Just a Fest - SP (22/mar)
Thom Yorke em SP
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Ano: 2009
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Just a Fest - SP (22/mar)
O futuro vintage do Kraftwerk e o sublime show do Radiohead em festival que é boa-nova para o capitalista roteiro de eventos no Brasil
23.03.09 16:55
Irônica ou pretensiosamente chamado de Just a Fest, o novo festival que teve palco este fim de semana no Rio e em São Paulo, pode ser considerado um esperançoso divisor de águas no roteiro de eventos musicais do Brasil. Sem logomania, quiosques promocionais, ações virais e curadoria esquizofrênica subvertida aos interesses de estratégias de comunicação, volta a ser destacada uma estética de evento simples, mas potente, que atrai algumas dezenas de milhares de pessoas para ver atrações com significância artística de fato e coerência de escalação, como foi o trio Los Hermanos revival, Kraftwerk e Radiohead. Ou seja, apenas uma (boa) festa.

A edição paulistana do festival (domingo, 22 de março de 2009) mostrou que é possível um festival financeiramente autosustentável, com público cativo atraído pelos shows significativos. A Chácara do Jockey, Vila Sônia, zona oeste da cidade, comportou com conforto o público, mas por outro lado sofreu com o trânsito das avenidas adjacentes no bairro e o escasso de transporte público para grandes massas. O tumulto foi pior na saída, já que o estacionamento de três mil carros virou um caos quando todo mundo procurou ir embora ao mesmo tempo. A Chácara é o mesmo local de outro evento, a também bem sucedida edição São Paulo do Claro q é Rock 2005 (NIN, Sonic Youth, Flaming Lips, Iggy Pop & The Stooges, etc).

Chácara do Jockey, logo cedo
Chácara do Jockey, logo cedo


Antes criado só para receber o Radiohead, a adição de Los Hermanos e Kraftwerk vislumbrou o Just a Fest como possibilidade de um novo evento fixo no calendário, quiçá um novo formato - ou um sinal dos tempos: menos marcas, mais produtores atrás de bandas que atraem público, esta a única e devida fonte de renda. Luiz Oscar Niemeyer, que comanda a produtora Plan Music, disse em entrevista ao rraurl em janeiro que há a vontade de manter o evento, dependendo da viabilidade econômica ou do bom arranjo de atrações. Enquanto operadoras de telefone e marcas de bebida drenam verbas para os eventos, é melhor depender do giro econômico dentro das possibilidades do evento por si só. Afinal, a crise é uma realidade.

Contou a favor o palco bonito e de bom som, a pontualidade das atrações e até São Pedro/Cacique Cobra Coral, pois o domingão musical na Vila Sônia terminou com céu aberto e estrelado, cenário lindo para o multicolor show do Radiohead. O evento aconteceu também sexta (20/mar), na Praça da Apoteose, Rio de Janeiro. As resenhas dos shows de Kraftwerk e Radiohead em São Paulo seguem abaixo, respectivamente pelas mãos de Alisson Gothz e Jade Gola.


KRAFTWERK VERSÃO REMIX

Contemplação. Essa foi a melhor palavra pra definir a terceira passagem do Kraftwerk por São Paulo. Se no show de 1998 o sentimento geral era de "oh meu Deus, não acredito que eles estejam aqui!" e em 2004 a ordem era se acabar de dançar, desta vez os pioneiros de Dusseldorf tocaram para seu público brasileiro mais numeroso e puxaram o freio, como que dizendo: senta e curte!



Talvez impulsionada pela sonoridade do Radiohead, a escolha das faixas privilegiou versões mais melodiosas e densas, com momentos mais climáticos, no lugar do pancadão dos shows anteriores. Foi um tiro absolutamente certeiro: por mais sacrilégio que seja dizer que o Kraftwerk "abriu" um show para outra banda, a incrível performance do Radiohead naquela noite não poderia ter tido um aquecimento mais fabuloso. Fãs mais religiosos podem ter se decepcionado pela curta duração do show (apenas uma hora!), mas isso acabou sendo recompensado - e como! - quando Herr Hütter começou a cantar o clássico "Showroom Dummies" em português. Presentaço. E vamos concordar: uma hora de Kraftwerk é sempre bem vinda - e muito melhor do que tudo o que o Los Hermanos produziu em toda sua carreira.

