Discos lançados entre 1970 e 1973 mostram uma banda que ainda moldava o som que a tornaria famosa
Quando falamos em Kraftwerk, lembramos sempre dos homens-robô dançando ao som de faixas como "The Robots", "Trans Europe Express" e "Music Non Stop". Mas é claro que tudo isso começou muitos e muitos anos antes, numa fase da banda que pouquíssima gente conhece.
O Kraftwerk que se tornou famoso como "pais da música eletrônica" só surgiu mesmo com força total depois do álbum
Autobahn, de 1974. Antes disso, seus membros fundadores Ralf Hütter e Florian Schneider (amigos desde os tempos de escola) já faziam os primeiros experimentos com a eletrônica, mas eram muito mais ligados ao kraut rock e à música experimental de vanguarda do que qualquer outra coisa. Ouvir os quatro primeiros discos lançados por eles é quase como descobrir uma banda completamente nova.
Vale notar que tanto Florian quanto Ralf não são lá muito fãs destes primeiros trabalhos do grupo, e Florian inclusive chegou a definí-los como sendo "artigos arqueológicos". Nenhum deles nunca foi relançado oficialmente tanto em vinil quanto em CD e nenhuma de suas músicas são tocadas ao vivo desde 1975.
Às vésperas da
terceira visita do grupo ao Brasil (as outras duas foram em 1998 e 2004), resolvemos fuçar no baú do Kraftwerk e revisitar o passado deste que foi o maior revolucionário da música eletrônica em todos os tempos.
TONE FLOAT (ORGANISATION - 1970)
Antes de formar o Kraftwerk, Ralf e Florian faziam parte do quinteto
Organisation, uma banda de kraut rock extremamente experimental, e cujos outros membros eram Basil Hammoudi, Butch Hauf e Alfred "Fred" Mönicks. Charly Weiss, Peter Martini e Paul Lorenz participavam esporadicamente.
Produzido pelo mago
Conny Plank, o único álbum do Organisation foi lançado em agosto de 1970 e foi um fracasso.
Tone Float abre com a faixa de mesmo nome que ocupa todo o lado A do disco com seus vinte minutos de duração. O lado B é composto por outras cinco faixas basicamente instrumentais que soam como uma grande jam session. Algumas edições piratas do álbum trazem a faixa extra "Vor dem blauen Bock", cujo nome verdadeiro é "Rückstoss Gondoliere" (ou "Truckstop Gondolero"), que é uma gravação de uma apresentação ao vivo que eles fizeram num programa de TV alemão chamado
Beat Club em 1971.
"O estúdio ficava no meio de uma refinaria de óleo. Quando saíamos dele era possível ouvir o barulho daquelas chamas enormes queimando tudo - todos os tipos de sons industriais", declarou Ralf numa entrevista. Não é a toa que, pouco tempo depois, o Organisation se dissolveu e ele e Florian montaram sua própria "usina de força".
Flash Content
Organisation - Milk Rock (mp3)
Flash Content
Organisation - Silver Forest (mp3)
KRAFTWERK 1 - (1970)
Para este novo projeto, Ralf e Florian não pensaram duas vezes e chamaram Conny Plank novamente para produzí-los. A experimentação eletrônica já dava seus primeiros passos, mas ainda assim este é um disco que nem de longe lembra o Kraftwerk que a maioria do público conhece. Também faziam parte do grupo Andreas Hohmann e Klaus Dinger.
Kraftwerk 1 abre com a faixa "Ruckzuck", com Florian mandando ver num solo de flauta (!!) emaranhado em ruídos eletrônicos. Entre outras faixas do álbum estão "Stratovarius", "Megaherz" e "Von Himmel Hoch".
Kraftwerk - "Ruckzuck" (ao vivo na WDR TV em 1970)
A certa altura, Hohmann resolveu deixar o grupo e foi substituído por Michael Rother. Na mesma época, o baixista Eberhardt Krahnemann foi incluído na banda mas logo saiu ao brigar com Hutter - que também resolveu abandonar o barco. Florian não se fez de rogado e continuou o Kraftwerk como um trio (ele, Dinger e Rother) e essa formação pode ser vista na apresentação da faixa citada acima "Truckstop Gondolero", também no
Beat Club. Foi aí também que os famosos cones símbolo da banda apareceram pela primeira vez.
