
Morrissey - "Some Girls Are Bigger Than Others"
Como as apresentações na tenda Sahara acabaram atrasando bastante no primeiro dia, foi fácil alcançar o show do Girl Talk a tempo. Como sempre descrito pelos blogs de música, o show de Gregg Gillis é acelerado, alucinado, convencer a multidão a entrar no clima e no ritmo de seus mashups não é difícil. Gillis conta com hits de Michael Jackson a Ramones, chuva de balões e fãs no palco. A graça de ver um show do Girl Talk em meio ao line-up do Coachella está mesmo no desafio que a linha tênue entre o legal e o brega oferece. Enquanto alguns fãs congelam ao escutar o verso mais famoso de "Single Ladies" (da Beyoncé) mixado com algum rap conhecido, outros dão risada e entram no clima, entendendo que a proposta do Girl Talk é debochada, e não deve ser levada a sério.
Girl Talk
Old Macca

Hora de
Paul McCartney. De volta ao palco principal, onde um espaço livre qualquer era visto como uma oportunidade de ouro. O show já prometia ser emotivo por si só, mas o que o segundo Beatle trouxe pro Coachella 2009 ficou pra história e vai ser difícil de ser superado. Macca começou seu set meio tímido, quase constrangido. O "Hello, Côw-chêl-laaa", foi repetido várias vezes antes de qualquer outra interação com o público que assistia aos seus movimentos sem se mexer. A primeira metade do set, cheia de hits dos Wings e da própria carreira solo do cantor, aqueceu a noite já fria no campo de pólo. Em um primeiro intervalo dedicado à conversa com o público, McCartney lembrou a todos que a data coincidia com o 11º aniversário da morte de Linda, sua esposa durante quase 30 anos. Em seguida, dedicou a música "My Love" a ela. Iniciando um padrão intenso e emocional que marcaria toda a segunda parte do show, Paul lembrou do amigo John Lennon com "Here Today" e de George Harrison, com uma versão fofa de "Something" no ukelele. A performance de Paul McCartney, que durou em torno de três horas, virou então um festival de revival aos Beatles, terminando com os clássicos "A Day in the Life", "Let it Be" e "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band". De acordo com um fã na multidão, "se você não foi ao Coachella pra ver o McCartney, você não foi ao Coachella pra ver música". Eu só pude concordar.
McCartney - "Hey Jude"
Sábado, 18/04 O segundo dia de festival trouxe um line-up com padrão folk. O sábado começou com show do Blitzen Trapper, queridinhos da gravadora Sub Pop, na tenda Gobi. O público, que se apertava dentro da tenda pra fugir do sol forte, era grande. Com o sucesso do último álbum, o show da banda foi tão bem recebido quanto as faixas de
Furr.
Blitzen Trapper - "Furr"
Passei pelas guitarras características de banda 90s do Superchunk e notei que a turma assistindo ao show deles era menor do que eu esperava. Uma das bandas mais recomendadas por amigos fãs do estilo, não decepcionaram. Com o volume alto pra média do Outdoor Theatre, o vocalista Matt McCaughan deixou clara a sua influência sobre bandas atuais, como Fall Out Boy.
Superchunk
Em seguida, Henry Rollins, um dos fundadores do hardcore nos Estados Unidos, entrava no palco da tenda Mojave. Com discursos bem humorados e sempre com um quê de revolta, Rollins discutiu assuntos polêmicos, pedindo que cada um dos Coachellers presentes considerassem o uso da "filosofia hardcore" ao fazer escolhas pessoais, questionando uma segunda opção ao invés de se acomodar com a primeira. Os punhos no ar sinalizavam que o pedido de Rollins era uma ordem.
Henry Rollins
TundeAdebimpe, do TV on the Radio