Praticamente todas as músicas sofreram alguma alteração e apareceram em versões diferentes. O show abriu com "Man Machine" e seguiu com "Planet of Visions", notadamente modificada. A dançante "Numbers" apareceu mais curta, com pouco mais de dois minutos, dando espaço para "Computer World". "Tour de France" surgiu na versão "Etape 2", uma das melhores - mas que causou um pouquinho de saudades do show de 1998 quando a sua versão original foi gritada à plenos pulmões pelo público. "Autobahn" vem em seguida, também curtinha, mas nada que tirasse seu brilho viajandão. "The Model" põe o povo pra dançar e abre caminho para a já citada "Showroom Dummies", que na segunda estrofe surpreende a todos com os vocais em português de Herr Hütter - "Estamos indo dançar", declamava o imperador.



"Radioactivity" e "Trans Europe Express" foram momentos de puro êxtase eletrônico, seguidas pela sempre ótima "Metal on Metal", com a genial batida techno/industrial que ecoou pelos quatro cantos da Chácara do Jockey. E "The Robots" causa sempre alvoroço com a presença - ainda que breve - dos quatro robôs mecânicos que dançam ao som da música (outra pausa pros fãs mais velhos lembrarem a indescritível emoção de vê-los pela primeira vez por aqui). A versão da música também foi remixada, misturando a original à versão "The Mix".

"Aero Dynamik" dá início ao fim da celebração eletrônica do quarteto alemão e atinge o auge dos efeitos especiais no telão e na iluminação, que causam um enorme impacto junto com o já conhecido uniforme neon dos quatro músicos. O show encerra com "Music Non Stop", com cada um deles produzindo um solo em seus laptops e saindo de cena um a um. Mais uma vez, Kraftwerk mostra quem é o mestre, e quem são os seus pupilos.

Kraftwerk @ Free Jazz festival (1998)
"intro/numbers" - "computer world" - "homecomputer" - "man machine" -
"tour de france" - "autobahn" - "the model"
"airwaves" - "sellafield/radioactivity" - "trans europe express" -
"pocket calculator" - "the robots/robotronik"
"luton song" - "music non stop"

Kraftwerk @ TIM Festival (2004)
"intro" - "man machine" - "expo 2000" - "tour de france etape 03" -
"vitamin" - "tour de france"
"autobahn" - "the model" - "neon lights" - "radioactivity" - "trans
europe express" - "numbers"
"computerworld" - "homecomputer" - "pocket calculator" - "the robots"
- "elektrokardiogramm"
"aerodinamik" - "music non stop"

Kraftwerk @ Just a Fest (2009)
"man machine" - "planet of visions" - "numbers" - "computer world" -
"tour de france etape 02"
"autobahn" - "the model" - "showroom dummies" - "radioactivity" -
"trans europe express"
"metal on metal" - "the robots" - "aerodynamik" - "music non stop"




RADIOHEAD: W E H O P E T H A T Y OU C H O K E

A fase In Rainbows do quinteto inglês Radiohead é seu momento mais alegre, era de maior doçura desde que a banda inglesa assumiu a cabine da nau que leva o rock pelos mares profundos da experimentação eletrônica, eletroacústica e orquestral. Aportados na fama, a banda ganhou leva de fãs e apontou um novo modo de criar música pop. O show apresentado no Just a Fest foi a perna latinoamericana da turnê madura de uma banda que não quer ser a maior do mundo, apenas é naturalmente atual.



