Esta semana, na resenha do
novo Röyksopp, falei sobre maturidade. E abro este texto sintetizando a mesma impressão sobre o terceiro álbum da dupla canadense Junior Boys, intitulado
Begone Dull Care, já lançado na Europa e nos EUA agora em abril. Porque depois do hype em torno de
So This is Good Bye (2006), que rendeu até indicação ao Grammy de melhor remix na versão feita por Carl Craig, Jeremy Greenspan e Matt Didemus lançam um disco em que destilam as referências que lhe derem na telha, longe de apenas criar mais da mesma fórmula, mais do que para passar recibo à fama.
Ainda é o synth pop classudo que lhes cabe, sempre capitaneado pelo timbre sexy de Greenspan, mas agora um pouco mais longe do minimalismo synth-retrô, pois o foco mira em referências específicas do soft rock dos anos 70 e 80, e outras influências, como a homenagem abstrata a Norman McLaren, famoso animador gráfico canadense que sempre trabalhou seus vídeos em simbiose com o jazz e experimentos sonoros. Outra curiosa menção que o disco faz é ao falecido baterista
Jeff Porcaro, um dos fundadores do Toto (sim, aqueles do hit "
Rosana"), e responsável pelas baquetas em faixas de Michael Jackson (no álbum
Thriller, veja só), Paul McCartney,
America e outros.
Em longa
entrevista à XLR8R, Greenspan recorda que "durantes as sessões do álbum eu ouvia muito desse 70s
MOR (middle-of-the-road soft rock) de Steely Dan, Crosby, Stills, Nash and Young, Carole King. Nós sempre tivemos a intenção de arregaçar as mangas e trabalhar em torno do que nos interessa, do que ouvimos". Porcaro, com seu compasso delicado e sensual, ao mesmo tempo firme, ajudou a musicar as batidas do R&B e do tal soft rock, talvez o lado mais cafona que o pop rock já criou, mas que não deixa de ser interessante - quem ouve Alpha FM e Antena 1 que o diga.
Flash Content
Junior Boys - Hazel (mp3)
Logo, dá para contextualizar que
Begone Dull Care, apesar de suas oito faixas serem cheias de referências vintage e dos temas do amor adulto, bebe da fonte que alimenta toda a música pop eletrônica: a remissão quase freudiana ao passado, à infância e às origens, algo sintomático desta era indefinível em que vivemos - um poço de efemérides para se encontrar uma identidade que não se sabe bem, uma sensação sempre existencialista. Dentro da sonoridade Junior Boys, o synth minimalista de molengas batidas quebradas e com influência soft-R&B dá ares românticos à uma eletrônica cada vez menos para a pista (exceção de "Work", ponto alto do disco), bastante orgânica dentro das ilustrações humanas. São canções, músicas, e não batidas simplesmente - mas não vejo a hora que saírem os primeiros remixes. "Hazel" é o hit inicial, tem uma levada negra e safada, notas de Daft Punk fazendo a vez de guitarra e um "Yeah" nos refrões que é irresistível.
Jeremy Greenspan e Matt Didemus: soft pop

REFERÊNCIAS, ROMANCE CAFONA E A NOSTALGIA DO JUNIOR BOYSSobre McLaren, Greenspan disse na entrevista o seguinte. "Todas as coordenadas de meus interesses e minhas idéias convergiram a Norm McLaren, por alguma razão. Eu estava ouvindo muito dessa música experimental de sintetizador, e ele mesmo foi um inovador completo, criando essas sínteses sonoras que ninguém nunca tinha feito antes", rasga-se em elogios. "Eu quis usá-lo como uma analogia a tudo que eu queria ser como artista, tudo que pensei ser importante". O título do disco,
Begone Dull Care (algo que não consegui traduzir ao pé da letra) é o nome de uma animação de oito minutos do artista, que pintava diretamente sobre o rolo de filme em movimento, e com ranhuras em suas bordas criava curiosas interferências eletrônicas ao rodar a película no projetor -
assista aqui. Em 1952, ele foi pioneiro na interação entre artistas e animação stop-motion, tendo levado o Oscar pelo curta
Neighbours.
De volta ao Junior Boys, o tom de Greenspan na entrevista é de como se o projeto fosse um resumo de suas idéias apenas, mas isso transparece pelo fato que seu parceiro Matt Didemus esteve mais distante na composição do disco, ele que mora em Berlim, e não em Hamilton (Canadá). De modo que, para quem ficou impressionado com o bom repertório e as mixagens do
Body Language 6, e busca o ritmo mais dançante e sombrio que ficou famoso no disco anterior, vale ouvir a já citada "Work" e a primeira faixa "Parallel Lines", que deixara para lá o rock brega-chic e remete a outras influências mais underground: Visage, Yellow Magic Orchestra e toda a magia carregada da música dos anos 80, predominantemente. "The Animator" tem camada de efeitos simbilantes, influência da acid music bem palatável para qualquer clubber de 2009 - mas a faixa tem como contraponto a pomposa influência do baterista do Toto: o baixo e as batidas acalmam o vocal, em sua tensão romântica e afetiva, até explodir serenamente em violinos.
live @ TIM Festival 2008

Tudo bem que tanta doçura pode enjoar, o que faz este disco não ser palatável para muitos que descobriram a banda no famoso disco predecessor: Greenspan afeta bastante a voz em "Dull to Pause", que tem até questionáveis violas eletrônicas, e uma mente mais sarcástica pode dizer que "Sneak A Picture" é o Sampa Crew dos modernos, como eu já ouvi por aí. Mas tudo bem, é normal nestes tempos irônicos e desesperançosos que a cafonice do música romântica e rebuscada ser alvo de piadas. Mas lá no seu íntimo, tarde da noite, é um disco que vai fazer pensar sobre como você sente as coisas, ou ao menos te reportará para um tempo distante em que você era feliz - ou desejava ser. Freud explica, mas você que gosta de eletrônica adulta vai entender. Assumir e expressar isso em música é a louvável maturidade do Junior Boys.
Arrasou na resenha, Jade.
Coloquei o disco no meu blog "kopimi" pra quem quiser baixar. kkk.
www.thanksforchering.blogspot.com