Capitaneado pelo single "Love Etc.", décimo disco da famosa dupla promove o mais do mesmo com capricho na produção
Imagine que você é um ícone dos anos 80 e, agora em 2009, está prestes a lançar mais um disco (o filme
Diário de Bridget Jones tem um papel coadjuvante que retrata situação semelhante). O que passaria pela sua cabeça? Quais desafios transpor? O que criar de novo - ou o que recuperar? O que provar? Em
Yes, seu décimo disco, a dupla inglesa Pet Shop Boys está longe de passar recibo a alguém, e, ao contrário do desesperançoso amigo de Bridget, evolui em seu costumeiro synth-pop sem mudar o mundo, seguindo apenas com suas virtudes e defeitos.
Se o contemporâneo Depeche Mode retorna agora também, só que raivoso e violento (vide o clipe para "
Wrong"), o PSB trabalha as doze faixas de
Yes em extremos: o pop descartável e tragável pelo inconfudível vocal agudo e cheio de ecos de Neil Tennant, e profundas composições por outro lado. O single de estréia, assim como o novo do Depeche, é de fato a música mais forte. "Love, Etc." tem a batida em cadência que deve muito ao Softcell, só que filtrada para os anos 2000 - fora os pegajosos backing vocals inspirados no Village People.
A letra é manjada, mas bonita, aquela velha história do pop em valorizar a humildade dentro da ambição da luta diária. O clipe é divertido, em animação, e garantirá boa rotação da música em MTVs e VH1s da vida.
Pet Shop Boys - Yes
Este tal "filtro" 2000s para o neo-synthpop se dá pelo apuro exagerado na produção final, culpa da óbvia evolução tecnológica (o lado ruim disso é que todo mundo soa um pouco como Kylie Minogue, caso também de alguns momentos desse álbum). Fora que
Yes é cheio de convidados, e tem acabamento do
dream team de produtores do Xenomania, grupo idealizado por Brian Higgins famoso no UK pelo sucesso do
Girls Aloud, versão inglesa das Pussycat Dolls fortemente influenciada pelo legado das Spice Girls - e que graças ao bom Deus elas são desconhecidas por aqui. Nessa produção polida e que mira as massas, o ápice é "Vulnerable" e sua batidinha FM quebrada, que deve agradar até crianças. A audição ao longo do disco dá uma cansada neste momento e em outras irrelevâncias como "More Than a Dream", que tem lá seu crédito pela boa construção de ponte-refrão e vocais.
De volta aos convidados, tem Johnny Mars (Smiths) nas guitarras e na gaita, em uma participação que faz mais diferença na
press conference do que no disco de fato. O francês Fred Falke, conhecido aqui no rraurl, é dono dos teclados e alguma programação em duas faixas, incluindo o single de estréia. No arranjo de cordas, a London Metropolitan Orchestra e Owen Pallet (Arcade Fire, Final Fantasy) são os pomposos escalados. Mas é a baladinha sem nomões por trás o segundo melhor momento do disco: "King of Rome", um violino sintetizado que conversa com Tennant e uma bateria levemente tropical, displicente e coadjuvante.
live

A ETERNA VOLTA DOS QUE NÃO FORAMO desafio de superar épocas de hits como "Domino Dancing", "
Paninaro", "Being Boring" é hercúleo, e o PSB enche-se de pomba para fazer o bom e velho synth-pop. E paradoxalmente os melhores momentos são quando o foco é mais no trabalho de Tennant/Lowe do que seus ilustres convidados. Aos anos 80, a eterna homenagem - "Beautiful People" é uma mistura de Röyksopp e Echo & The Bunnymen, "Did You See me Coming" é como se Morrissey fosse jovem e bizinha quaquá agora nos anos 2000, sem contar, como já dito, a sensação velha de ouvir o vocal de Tennant.
De modo que, com um baita performance ao vivo, bons hits, carisma e certo ar politicamente correto a seu favor (eles reclamaram recentemente da acefalia do movimento gay; fizeram música para o brasileiro Jean Charles), o Pet Shop Boys lança mais um disco correto, imutável em suas características de sempre. Para finalizar valorizando o lado bom, desse modo a banda consegue trabalhar mais a sua musicalidade, que talvez fãs mais fervorosos (são muitos) poderiam analisar de maneira mais hermética até. Assim como
Fundamental (2006), este é um bom exemplo do pop eletrônico, com a vantagem de "Love Etc." ter mais potencial de hit.
Mas fica o aviso: se você não quer mais saber de influência dos anos 80, esqueça. Enquanto existir Pet Shop Boys, os anos 80 estarão no ar. Idem para o Depeche Mode.
Abravanou Pet Shop Boys!!!