Tudo fluiu para que o grupo encantasse: o dub opiáceo no intervalo, o suntuoso palco dórico de som cristalino (sem logotipia), a psicodelia política das bandeiras do Tibete, os tubos acortinados que, como bits gigantes decorativos, podia ser um vela flutuante, um mármore caramelizado, ou o mais puro vermelho sanguinário e estróbico. Tudo no show deles soa novo ou simplesmente estupefato. Os holofotes eram paradoxalmente lindos, em forma de brilhantes, ao mesmo tempo que o telão exibia closes viscerais do rosto de Thom Yorke cantando. Ou gemendo, porque a musicalidade do quinteto é tanta e a resposta do público era tão proporcional, que ele só precisava balbuciar para assumir tons de um barítono púbero.

Foram 20 e poucas músicas, mais de duas horas, três bis e todas aquelas que milhares de fãs queriam ouvir. "Creep" foi redentora e encerrou com o palco fluorescente e cores epilépticas. A banda e seu "you're fucking special" subvertem a o american dream roqueiro de banda perfeita, carismática e bonita. E isso sem bater continência a qualquer outro engodo que, assim como os EUA, a Inglaterra pode criar. Num só riff e gemido de "Lucky", Ed'O Brien engole e vomita tudo que Pulp, Strokes, Oasis, Blur e o britpop criaram em anos. Eles são tímidos e reservados, mas não humildes - apenas objetivos. "The best you can is good enough" (em "Optimistic") resume bem as sempre pontuais intenções da banda, enquanto guitarras flamejantes empurravam a tensão até uma explosão de luzes de lava e epopéia rocker, a bateria posta estratégicamente lá atrás para exigir mais de Phil Selway.

Ali na muvuca do meio, não muito longe de Thom mas também não no gargarejo, as reações eram múltiplas: berros e saudações, canto espontâneo - palmas, muitas palmas - e um bingo de fã pedindo, decifrando ou adivinhando o nome de alguma canção, o que criava uma mistura de verbetes extranhos como "subterranean telex just, just! JUST! paranoid android"... Nessa confusão do som pós-moderno os hits, momentos tão humanos e identificáveis entre artista e público. "Paranoid Android" consumiu um bloco inteiro com seu refrão detentor de guitarra arisca e suja, o back2back entre o público na letra certa e Yorke cantando inverso, toda uma missa Radiohead com ápice na moribunda e acústica "Exit Music": o céu estrelado, notas flutuantes e assustadoras de Jonny Greenwood e público em silêncio cantando o vale das almas. "Breathe, keep breathing"...

Em "The Gloaming" (o crepúsculo), a dicotomia rock e eletrônica da banda teve seu ponto alto, com o verde cor de bit, a base dubstep achatada e Thom Yorke cantando mais melódico e delicado do que o que se ouve no disco (Hail to The Thief, 2003), quando no final alguém na mesa ou sei lá onde picota a saída do microfone em diferentes caixas e lugares no espaço. Mais intervenção na inserção de rádio local em "The National Anthem", que Yorke explica em sua única e boa entrevista ao Brasil; e também na gravação do barulho e das reações da platéia perto do fosso, utilizadas como interlúdios e camadas de um modo que não se entendia de onde vinha aquele som. É como um grande "live act", em que tudo é construído e orquestrado ali. Como quando alguma guitarra geme e os bumbos são golpeados em marcha por Ed e Jonny, Thom dançando esquisofrênico e bizonho, até que num pulo ele para tudo o que acontece, a música acaba e ele no mesmo instante vai até a lateral e conversa algo muito que precisamente com alguém da produção.

Jonny Greenwood
Jonny Greenwood


Como dito, In Rainbows é doce, quase pueril, mas quente - em "House of Cards", o infalível verso "I don't wanna be your friend / i just wanna be your lover". Sobre a doçura, "Weird Fishes/Arpeggi" e "Reckoner" são tão possíveis de associação com a infância quanto "Fake Plastic Trees", conhecida aqui por uma campanha de TV para crianças deficientes. Em "Videotape", o espamo de delicadeza de Thom (que ele comenta na entrevista do Edgard Piccoli) abre para um dos encerramentos, o arpeggio de "Everything in It's Right Place" e a acidez do limão matinal.

E o show é mesmo como um choque, que frita o cérebro e arregala os olhos alma adentro a serviço da expressão humana, algo muito além de rock'n'roll, música eletrônica, "coisa de depressivo" e uma ou duas canções famosas. Para os iniciados, Radiohead ao vivo é a entrada tridimensional para um mundo sonoro e visual de questões conflituosas e canções dançantes e assustadoras - o que importa é que elas são intensas.

Os não-iniciados puderam entender mais a banda nestes shows brasileiros, e fica a apresentação de uma epopéia sonora e confusa, mas fascinante como o brilho mais intenso de um diamante luminoso em forma de LED, ou o simples e contagiante solo de guitarra dançante. Mesmo que não tenha despertado o deslumbre, a incompreensão é prova da amplitude artística da banda.

Para muitos do que saíram da Chácara do Jockey, algo muito sério acabara de acontecer. Ficou a sensação abobada de ver o espetáculo musical mais significativo da nossa geração, com todos os superlativos que sua alma disconexa possa arranjar. Nós vimos o futuro, e ele estava logo ali.

Fotos: Julio Taubkin, Alisson Gothz, Marcos Hermes e Bianca Tatamiya

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
Alisson Gøthz
Alisson Gøthz
comentários
54 comentários
shows inesquecíveis, sem palavra, sem exageiros, mudei muita coisa por causa dessa experiência.
lomeu
lomeu(25.03.09)
3AprovadoQueima
- soh tinha um lugar onde ficavam os banheiros masculinos (a esquerda do palco) ou eu que procurei mal?
- o que era aquela "fila" para pegar cerveja no intervalo dos shows mestres-de-tudo-que-importa-depois-dos-70/radiohead? soh fui tentar pegar bebida la essa vez e nao voltei mais.
- pq abriram somente aquela saida no fundo? saida estranhissima, com uma lotacao absurda e desnecessaria.
- porra, eles trouxeram o radiohead pra tocar no brasil! qdo eu estava vendo o show, eu ate me esquecia desses detalhes, mas rolou um perrengue, sim. se bem que acho dificil nao haver perrengue algum num festival para esse numero de pessoas.
- na saida, pisar naquele gramado parecia pisar em nuvens. sai de la, sobretudo, feliz.
lomeu
lomeu(25.03.09)
3AprovadoQueima
- "Nós vimos o futuro, e ele estava logo ali."
o que vimos foi o presente!...na sociedade moderna eh mto comum a romatizacao do passado, agora jogar para o futuro uma experiencia arrebatadora como a que foi o show do radiohead eh simplesmente desconsiderar toda a trajetoria dessa banda, a ponto de desvalidar o que de fato a destaca de outros artistas: seu carater vanguardista. vanguarda nao quer dizer futuro, mas justamente a relacao anacronica entre o lugar comum da grande massa de producoes atuais e a inovacao/experimentacao de artistas como eles.

- toda hora que o thom yorke pegava o violao eu torcia para ser "true love waits"....e nao era. mas quando ela apareceu por 40seg. no bis, seguida de "everything in its right place", NU!
- som cristalino a centenas de metros de distancia do palco! impressionante
- senti falta do baixo gordo de "all i need" na apresentacao ao vivo...
- a sincronia entre os bastoes/luminarias e a guitarra distorcida em "creep" era de inundiar a retina, pqp!
Marina Lang
Marina Lang(25.03.09)
2AprovadoQueima
pelo visto, tem problema em ser fã do radiohead, né? gosto deles e do kraftwerk, me diverti horrores em ambos os shows, e são duas coisas completamente fodas e distintas. isso não me faz uma pessoa acrítica, mas apreciadora de boa música. simples assim.

radiohead não se curte por questão de gosto. não porque eles não sejam os excelentes músicos que, efetivamente (e a despeito dos malas que insistem em falar mal), são.
Rodrigo
Rodrigo (25.03.09)
0AprovadoQueima
lindo
perfeito
maravilhoso