O show do Glasvegas, cancelado porque o vocalista ficou doente, moveu muita gente que ainda se perguntava se deveria ou não ver TV on the Radio. Há males que vem para o bem. O
TV on the Radio fez o show mais impressionante do dia, reunindo uma multidão absoluta em frente ao Coachella Stage. O set da banda misturou hits de
Dear Science e de
Return to Cookie Mountain, promovendo uma festa muito mais dançante do que esperada pelo público debaixo do pôr-do-sol de sábado. Faixas como "Wolf Like Me" e "DLZ" não deixaram ninguém sentado, o que geralmente acontece em shows no palco principal.
TVOTR - "Staring at the Sun"
Em seguida, a multidão órfã de TVOTR se movimentou em massa pra frente do Outdoor Theatre, onde os Fleet Foxes já faziam sua passagem de som - que tomou outros 20 minutos do seu tempo de apresentação. Robin Pecknold, vocalista da banda, se desculpou, dizendo: "Nós só estamos sendo profissionais". Eles provaram que o tempo tomado valeu a pena quando suas harmonias soaram perfeitamente no palco aberto. "White Winter Hymnal" ganhou uma versão mais funky, dançante, e Robin deixou os fãs escolherem a última música de seu set, que durou pouco. Assim, os Fleet Foxes entregaram um público aquecido ‘a proxima banda de mamíferos, os Band of Horses.
Fleet Foxes - "Tiger Mountain Peasant Song"
Os meninos do Band of Horses se mostraram ‘a vontade com o deserto ‘a sua frente. "The Great Salt Lake" abriu o show, e dela em diante, a banda só tocou hits. Ou melhor: nessa altura da carreira, a banda só tem hits, ou pelo menos essa é a impressão que fica. Apesar de terem feito um dos shows mais elogiados do festival, eu ainda insisto que Band of Horses é banda para ver em clube fechado. Faz uma diferença monstro pro uso e abuso de reverb, característico de seus álbums.
Band of Horses - "The Funeral"
M.I.A. cheia de marra

Decidi não me arriscar na muvuca insandecida da
M.I.A. e me dei bem. De longe, ainda deu pra sentir cada um dos hits dela pulsar. É certo que M.I.A. faz mais sentido no palco principal, já que em 2008 ninguém coube na tenda Sahara, mas a cantora fez questão de dizer que preferia estar mais perto do calor do público - e que sentia falta do filho recém-nascido. O show da cantora foi esperado, e não levantou sobrancelhas dessa vez. No final, a performance de 2008 talvez tenha mesmo sido muito mais "ela".
M.I.A. - "Paper Planes"
A corrida até os Chemical Brothers mostrou mais uma vez que a voz da experiência sempre fala mais alto. Pra quem preferia que a dupla estivesse tocando as próprias faixas ao vivo, o DJ set não deixou a desejar. Agendados pra hora certa - quando o resto do mundo corria pra ver os Killers - os Chemical Brothers tocaram um set limpo, claro, coerente até mesmo pros menos entendidos em música eletrônica.
Chemical Brothers
Cachoeira de luz? É o Killers

The Killers é uma banda original de Las Vegas. Sendo assim, vamos pular a parte onde criticamos a produção exagerada, o ego megalomaníaco de Brandon Flowers e, sim, os fogos de artifício. Tenha você percebido ou não, esses elementos correm no sangue dos caras. Além dos efeitos visuais, os meninos do The Killers entregaram um show digno de estádio e de super banda pop. Parte do público delirou com os hits mais recentes, como "Spaceman" e outra com os de
Hot Fuss. Com ou sem vergonha alheia, os Killers fizeram jus ao próprio nome, e deixaram os fãs presentes orgulhosos da banda em que eles se tornaram.
Killers - "Mr Brightside"
Domingo, 19/04O dia 3 de Coachella Festival foi o mais quente. Muito quente. Ficou difícil chegar ao show dos Friendly Fires sem nem uma tonturazinha. O esforço valeu a pena, mas o calor não me deixou dançar, ao contrário de todo mundo debaixo da tenda-forno.
Friendly Fires
Já o Brian Jonestown Massacre surpreendeu com um show comportadíssimo. A banda do badboy Anton Newcombe provou civilidade quando trouxeram a baixista dos Dandy Warhols, Zia, pro palco pra tocar "Not If You Were The Last Dandy On Earth". Soando melhor do que nunca, Brian Jonestown é uma nova banda.
Brian Jonestown - "Not If You Were the Last Dandy on Earth"
Em seguida, no Outdor Theatre, a sueca Lykke Li, estilosíssima, fez um show energético debaixo do sol de 40C. A banda, vestida de preto, mostrou que além de não fazer música só pra menina, tem o poder de fazer gente dançar até nas situações mais críticas. Uma das surpresas do festival, a garota fez um dos meus shows favoritos, misturando força com delicadeza.
Lykke Li - "Little Bit"
Yeah Yeah Yeahs