KRAFTWERK - "Truckstop Gondolero"
Pouco depois, Rother e Dinger saem da banda para formar outro projeto seminal do krautrock, a banda
Neu!, e Ralf fez as pazes com Florian e retornou ao Kraft.
KRAFTWERK 2 - (1972)
Juntos de novo, Florian e Ralf começam a moldar o que viria a se tornar o som do Kraftwerk tal qual conhecemos hoje.
Kraftwerk 2 foi gravado inteiramente pela dupla, e é um álbum visivelmente mais eletrônico, que contava com o uso de bateria eletrônica pela primeira vez.
"Ninguém queria tocar conosco pois nós fazíamos coisas muito estranhas, efeitos e overtones e sons e ritmos... Nenhum baterista queria trabalhar com a gente por causa dos aparelhos eletrônicos que usávamos", lembra Hütter.
A primeira faixa do álbum, "Kling Klang" batizaria tempos depois o
mitológico estúdio secreto onde eles gravaram todos seus outros discos, e é acompanhada no lado A com a faixa "Atem". O lado B tem quatro canções ("Strom", "Spule 4", "Wellenlange" e "Harmonika") que mostram a clara evolução no trabalho de composição da dupla, que abriu mão da sonoridade improvisada das jam sessions anteirores e se preocupa mais com a estrutra das melodias.
Flash Content
Kraftwerk - Strom (mp3)
Flash Content
Kraftwerk - Spule 4 (mp3)
Flash Content
Kraftwerk - Atem (mp3)
RALF UND FLORIAN - (1973)
Em 1973, a dupla grava seu melhor trabalho desta fase, já dentro do estúdio Kling Klang. O disco marca também a primeira vez que o violinista e pintor
Emil Schult participa do grupo. Schult se tornaria um dos maiores colaboradores do trabalho do Kraft até hoje, sendo quase que um "membro não oficial" do grupo, cuidando não só das composições como também da parte visual e gráfica, como por exemplo criando a
ótima capa do disco
Autobahn (1974). Foi também a partir do álbum
Ralf und Florian que o baterista Wolfgang Flür começou a fazer parte da banda - ainda que não tivesse participado da gravação do disco, apenas das apresentações ao vivo. Flür, juntamente com
Karl Bartos (que entrou no grupo só dois anos mais tarde) consagraram a formação clássica do Kraftwerk como os quatro homens-robô.
Deste álbum, destacam-se as faixas "Tanzmuzik" e "Ananas Symphonie", esta última apresentando vozes computadorizadas pela primeira vez na história da banda, e que foram produzidas por um antigo aparelho que precedeu os vocoders. Entre outras faixas estavam "Tangebirge", "Kristallo", "Heimatklange" e "Elektrisches Roulette".
Kraftwerk - "Tanzmusik"
1975 EM DIANTECom o sucesso comercial de
Autobahn, graças ao single homônimo que pela primeira vez entrou para as paradas de sucesso na Inglaterra e em vários países da Europa, a banda começou também a excursionar com mais frequência e finalmente ter todos os holofotes da imprensa voltados para si. Seus álbuns seguintes, já com a formação clássica (Hütter, Schneider, Bartos e Flür) acabaram entrando para a história dada à sua enorme contribuição à música eletrônica.
Em 2009, na sua terceira vinda ao Brasil, apenas Ralf Hütter permanecesse na banda. O Kraftwerk se apresente nesta semana no Rio de Janeiro e São Paulo com a seguinte formação: Ralf Hütter, Fritz Hilpert, Henning Schmitz e Stefan Pfaffe.
sou realmente apaixonado pela melodia de --> Metropolis e Space Lab.....
e consigo enxengar parte dessa melodia no Organization.... muito bom ver isso....
Otima Materia.... tanks
Uma boa matéria sobre o Krautrock alemão...e vai dar pra entender o pq da semelhança do som do Kraft antigo com o Floyd:
http://musica.uol.com.br/ultnot/2009/03/10/ult89u10380.jhtm
Dessa fase pré-Autobahn,o meu preferido de longe é o Ralf & Florian,cuja sonoridade supreeende visto a tecnologia da época,além do amadurecimento das idéias musicais em relação aos discos anteriores.
Ótima matéria!