Produtor alemão e DJ residente do Berghain, Klock impressiona em seu álbum de estréia
A estréia em álbum do produtor alemão Ben Klock tinha tudo para ser um êxito. Boa pinta, bom DJ, já aprovado em boas faixas por selos como BPitch Control e residente do clube mais underground do mundo, o berlinense Berghain.

E o resultado é que
One impressiona bastante, indo além do que se espera.
Lançado pelo
Ostgut, justamente o selo do Berghain e casa de Shed, Cassy e André Galuzzi,
One ajuda a consolidar muito mais que a identidade de um artista, mas sim uma era musical de uma cidade. Claro que falo de Berlim. E é necessário deixar claro que essa imagem parte sim do minimal techno, mas se consolida somente quando vai além. Pois Berlim é um epicentro cultural na Europa - com todo seu contexto econômico e juvenil favorável e a efervescência de um roteiro abastadíssimo de clubes e casas de show, e não terra de um único som.
Para exemplificar essa elasticidade que Klock trabalha bem no álbum, vale focar na segunda faixa, a melhor do disco: "Goodly Sin". Mais que a gélida Alemanha, a sensação aqui remete a Detroit por seu house encapsulado no chimbau marcadíssimo, que navega bem ritmado em contraposição aos loops. As vozes inseridas cirurgicamente aqui e ali não dão cara de canção, só adicionam camadas de almas humanas.
Flash Content
Ben Klock Feat. Elif Bicer - Gooldy Sin (mp3)
"OK" é irmã siamesa de "Goodly Sin", e juntas protagonizam esta visão de groove por olhos alemães, que traz uma idéia imediata, quase clichê: a pista escura, cheia, insana e úmida, os
speakers reverberando e a cintura dançando.
Outra fatia do bolo de
One é o lado
dubby, influência clara de Basic Channel e mais um capítulo do mini-zeitgeist dub techno que hipnotiza o 4x4 desde 2007, 2008. "In a While" não tem a alma de um Claro Intelecto, e nem mumificado como o som do
DeepChord, já que certa melodia é depositada em notas escaladas e chibatadas estelares.
@ Vegas, 2008

Essa música alemã contemporânea é orgânica até o dedão do pé. Mas esse conceito que soa de um simplismo Darwinista irremediável cai por terra quando a música eletrônica, necessário lembrar, é mais uma expressão musical criada por
humanos, e isso transparece nem que seja em pequenos detalhes. Ben Klock cria no disco uma associação entre expressão corporal e música, com faixas intituladas como "Check for Pulse", que soa mais como a tensão ocasionada pela pressão alta. As contagens cardiovasculares ficam para a sombria "Underneath" e a borrachuda "Gloaming".
Flash Content
Ben Klock - Underneath (mp3)
Um lado inclassificável e experimental (no sentido de tentativas incomuns) é audível na curiosa "Thirteen Rounds", quebrada e com uma base-serrote que poderia ambientar bem o electro dark de The Knife e afins. Nessa mesma linha, "Gold Rush" é a tentativa de Klock no dubstep. Só que ele ainda está mais para Rod Modell do que para Kode 9, principalmente pela ambientação que faz o break frenético estourar muito mais devagar, letárgico.
Talvez a experiência de um DJ residente, que toca na mesma pista por tantas horas, faz com que a versatilidade seja trabalhada dentro de um fio condutor esticado pela coerência. Afinal, não é fácil ir do dub techno ao minimal, passar pelo acid (ouça "Cargo") e terminar num break irreconhecível. Isso vale tanto para um DJ set quanto para um álbum. Ben Klock o faz com muita técnica, provavelmente com um bom background de referências e, aposto, muita intuição.
Ele podia voltar aqui agora que lançou um álbum completo, hein?!?
synths que chegam a dar calafrios....