A última maratona Coachella começou com o esperado show dos
Yeah Yeah Yeahs. Karen O abriu a corrida com "Dull Life", vestindo dourado da cabeça aos pés. De hit em hit, o trio passou por "Maps" e chegou na popular "Zero", quando a cantora vestiu a sua infame jaqueta de couro, como manda a música. Talvez por não contar com um baixista, a banda não possui a liberdade de movimentar suas faixas de uma forma inesperada, mas a presença de palco de Karen, como sempre, fez o show.
YYYs - "Zero"
Cheguei na Sahara pra ver os meninos do Late of the Pier na hora em que eles tocavam "Fokker". O mesmo aconteceu com The Horrors, que começavam o hit "Sea With a Sea" quando entramos na tenda Mojave. Vi pouco das duas bandas. Enquanto o Late of the Pier fazia graça, vestia paetê e pulava nas caixas de som, os Horrors tocavam seus instrumentos com as caras mais blasé do Coachella.
Late of the Pier
The Horrors - "Sea Within a Sea"
De volta ao grande palco, My Bloody Valentine já ensurdecia os presentes. A lendária banda de alma shoegazer fez um show que poucos entenderam - mas isso já era esperado. Hipnótico, barulhento e em altíssimo volume, o show do MBV envolveu faixas do famoso álbum
Loveless e outras menos conhecidas pelos fãs. Kevin Shields só tirou os olhos dos pedais de sua guitarra por poucos minutos, enquanto Bilinda Butcher tocava olhando em direção ao nada, em transe. Transe, aliás, é a palavra perfeita pra descrever o show do MBV que, se não agradou quem não era fã, pelo menos marcou presença no inconsciente, por tempo indeterminado.
My Bloody Valentine"
O final épico do Coachella 2009 ficou nas mãos do The Cure. Robert Smith, com a maquiagem pesada de sempre, trouxe a formação original da banda pro palco principal do festival e só saiu de lá quando apagaram as luzes e desligaram a energia do palco. O Cure de 2009 é o Cure melhorado dos anos 80, com o mesmo fôlego e muito carisma emo. O show da banda durou mais de 3 horas e teve um repertório democrático. Smith e cia mostraram que ainda se divertem com faixas clássicas como "Pictures of You" e "Just Like Heaven". Durante "Boys Don't Cry" os amplificadores e luzes do palco foram desligados e a banda contou com a voz dos fãs presentes pra tocar o hit até o fim. A banda ultrapassou 40 minutos do limite imposto pelas regras locais e pela Goldenvoice, produtora do festival. Enquanto The Cure pareceu não se importar em quebrar as normas, os fãs presentes deixaram o Coachella 2009 com a certeza de que pelo menos dessa vez, não precisaram pedir bis.
The Cure
fotos: Henrique Sauer
quem vai cantar lá?
Morrissey: http://www.megaupload.com/?d=RFSZ5DPJ
The Crystal Method: http://www.mediafire.com/?wqyw1emkkom
Ariel Pink: http://www.megaupload.com/?d=7UHNHZH8
The Cure: http://www.megaupload.com/?d=BJO1X0W7
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk