Em uma época mais simples....
Há muito, muito tempo, eras antes da dance music se tornar tão impregnada de rótulos, sub-gêneros e nerds sectaristas; haviam festas e raves onde a maior parte do público buscava apenas diversão, comunhão e escapismo. Era uma época mais simples, pouca gente se importava se as batidas eram retas ou quebradas ou se os timbres dos sintetizadores eram ácidos ou gordos, tudo tinha um sabor de "o futuro é agora" e o espirito de "paz, amor, união & respeito" lembrava o dos festivais hippies do passado. Bons tempos, em que, segundo Josh Wink, uma banana era só uma banana.
O quarto album de estúdio do veterano produtor da Filadelfia é um verdadeiro manifesto contra o que ele chama de "a perda da inocência na música". No press-release desse lançamento, Wink afirma que cresceu ouvindo todo o tipo de som e que na sua época ninguém era ridicularizado por isso, mas que hoje muita gente tende a ouvir apenas um gênero de música e se orgulhar disso. Beirando os 40, o produtor não é mais aquele moleque com dreads descoloridos que embalou as viagens de toda uma geração raver com mega-hits da psicodelia eletrônica como "Liquid Summer" ou a clássica "Higher State of Consciousnes", mas as suas produções atuais resgatam a liberdade criativa dessa época sem soar saudosista ou datado. A leveza com que Wink transita entre gêneros serve como uma verdadeira lição sobre os rumos que a música de pista pode tomar, sem se apoiar no hype de um novo rótulo ou na negação de estilos que vieram pouco antes.
As nove faixas se conectam em mixagens sutis como num set muito coerente, mas uma audição mais atenta revela elementos e referências bem variados. Logo de saída, "Airplane Electronique" mescla as batidas típicas de tech house com um baixo que parece saído de algum hit de UK Garage e que chega a lembrar os melhores momentos de Armand van Helden, mas sem se impor sobre os outros elementos e o que acaba se destacando é uma melodia torta, com modulações lisérgicas típicas do Wink. Os BPMs caem um pouco na faixa seguinte, "Counter Clock 319" (o nome só quer dizer que foi produzida no dia 19 de março), uma referência direta a "516 Acid" de 2004, só que um pouco mais suave e menos retrô. O single com o remix de Chris Liebing foi lançado agora pelo selo Ovum do próprio Wink, mas já vem sendo tocado em sets de tops como Richie Hawtin, John Digweed, Carl Cox, Loco Dice, Laurent Garnier e em especial Pete Tong, que não poupou elogios em seu programa na Radio1 da BBC.
"What Used to Be Called Used to Be" é guiada por uma agradável linha de baixo entre o acid e o funk, mas soa muito minimalista e só ganha força no final da segunda parte. Mais acertada foi a edição de "Jus' Right" para quase metade de seus 17 minutos originais, a cozinha bem marcada é embalada por uma melodia simples, só que enriquecida por dezenas de sintetizadores discretos que não param de variar, mas que jamais comprometem a suavidade da música.
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Josh Wink - Jus' Right (mp3)
O clima de "viagem" continua com "Dolphin Smack", outra que traz um monte de barulhinhos com oscilações estranhas. Wink disse que escolheu esse nome porque um fã ficou pedindo pra ele tocar "aquela dos golfinhos" durante um live set e quando ele entendeu qual faixa era, respondeu "só se for uns golfinhos chapados de heroína (smack)". A faixa é um pouco longa com seus 10 minutos e só ganha fôlego mais para o final que já prepara o clima para "Minimum 23", track que segundo o próprio Wink, mistura os diferentes estilos de house americana que o influenciaram.
As faixas seguintes "Everybody To The Sun" e "Hypnoslave" seguem uma linha parecida, com baixo mínimo mas poderoso, bem marcado no 4x4 e coberto por sons de várias frequências que induzem até os mais sóbrios a um estado psicomimético. E marcam também a sequência que melhor funcionaria numa mixagem para pista:
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Josh Wink - Everybody To The Sun (mp3)
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Josh Wink - Hypnoslave (mp3)
O album reserva a melhor linha de baixo para o final com "Stay out All Night", talvez até porque a melodia delicada acaba destacando o ritmo pulsante que apesar de quase não variar muito, jamais cai na monotonia, graças a um monte de canais de barulhinhos agradáveos com picths variando, típicos do produtor.
No geral o album é tão rico quanto discreto, pode até não impressionar muito numa primeira audição, já que não traz nenhuma novidade, até pelo contrário, as faixas lembram muito o que Wink vem fazendo ao longo de mais de duas décadas como produtor e DJ, só que com uma sonoridade atualizada pela nova tecnologia. O que não é nenhum demérito, considerando o curriculo do cara, mas esse não é um trabalho que enjoa fácil, as faixas precisam ser ouvidas com atenção até todos os detalhes se revelarem - são produções de alto nível que desde já garantem o lugar do album entre os melhores de 2009.
sem querer ser nostálgico, até porque acho a música produzida hoje muito boa mesmo, mas nos anos 90 a dance music se misturava como numa orgia maluca sem hora para acabar. Hoje tudo é muito segmentado e você é induzido a levantar somente uma bandeira. Se declarar amor a vários gêneros musicais que hoje soam antagônicos entre si (só mesmo para os sectaristas de plantão), vc será levado à fogueira tal qual uma inquisição. E pensar que justamente uma das bandeiras da dance music de outrora era em favor da liberdade de expressão, pois todos adoravam, por exemplo, cutucar o conservadorismo do rock.
Sem mais: novo disco do Josh Wink é fodaço e a resenha idem!
Quanto a qualidade de produção não tem o que negar, é Josh Wink e ponto final. Porem, confesso que no geral a sonoridade nao me agradou muito... Achei meio morno.
Mas ja que todo mundo está falando bem, vou sentar e escutar de novo com mais calma.
... E a resenha está realmente legal. Parabéns, Niki!
já deve ter vendido umas 30 copias do album
Uma das melhores resenha que já li aqui na casa.
:D